domingo, 19 de março de 2017

«Como ladrão ou mulher pública:...» - «Harmónio» - Eugénio

[terá sido entre 02 e 05, que J.  ouviu (o italiano) F. Bert. - «às voltas» com o Dout., referir a «raridade» de poemas relativos ao Motivo do Pai na obra de E. de A....; este será um deles?]

Harmónio

Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio,
a masculina 
música roubada às fontes.
Não te esperava; só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte, que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade, «Harmónio». Transcrito da p. 47 de Em nome do Pai - Pequena antologia do Pai na Poesia Portuguesa, Modo de Ler, 2008
[de Ofício da paciência, 1994]

sexta-feira, 17 de março de 2017

«Serenidade» - Raul de Carvalho + Salgado + Viegas

- «CinePovero» designa-a como «Narrativa Visual» - «poderosíssima»
[2.ª versão]                                - AQUI

[quarta, 22, pelas 8 e 35;
- a dona A., Assist. Op., depois de olhar para algumas das fotos de S. S.:
«Isto tem a ver com a Páscoa, não é, sr. P.?»]

quarta-feira, 1 de março de 2017

Campos Carnavalesco


- reproduzido de artigos do OBSERV. sobre Lazarim (Lamego) + o «centro interpretativo da máscara ibérica»...
- com «dossiês fotográficos»

AQUI

e

AQUI


(quanto ao outro carnaval, o «industrializado»...)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

António é o Nome de Rómulo

- nos 20 anos do falecimento, «dossiê» do OBS sobre o Homem e a Obra, com várias referências documentais e , ou, biográficas, fotos... AQUI

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Camões - Autopsicografia





«Camões (segundo José Malhoa)», 2014,
de José Almeida Pereira - http://josealmeidapereira.blogspot.pt/
[Galeria Graça Brandão]

- avistada no Público de hoje, no dossiê relativo às Galerias que «vão» ao ARCO... 


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Eugénio («Aproximações a»)

- do livro de 2000, o «Estúdio Raposa» (Luís Gaspar) «arquiva» poemas e ilustrações:

AQUI

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Camões Hipersexual

- recortes da entrevista de Mário Cláudio a João Céu e Silva, no D de N, no dia 13, a propósito do seu novo Romance Naufrágios de Camões 
- na íntegra, AQUI (por enquanto...)

[...]
Camões era um marginal e perde o ímpeto no final. Não há dúvida sobre isso. É um grande intelectual, um sábio e um poeta de génio, mas transgrediu muitas normas de direito penal da época, assassinou um homem em Lisboa e por isso foi condenado ao degredo.
Do género má rês...
Exatamente, má rês, sobretudo no aspeto da insubmissão e, claramente, revoltado contra o establishment. E havia o lado do amoroso que não coincide com o platónico dos seus sonetos, que obedecem à estética da época, em que as mulheres eram postas num plano de intocabilidade e de de pureza.
Respeito que não praticava?
Sim, era um homem de instintos muito fortes e com uma pujança sexual muito grande, daí frequentar os bordéis de Lisboa e o relatar. Estamos perante uma figura muito controversa, que tem muito menos de herói da pátria do que de herói da literatura e que é um valdevinos, como era reconhecido então.
[...]
Com amores transgressionais e clandestinos, até inter-rácicos e com escravas, o que já na altura era malvisto. E escreveu sobre isso, o que mostra uma certa coragem. Provavelmente era um hipersexual, o que se manifesta na escrita muito escaldante quando se trata de questões de amor [...]
 [...] A maneira como foi tratado em morte denota que não era uma flor que se cheirasse e por isso foi despachado para a vala comum.
[...]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A baleia e a tangerina







[em destaque no corredor principal, que vai da Praça Central ao «Bunker GTT» - a fotografia é de «inexperiente»...; quanto a D. de A., referido AQUI]

[ao lado do texto, traduzido, de Fazil Husnu Daglarca]

[dia 9: I. A., filha,  inf. que o Ex. pertence a L. que trabalhou com o pai...]


sábado, 28 de janeiro de 2017

Almada

Crédito(s) da foto não indicado(s)

Visita «antecipada» à «Mostra Antológica» (25 anos depois...) a inaugurar na sexta, dia 3 -

- em «especial», assinado por [...] no «Observ.»

