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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

«Os Velhos», por M. E. C. («Adoçar a despedida»)

 - de «Adoçar a despedida» - título da Crónica de hoje:

[...] A vida ajuda a pintar a vida de preto. Morrem os pais, os amigos, os senhores da mercearia e os borrachinhos por quem se estava apaixonado. Face a esse desconsolo, basta um pequeno esforço para nos convencermos de que isto nunca esteve tão mau como está agora, os jovens nunca foram tão incompreensíveis, a moralidade nunca esteve tão soterrada e as artes nunca estiveram tão rasteiras como hoje estão.
Quem desdenha quer morrer.
Os velhos miserabilistas fazem como os namorados que arranjam discussão no fim das férias, para não custar tanto a separação. O objectivo é, um dia antes da morte, chegar à conclusão: "Não há quase nada nesta vida que me convença a ficar." [...][sublinhados acrescentados]

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Solidão (o direito à), por M. E. C.

 - Crónica de ontem de M . E. C. - que «vem mesmo a Talhe de Foice» para a Pausa da P. [...]

RECORTE (S):

[...]

A solidão é um intervalo. [...]
É preciso saber de um campo escondido no meio da cidade, ou de um pinhal longe de onde passam os carros. Mas é preciso ter maneira - tempo, autorização, vagar, transporte - para lá chegar.
É preciso poder fugir - mas ter onde voltar. A solidão feliz é sempre temporária. Não rejeita ninguém: refresca toda a gente.
Estar sozinho onde não está mais ninguém, olhando para as árvores e para a linha do mar, é matar uma saudade. É matar a saudade da solidão antes de nascermos - e [é matar a saudade] da solidão com que vamos morrer. [...]

[com sublinhados e acrescentos]


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

«saudade pronta a vestir», por M. E. C.

 Recortes da Crónica de hoje - «A saudade espalhada», de M. E. C.:

     Uma coisa que a pandemia trouxe ao mundo inteiro foi a saudade.
[...] Ouço crianças que me falam como velhos numa casa de fados, evocando um Verão perdido, descrevendo o que perderam, lembrando-se de como era e duvidando que volte a ser assim.
     Já não interessam as idades: as cidades, as nacionalidades, as identidades. A todas custa. Todas se assemelham na consciência de não ter dado valor ao que desapareceu de um momento para o outro. Todas são capazes de conjugar a palavra saúde com a palavra saudade.
     É como se toda a gente tivesse perdido um ano. Nunca saberão como teria sido esse ano se não tivesse havido a pandemia. Teria sido como os anteriores? A saudade provoca esse engano de fazer caber todos os Verões num Verão roubado
[...]A saudade que até há pouco tempo era uma especialidade portuguesa tornou-se um passatempo universal – no sentido mais saudosista da palavra.
     Há aqui uma oportunidade única de negócio. Nenhuma literatura, nenhuma música, nenhuma azulejaria está tão impregnada de saudade como a portuguesa.
     Porque é que outras culturas hão-de perder anos a tentar tirar o sentido do que se passou, se a portuguesa já tem a saudade pronta a vestir?

 [sublinhados acrescentados]


domingo, 20 de outubro de 2019

A Diva e o Panda

autoria da Ilustração não indicada
na «SantaNeT»....


- uma das primeira leituras, após «Docel», «Flor da Império»..., a dona Lina a perguntar 
«se tinha ouvido, pela Uma e tal, a TRagédia, dois prédios adiante....»