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

«ser (estar) ou não ser (estar) conectado?»


É a resposta que J. frequent. dá, quando algum dos Qd.s pergunta se vai enviar «isto ou aquilo»:
«Escravaturas», já tive as suficientes...»


Ilustração de João Fazenda 
[«ex-AA», nos Qd.s de D., de 3.º Bloco, no Palácio 9899...]
para a crónica de R. A. P., na Visão. de 5 de janeiro (sobre a esquisita lei francesa conhecida pelo nome de "direito de se desconectar")

- no «P2» do Público, de hoje, um dossiê do [...] sobre [...]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Ícaro

Foto de Leonardo Negrão - Gloal Imagens
-da Galeria do DN - «A magia do Cirque du Soleil»

DAQUI
OBSERVADOR, TB.

«Varekai - Icarus» https://www.cirquedusoleil.com/varekai
https://www.youtube.com/watch?v=MDa5KycK_8E

sábado, 19 de novembro de 2016

Pessoa, «sucumbido pela falta de massa», por Luís Moitinho de Almeida

- J. recorda a leitura desta «Rep., cruzada com Entrev. ou Depoim.» (?), assinada por A. M. R. - não se lembrava era que saíra na «Tabacaria» [deve estar «por aí» - um dia a reencontrará...] 
[«somos aquilo que juntamos», isto é, «arquivamos» - artigo de hoje, cheio de Listas, do «Grande Arquiv.» J. P. P., no Público]
- releu-a agora no Arquivo-Blogue. de A. M. R. - AQUI

RECORTES:

[...] Luís não presenciou nunca os momentos em que o Senhor Pessoa, à rasca de massas, metia vales à caixa. Conserva numa pasta de papéis antigos as sucessivas notas que eram passadas no escritório. Afiança que o dinheiro, a massa, nunca lhe era recusado. [...]
O pai depositava nele uma confiança ilimitada. O pai de Luís, Carlos Moitinho de Almeida, homem avisado que não dissimulava a desconfiança em relação ao mundo, nele, no poeta, depositava confiança ilimitada, mercê do tino comercial que lhe era reconhecido. «O meu pai rendeu-se ao êxito de Fernando Pessoa. Os clientes e agentes admiravam o modo como lidava com a correspondência, louvavam o teor das cartas». Enalteciam a sua capacidade argumentativa, importante para as epístolas de carácter comercial. O pai sabia que Pessoa era um homem cheia de qualidades. Todavia, ignorava o seu talento literário. [...]

Estes são os vales: 20 escudos, 30 escudos, 50 escudos. Sucessivos vales. Amontoados os papéis, o total de parcelas perfaz 510 escudos. «Não sei mesmo se chegou a pagar. A relação com o dinheiro era horrível. Como sabe, ele andava sempre à rasca de massa». Pessoa apoquentava-se com a falta de dinheiro e com as tempestades. Impressionava-se, sensibilizava-se. Todos os verbos são usados por Moutinho de Almeida para descrever a relação; por fim, recorre a sucumbir. Sucumbido pela falta de massa.
Os vales cobriam o luxo dos fatos talhados nos melhores alfaiates de Lisboa. Lourenço e Santos era um deles. [...]
Tinha a extravagância dos fatos e dos livros. Os livros, comprados em livrarias de Lisboa ou encomendados a estrangeiros, «Talvez contactos das traduções que fazia para vários escritórios», eram pagos a pronto, na urgência de serem comprados. Os fatos alinhavam pela moda dos anos 20, uma moda masculina a que chamavam Papo Seco. Casaco comprido, muito chegado ao corpo, calças apertadas e curtas. Usou sempre esses fatos, estruturados a três quartos, todo ele meticuloso. O vinco perfeito, a camisa impoluta. Era vaidoso com os fatos; os sapatos estavam sempre engraxados. [...]
Se vistas uma a uma, as folhas rubricadas a cereja permitem perceber os momentos de aperto. Moitinho desconhece o modo de pagamento; se à semana, se ao mês, quanto valia então o dinheiro. Para que serviam 30 escudos? Todos os meses, mais do que uma vez por mês, os vales eram submetidos à gerência. Quando recebeu o prémio do Secretariado Nacional de Informação pagou tudo. «Era um homem de contas direitas, o que não tinha era dinheiro». [...]

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

«Podemos muito mais do que imaginamos» - Saramago

"Sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos." 

Parte da frase de José Saramago está agora num taipal na Rua Afonso de Albuquerque, no Cacém, uma homenagem ao escritor português por parte de Odeith, [...]
Vídeo no «P 3»

- Amália, Paredes e Zeca - do mesmo - na Amadora - IDEM

terça-feira, 25 de outubro de 2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Nobel - por Luís Afonso

Do Público de hoje


- posição de Maria do Rosário Pedreira («Estranheza»)  lida hoje (17-10) no seu «Horas Extraordinárias»

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

«A realidade e a imagem» - Bandeira por Eucanaã

Excerto do artigo do Ípsilon, sobre a vinda de Eucanaã Ferraz ao «Folio» e a publicação de Poesia (1990-2016)

O sortilégio do fragmento

Questionado acerca do seu poema Narciso, Eucanaã Ferraz fornece o seguinte exemplo, para explicar que o narcisismo do poema (e do poeta) nada tem que ver com vaidade, mas com a necessidade de entender o espaço que vai da realidade à imagem, à representação. “O [Manuel] Bandeira tem um poema que eu adoro, chamado: 
‘A Realidade e a Imagem’: O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva/ E desce reflectido na poça de lama do pátio./ Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,/ Quatro pombas passeiam.’
Eucanaã socorre-se do poema para sublinhar a arte necessária ao representar mesmo o real mais concreto, que não basta copiar tal qual. “O edifício, a poça de lama e as pombas passeando. Mais nada. Mas o Bandeira, que é um génio, chama o poema ‘a realidade’, que é o edifício, e ‘a imagem’, que é o edifício reflectido na poça. Então, existe alguma coisa entre a realidade e a imagem, que não é realidade e não é a imagem, entendida como uma cópia do real ou da realidade, um terceiro lugar. O intervalo entre o real e a imagem.”
Segundo Eucanaã Ferraz, a poesia ocupa esse ponto intermédio, esse terceiro lugar. É aí que ela acontece. Como se fosse o chão seco do poema de Manuel Bandeira e captasse a possibilidade de um movimento, mesmo onde nada acontece. Como se a poesia captasse tudo o que há de banal, o que é extraordinário, mas também tudo o que é ordinário.
No seu prefácio, CMS afirma que “todo o poema é a celebração da falta, dos restos”. Instado a comentar, Eucanaã Ferraz defende: “A força da poesia está em acabar por ir sempre para esse lugar da fragmentação, da destruição, da autodestruição.” Atento à série vária das artesEucanaã afirmará: “Nenhum outro género fala tanto da sua própria destruição e decreta a sua morte, e tão insistentemente, quanto a poesia. Os romancistas estão escrevendo romances, como se essa matéria fosse infinita. A poesia fica decretando a sua morte. Qual o lugar da poesia, para que serve? A poesia tem sempre uma pulsão de morte. Está sempre numa crise. Desde o Baudelaire, pelo menos… Mas já o Camões. O poeta está sempre achando que não vai ser ouvido. E não vai. É um pouco uma voz perdida por aí.”
Reflectindo, numa vibração de rápida combustão, Eucanaã defende: “Mas eu acho que é daí que a poesia tira a sua força. Porque essa morte tem muito de radicalidade. A poesia vai fundo. Isso é uma coisa muito minha, e pode parecer antipática, mas nenhuma outra arte é tão radical, tão profundamente humana e avassaladora. Mas é uma coisa comigo. E olha que eu tenho um bom olho para as artes visuais, bom ouvido para a música… Mas nada como a poesia. Muita da força dessa escrita vem da autoconsciência da fragmentação, da fragilidade, o que é muito humano. E toda essa confissão de fraqueza se transforma numa força extraordinária. A poesia na sua morte encontra uma capacidade, meio de Fénix, de renascer. Não depois da morte, mas em simultâneo. A desconfiança de que essa voz que se faz com tanto cuidado, com tanto esmero, não leva a nada. A gente não chega a ninguém.”

"O poema ou A máquina de emocionar» - DAQUI


domingo, 21 de agosto de 2016

Eça, 16 de Agosto

- na data do falecimento, artigo de... no Público

AQUI

Recorte:
[...]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

«Artista enquanto jovem cão» (Retrato do) - Dylan Thomas

[lido ao longo dos primeiros dez dias, «de trás para a frente», não terminado]
Recorte:
A Sr.a Evans ouviu a última frase ao entrar na sala. Era uma mulher magra com traços azedos, mãos fatigadas, as ruínas de uns lindos olhos castanhos, e um nariz altivo. Mulher a quem nada chocava, (...) Quando sóbrio, o Sr. Roberts tratava-a por «minha senhora» e limitava-se às conversas sobre o tempo e as maleitas. Pôs-se  em pé de um salto e ofereceu-lhe a sua cadeira.
– Não, obrigada, Senhor Roberts – disse ela numa voz nítida e cortante. – Vou já para a cama. Nao me dou bem com o frio.
«Vai-te deitar, Maud horrorosa», pensou o jovem Sr. Thomas. Mas disse: «Não quer aquecer-se um pouco, Senhora Evans, antes de subir?»
Ela fez que não com a cabeça, dirigiu um sorriso crispado aos quatro amigos, [...]
– Isto hoje não passa da meia-noite, Maud, prometo. (...)
«Dorme ferrada, sua emproada.»
– Não os incomodo mais, meus senhores – disse ela. (...)
O Sr. Roberts tirou do bolso do lado lápis e canetas. «Onde está o precioso manuscriptus? [...]
O Sr. Humphries e o Sr. Thomas puseram os seus cadernos nos joelhos, pegaram cada um num lápis, e ficaram a observar o Sr. Evans que abria a porta do relógio de pêndulo. Debaixo dos pesos oscilante via-se um maço de papéis atados com uma fita azul. Papéis esses que o Sr. Evans colocou em cima da escrivaninha.
– Está aberta a sessão – disse o Sr. Roberts. – Vamos lá ver onde íamos nós. Tem aí a ata, Senhor Thomas?
– Nas Margens do Tawe – disse  o Sr. Thomas. – «Romance da Vida Provinciana. Capítulo Um : uma descrição transversal da cidade, Docas, Bairros Pobres, Subúrbios, etc.» Ficou acabado. O título escolhido foi: «A Cidade Pública». O Capítulo Dois deverá chamar-se «Vidas Privadas» e o Senhor Humphries fez a seguinte proposta: «Cada colaborador escolherá uma personagem de cada esfera ou estrato social da cidade e apresenta-a aos leitores com uma breve história da vida delas até ao ponto em que começa a nossa história, ou seja, o inverno do presente ano. [...]


de «Nas margens do Tawe», in Dylan Thomas, Retrato do artista enquanto jovem cão e outras histórias– Ficção completa, Livros do Brasil, 2015, pp. 249-250

segunda-feira, 27 de junho de 2016

«Oficina de escrita»

- «empreitada laboratorial» = escrita de teatro, a várias Mãos...
- em primeiro plano, J. B. («ex-AA»)




- reportagem videográfica do «início, do meio e do fim», pelo Público - AQUI

sábado, 11 de junho de 2016

Pessoa + Eça + a famosa «reactualidade» deste...

Recorte final da Entrev. a V. P. Valente, por ocasião do lançamento do seu último livro - no OBSERv.

[...]
Nunca alinhou na moda do Fernando Pessoa, e manteve-se fiel a Eça de Queirós. Se tivesse de recomendar a leitura de Eça de Queirós, o que é que diria?
O que vou dizer não implica qualquer julgamento literário. Nunca tive uma grande empatia pelo Pessoa, porque o Pessoa, ao contrário do que essa gentinha anda aí a dizer, é um poeta de tradição inglesa. Foi educado na África do Sul e foi lá que ele se formou como escritor e eu, conhecendo as fontes do Pessoa, nunca me entusiasmei com ele. E não continuei a ser fiel ao Eça, não se trata disso. O Eça foi o escritor que melhor percebeu Portugal. Eu quando falo de Portugal estou sempre a tentar não citar o Eça. Nesta entrevista, apeteceu-me várias vezes fazê-lo.

Mas o que é que ele percebeu sobre Portugal?
O caráter imitativo da sociedade política e da cultura portuguesa. Nós somos epígonos em quase tudo. Em segundo lugar, o seu caráter provinciano. 
Quando estávamos a falar das ameaças que uns políticos fazem à União Europeia, lembrou-me logo o jantar que há nos Maias, onde estão o Carlos da Maia e o Alencar numa mesa a comer um bacalhau que o Alencar fez. E noutra mesa estão uns ingleses. E o Alencar começa a implicar com os ingleses e diz alguma coisa do género: “Eu vou lá e eles vão ficar a saber o que é um poeta português”. Entretanto, eles saem do restaurante e o Eça comenta que os ingleses ficaram sem saber o que é um poeta português.

[sublinhados acrescentados]

domingo, 15 de maio de 2016

Pessoa - «Irónico perfeito»

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
Ironia perfeita
Fernando Pessoa é o irónico por excelência. E toda essa invenção dos heterónimos é uma obra-prima de ironia. Esse dotar de voz própria ao conjunto de "eus" que convivem em cada um de nós parece-me a ironia perfeita.

“Saramago: ‘La CE, un eufemismo”, El Independiente, Madrid, 29 de Agosto de 1987
In José Saramago nas Suas Palavras

sábado, 23 de abril de 2016

Lista das 50...

... «Obras Essenciais» da Lit. Portug. [«é o que é, mas pode vir a ser...»]
- da Casa do «DN»    (João Céu e Silva)

Tiago Albuquerque

sexta-feira, 8 de abril de 2016

«4 Estações» - Mourão-Ferreira

- «resolvida», finalmente, a duplicação da 6.ª Edição (de 2001) do livro (1.ª ed. de 1980) de David - com duas capas diferentes... - oferecida a A. R. P., do 2.º Bloco, em «reflexo» do poema... 

Recorte da 1.ª das narrativas do mesmo:

[…] De uma dessas galerias vê de repente sair uma rapariga loura, cujo dourado rosto redondo, misto de Sol e de Lua dourada pelo Sol, irresistivelmente lhe evoca alguém que há muitos anos conheceu. Também ela, uma vintena de metros à sua frente, desce agora a rampa em espiral; mas as outras pessoas que pela rampa circulam e, sobretudo, os incríveis objectos que no pavimento se amontoam (desta vez, uma sinuosa sucessão de pára-quedas intactos) vão-no impedindo de a alcançar e de melhor confirmar então, voltando a vê-la de frente, a semelhança que tanto o impressionou.

Já para outra galeria se esgueira a cabeça loura que dir-se-ia oscilar como um girassol em cima do seu pedúnculo. E já no labirinto dessa galeria ele acaba por estupidamente lhe perder o rasto, entre muitas outras cabeças que se detêm diante de nus de Modigliani ou de visionárias paisagens de Chagall. No entanto, ao retornar à rampa espiralada, basta-lhe assomar ao parapeito para a redescobrir, já lá em baixo, quase a atingir o piso térreo. Enquanto prossegue a sua descida, sempre cosido ao parapeito para não a perder de vista, compreende que ela não se dispõe a sair imediatamente do museu, que afortunadamente se encaminha ainda para o vestiário. […]

David Mourão-Ferreira, As quatro estações, 6.ª ed., Lx., Presença, 2001, p. 14                       [1.ª ed: 1980]

terça-feira, 29 de março de 2016

21 poemas

- o dia 21 já lá vai, mas esta diversificada selecção de 21 poemas, escolhidos por 21 poetas, autores, com as respetivas «argumentações» é para «reter», reler;

- com introd. de Nuno Artur Santos - daqui (dossiê, no Observador) 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

«Boca do Inferno» - Castro Mendes

BOCA DO INFERNO

Procuras um país no teu país
que não existe e não existiu nunca.
O rosto com que fita o teu país
é uma face feita rocha adunca

a tirar-nos da terra, não esqueças:
«o meu país é o que o mar não quis»;
e vê a aridez, que pede meças
à meseta deserta de Madrid!

 Pois da Europa assim fomos dizendo:
«o rosto com que fita é Portugal».
Mas o mar, por temível e tremendo,
era mesmo assim o nosso igual.

Agora fita a Boca do Inferno,
vem meditar no Portugal moderno!

(com versos de Ruy Belo e Fernando Pessoa)

Luís Filipe Castro Mendes, Outro Ulisses regressa a casa, 2016 (fev.), Assírio & Alvim, p. 41


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Saramago no Cacém

No P3 - DAQUI

REcorte:


"Sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos." Parte da frase de José Saramago está agora num taipal na Rua Afonso de Albuquerque, no Cacém, uma homenagem ao escritor português por parte de Odeith [...]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Camões (Signos de) - Luis Maffei

- é uma pequena edição (em tamanho e em número de exemplares, 100), de 2013; tem estado em destaque, numa prat. da Estante da Avó M. F., para «ir sendo lida» [...]
- «constrangeu» vê-la, há dias, na FNC, em saldo [...]

- escreve L. M., no «prefácio»:
"No intervalo de um encontro acadêmico, Sérgio Nazar David e eu conversávamos sobre têmperas, gestos e signos. Chegamos, não me lembro bem por que motivo, a Camões, cujo signo, já que se desconhece a data do seu nascimento, é ignorado, mas cujos signos são lidos, bem e mal, há tempos. [...]"
- só L. M. concretizou a proposta da escrita de um poema para cada hipotético signo de C.

Recorte inicial do escrito «sob» o signo de Aquário:

As mãos se erguem desde o fundo da terra e
canto - é preciso guiar a
travessia o medo é preciso
o mundo a guerra
não
a Terra e seus umbrais

não me falta
não faltaria
honesto estudo nem
muitas linhas na água  e no céu
engenho
a orientar mil pares de vocações:
ou se aprende a mudança ou
isto é novo ou
sejam léguas com farrapos no corpo
barcos transparentes mais
engenho
coisas juntas 
de futuro a debicar com corpo
inteiro e seus
farrapos - é preciso guiar
o vento
venta
não há tempo quando a mim se abre apenas
tempo a propiciar-se por mãos núbeis:
então é paz quem move estrelas
(e outros sóis)
então amor conduz planetas
o tempo não existe porque é novo o tempo a
era a justa
ideia a mente que não vê menos que atua
[...]

Luis Maffei, signos de Camões, Companhia das Ilhas, 2013 pp. 36-38


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

UTOPIA (500 anos de)

- artigo do Público (1.º de uma série) que também é Roteiro para releituras (mais tarde?)

AQUI 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Soares + Fradique + Pizzarro + Reis

Um pessoano e um eciano em diálogo sobre «semi-heterónimos» [...] - com a Biblioteca Joanina em fundo [...]

- Excerto da Conversa,  por cortesia do Público      - AQUI

sábado, 31 de outubro de 2015

«A esperança é um animal com penas» - Luís Quintais

O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever
de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente,
isso sim. isso seria uma das formas de esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes,
uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros
e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo,
esse que está em cima da mesa aguardando uma visita do acaso.

"Um animal com penas", in Arrancar penas a um canto de cisne - Poesia 2015-1995, Assírio & Alvim, outubro de 2015  
[transcrito da Coluna «Cem por Cento» , de Nicolau Santos, Expresso - Economia, de hoje]             [durante uma pequena pausa dos Envelopes)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Rosa-de-jericó («a flor do deserto») - a lista dos nomes

[de uma das gavetas do computador «reapareceu» o conto de Maria Ondina sobre a planta da «ressureição»...]

[porque longo, «imbricado», difícil escolher só os seguintes Recortes:

«A rosa-de-jericó» [truncado]

A lista dos nomes viera do Brasil. Numa folha pautada, duas altas colunas em caligrafia apurada de escrevente: Wilma, Wanda, Isa, Naíl…
A mãe está de mês e só come galinha com arroz. Um passeiozinho pela sala, uma sesta no cadeirão de verga. Janeiro. O fogareiro de brasas. O crepitar das bagas de eucalipto. A entranhar-se nas cortinas de folhos, nas pregas da saia, no cabelo entrançado, no xaile-manta, o perfume purificante do eucalipto. Combalida da longa noite de concebimento, a mãe: noite de três prolongados dias e velas acesas noutras velas ao Cristo do oratório. A velha Brígida franzindo a testa orvalhada de suor, os seus pulsos grossos nas mangas arregaçadas: «Se passar de hoje chama-se o doutor.». Fechada, a rosa-de-jericó, a sua raiz seca como uma corda, como uma cobra, à tona de água na bacia do lavatório.
Cinco e meia. O homem entra, apressado, o passo irregular. A carta de São Paulo? Onde estava a carta de São Paulo? E se ela já tinha lido, se já tinha escolhido.
─ Oh! Eu gosto é de Maria que é a Mãe de Jesus.
Pois podia pôr-se-lhe Maria seguido de outro nome. Examina a lista. Um supor, Neusa. Ou Nelma.
─ Qual achas mais bonito? ─ arrepia o bigode preto com  a unha alongada do dedo mendinho.
─ A avó dela, a minha mãe, era Maria do Socorro.
─ Ora, esses nomes já não se usam.
 […]
— Marília é um nome poético, mas o desta quero que seja exótico — procura-lhe a mão.
O fraco dele pelo exótico, o invulgar, o raro. […] Hélia, Elza, Hércia. Que lhe parecia Hércia?
Não responde. Não ouve o que ele diz. Pondera: que têm a ver nomes assim rebuscados e fantasiosos, que têm tais nomes a ver com uma pobrezinha que veio ao mundo por um pouco sufocada?
— Zilda, Zélia, Zuraida. São nomes nobres, sabes? Nomes reais. De princesas árabes!
Desatenta, ela.
— Então? Qual gostas mais? Dói-te alguma coisa? — debruça-se sobre a mulher. Continua: — Leda. Denise. Deborah. Nome judaico, Deborah?
[...]
A rosa-de-jericó, entretanto… Lá na bacia, enrodilhada e sem dar sinal, a flor da corola em cruz. Quando desabrocha, a gente apercebe-se, lembra-se? Se se lembrava! Como papel de seda a desdobrar-se. Como beijos… [...]
Sentado à sua beira, de lista em punho, ele pronuncia os nomes como se a saboreá-los. Com devoção. […]
Menina, Sr.ª Brígida? Um suspiro, a sua fala. O médico desinfectava os ferros, lavava minuciosamente as mãos, os braços, na bacia donde fora afinal retirada, sem chegar a desabotoar-se, a planta do parto. Uma moleza a acometê-la, uma madorna. E a criança tão caladinha, tal se nado-morta.
Ele fez uma pausa.
─ Ainda não me disseste se te agrada algum destes nomes. Não te agrada nenhum? ─  […]
Ela de mês, a menina ao peito a beber-lhe as forças. E já meio esquecida, quem diria, de tudo quanto suportava e de tudo quanto ainda lhe faltava suportar. Não obstante… O que lhe custava a aceitar era o facto de a flor-do-deserto não ter chegado a revivescer. A negação, a falência da planta da fecundidade, esse vegetal valimento, essa efígie fiel durante tantas gerações. Por que seria? Ali no cadeirão de verga, a cismar na rosa-de-jericó, a mãe. As mulheres do meu sangue, que me conste, felizes nos partos, parece. Porquê assim comigo? Por que a menina não queria nascer, sabe-se lá? Por que eu, a sua progenitora, preferindo um menino? Estreita a filha ao colo, compadecida. Mea culpa. Mea  maxima culpa. O seu ventre retraído de insubmissão e susto.
Na sala, o homem lê os nomes alto e destacadamente para que ela, no quarto interior, os possa escutar e escolher. E tal a entoação e o ardor da sua voz que a exaspera e a comove ao mesmo tempo. Como quem recitasse, fervoroso, uma oração. Como quem declamasse versos. Zaida… Rosenda… Belinda…Bluette…


Maria Ondina Braga. A rosa-de-jericó Contos escolhidos, 1994, pp. 137-141


domingo, 19 de abril de 2015

A Queda (de Ícaro) - Bruegel

Paisagem com a Queda de Ícaro, de Pieter Bruegel, o Velho
Recortes de artigo («A cultura, esse detalhe...»), de Vanessa Rato, do Público de hoje, pp. 30 - 31                   ou AQUI:

Há uma célebre pintura do mestre renascentista Pieter Bruegel, o Velho, que Homi Bhabha, um dos mais importantes autores dos estudos pós-coloniais contemporâneos, acha que nos deve continuar a fazer pensar. [...]
[...] o título completo da pintura de Bruegel é Paisagem com a Queda de Ícaro. Um título que encerra um programa, porque o que a composição nos oferece é uma imagem do mundo a seguir o seu curso enquanto ali, num pequeno detalhe do canto direito, um jovem que tentou voar alto de mais está a morrer afogado sem que ninguém sequer note a sua tragédia em curso.
      Ao centro, em primeiro plano, um agricultor fixa os olhos no chão enquanto guia o arado com que trabalha a terra. Mais abaixo, um pastor acompanhado pelo seu cão guarda distraidamente um rebanho de ovelhas enquanto observa o céu azul. E depois, lá em baixo, há o enorme navio de velas desfraldadas que agarra o nosso olhar e lança sombra sobre as pequeninas pernas de Ícaro, que caiu de cabeça e está a segundos de desaparecer de vez nas plácidas águas verdes da baía.
      Supostamente, a obra está feita na terrível perspectiva de Dédalo, a observar impotente, lá de cima, a desgraça do seu filho. O que leva à pergunta de Bhabha: “Afinal, quem é hoje a testemunha moral do sofrimento humano?” Esta, diz ele, é uma das perguntas que a Cultura pode lançar ao mundo. Uma pergunta auto-reflexiva, ou não será o papel de testemunha um dos lugares de sempre da Cultura? É uma hipótese de reflexão. Outra, diz Bhabha, é pensar se a Cultura não será o detalhe periférico e secundarizado que nos faz reconsiderar todo o sistema, exactamente como as pernas de Ícaro – quando por fim damos por elas. [...]


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nove poemas de Amor...

... em língua portuguesa, escolhidos por nove escritores port....

- no «Observador» - AQUI

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sophia - A menina do mar

Uma preciosidade - o disco de 1961 - leitura do conto - música de Lopes Graça - no «YT»

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Camões na Índia - Castro Mendes

CAMÕES NA ÍNDIA
Esteve nesta terra. Enojavam-no as mulheres,
pois só as de baixa casta aceitavam
vender-se aos brancos. Escrevia aos amigos
sobre as saudades que tinha dos bordéis de  Lisboa.
E fazia poemas para o Vice Rei.

A grandeza não cabe em nenhuma época,
em nenhuma terra,
até mesmo em nenhum ser humano de carne e osso.
Mas só ela dura!

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, D. Quixote, 2011, pp. 61



Recorte da Carta referida no poema:
[...] Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a üa carta como marinheiros à festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe(s) tenha os pontos, se lhe(s) quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe(s)  faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscan; respondem-vos üa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de üa dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará «las memorias de in illo tempore!» Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.
[...] [transcrita da Revista «Agulha», «Jornal de Poesia»:


Recorte do ensaio «O testemunho das cartas», de Helder Macedo:

[...] Na carta que escreveu pouco depois de ter chegado, em Setembro de 1553, a Goa (que caracterizou como "mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados"), Camões queixa-se amargamente das injustiças e traições de que teria sido vítima. Mas creio que esta carta é também um testemunho particularmente notável pelo que revela dos surpreendentes e nada convencionais usos erógenos do petrarquismo nos bordéis de Lisboa. Comparando nostalgicamente a "carne de salmoura" das prostitutas locais com as irresistíveis "falsidades" das suas literariamente sofisticadas congéneres lisboetas, "que chiam como pucarinhos com água", promete ir recebê-las pessoalmente, como um patriarca, de procissão e pálio, "se não recearem sofrer seis meses de má vida por esse mar", porque às prostitutas locais "fazei-me mercê que lhes faleis alguns amores de Petrarca ou de Bóscan: respondem-vos numa língua meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo".
[...]
Helder Macedo, «O testemunho das cartas», in  Camões e viagem iniciática, Abysmo, 2013 (17.º edição?), pp. 121, 122

[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

«Mães» - Herberto Helder

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema
                                                                      cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao
                                                                     pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente


Herberto Helder (1930; - ), Servidões, 2013, p. 23

domingo, 24 de março de 2013

Leonor e a «vocação»

[deslocado de Alpabiblio, assim escapando ao «Apaga-Apaga»]

Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.

Foi «Empréstimo-Oferta» de Eli. De boa vergonha ficou T. Vai pela p. 66.

«Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que o outono levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.
Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião de José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.
As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação.
[...]
É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer na sua vida.
Então recua, recusa, nega-se a professar.
Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sono. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.
Não carece de outra desmesura.»

Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 64-65