Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Galinhas - Gonçalo M. Tavares

Galinhas

Um menino com laranjas na mão a tentar acertar em galinhas que fogem como podem desse ataque infantil. A laranja não magoa muito, mesmo quando atirada com força porque, se acerta no corpo da galinha, o corpo ainda é espesso e largo e amortece a dor enquanto na cabeça da galinha a laranja pouco parece fazer porque a cabeça é ágil e raramente comete a estupidez de tentar responder à força com mais força. Mas claro que as galinhas não aprenderam a teoria do judo e não sabem que diante da força se deve fingir fraqueza para que seja a própria força do outro a derrotá-lo; a galinha estúpida nada percebe de judo e por isso, agora, quando os meninos já estão mais afastados mas não o suficiente para estarem muito longe, agora que eles já encontraram a distância certa para qua as laranjas ganhem a velocidade máxima, agora, sim, os meninos afinam a pontaria e quando acertam na cabeça da galinha causam mossa, e isso é evidente pelos movimentos ainda mais desordenados do animal. Mas a questão é saber que efeito concreto tem aquilo tudo. [...]

Gonçalo M. Tavares, Short Movies, pp. 141-2

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»


You Tube
Ícone de alerta
Enviado por em 23/02/2012
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador

[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos gloriosos percursos da «Mercearia», na Madr., com um chef que chamava «doutor» à face de então de G.]
WELL.

Rubem Fonseca

Tempo da FAC.Ainda nos Barracões da A. de Berna.
Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.

A. B. B.
- Menino do Porto que, «em boa hora», trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - ah, e dotado de uma forma bem particular de corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-

mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed:83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»

- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]

- reeimpressão recente na «Sextante»;
indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...
25 Primaveras passadas]

- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias, «à pala da RTP» - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]

Rubem Fonsseca - por Rui Zink

a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];

b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982»
[antes, no Brasil, 4 títulos, desde 1963; O caso Morel, de 73, foi editado, em Portugal, pela Bertrand,em 1976]
mas que só leu depois da leitura de A grande arte (cf. E. anterior)
F. A. N. - foi tipo «soco no estômago»

c) no ano passado, foi emprestado, em três de quatro Quadrados suplementares, a A. C. R., um «meia-leca agarrado, logo de I. adiado» (um dos três irmãos
C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
Bom, chega de[...]
sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»

Rubem Fonseca + Feliz Ano Novo

RECORTE inicial do Conto que dá título ao livro referido noutra E. da Casa:
«Feliz Ano Novo», Rubem Fonseca

              Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para aas madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.
             Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros. 
            Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.
           Vai mijar noutro lugar, tô sem água.
Pereba saiu e foi mijar na escada.
           Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.
           Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?
            ô morrendo de fome, disse Pereba.
           De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.
            Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.
           Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.
             Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro ar [...]

Todo o Conto no RELEITURAS

Sábado, 10 de Março de 2012

Imagem (Contos da) - FIAMA

http://www.musee-moyenage.fr/homes/home_id20393_u1l2.htm

http://www.curiosphere.tv/video-documentaire/0-toutes-les-videos/108751-reportage-la-dame-a-la-licorne-chef-duvre-du-musee-de-cluny

[Já restam poucas repetições; uma das últimas, esta obra de Fiama, publicada em 2005, foi para a A. S. - serena ou discreta ou...., que, há dias, tinha pedido «sugestões de leitura»]

RECORTE do 1.º Conto: «O unicórnio»


Claude de la Viste segura na mão direita o espelho, em cujo oval, tanto ela como o visitante vêem a imagem da cabeça do Unicórnio branco que está amorosamente encostado à coxa esquerda dela, com as patas dianteiras alçadas no seu colo.
A Aia está próxima, mas Claude não quer partilhar com ela essa imagem secreta. Manda-a buscar qualquer fruta com que dessedentar o animal ou frutos secos com que revigorá-lo, ou mesmo o seu cofre de lenços finos para enxugar-lhe a testa, húmida das primeiras chuvas leves do Inverno.
Se o Unicórnio é demiurgo da sua própria imagem, pensa o visitante, o mundo está explicado. Se a imagem permanece, mesmo depois do seu afastamento ou, até, antes de chegar a poisar a cabeça doce no regaço de Claude, então o mundo não está explicado e, nesse caso, a memória será omnipotente ou omnipresente.
Mas o visitante não quer entrar em especulações. Ele deixou-se estar dias e dias encerrado no museu, conseguindo assombrosamente tornar-se despercebido dos visitantes, apenas porquer está apaixonado por aquelas duas mulheres belíssimas, Claude de La Viste e a sua Aia. Ambas de magníficas cabeleiras louras, rostos suaves, pálpebras descidas e túrgidas e alvas mãos, de cinturas bem talhadas e de porte firme. Toda esta delicadeza e fragilidade de ambas era, simultaneamente, espiritual e física e de uma intensa sensualidade. […]

Fiama Hasse Pais Brandão. Contos da Imagem. 2005, assírio & Alvim, pp. 11 - 12








Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Casa (como se desenha ...) por - Manuel António Pina


Vídeo da série «Ler mais ler melhor» - com depoimento do próprio M. A. P., finalizando com leitura de Poema

Frases soltas:
- «A Amizade também é um domicílio»;
- «A Amizade é o Porto de Abrigo que resta»;
- «Desconfiar dos versos que inteiramente se alcançam [... ] porque não vão além de mim»;

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Fernando Assis Pacheco - Há um veneno...

(para M. G., lá «longe-perto»)

(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]

[No posfácio à Antologia... , na página 553 da mesma, F. A. P. é referido como «um dos (poucos) grandes nomes ... do aparentemente escasso cânone da poesia da Guerra Colonial».]

Há um veneno em mim...

Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.

Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.

Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.

Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.

(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Casa (como se desenha uma) - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

 [Uma casa]

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17



Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Hélia Correia - O inédito de sábado

Poema ao sábado     - Inédito

INDIGNAÇÃO
O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém — sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?

Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo — essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses — que não existem

E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode

 De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?

Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
— e os Gregos esqueceram —
Como é que tal feitiço
Se desfaz?

 Hélia Correia

Público, P2, 21 de Janeiro de 2012, p. 7

Folhas caídas - Jonas - O inédito de sábado

[as de Jonas, não as de Garrett]

Poema ao sábado - Inédito

As folhas caídas

Nada de muito diferente de há quarenta mil anos.
Estes alunos são ainda homens das cavernas.
Verdadeiramente totémicos,
os pré-históricos alunos
desenham falos em livros de encantar,
castigam as páginas de belos livros com
conspícuos e vigorosos membros
deteriorando os materiais, aviltando o texto,
sobrepondo à cândida ilustração
a sua leitura do mundo,
a sua arma de escolha.

As meninas ficam horrorizadas.
Nem falam.

As pinturas rupestres estão agora por todo o lado:
livros, carteiras, paredes
como nas paredes das cavernas há quarenta mil anos...
E em que é que estas diferem daquelas?
E o que é uma sala de aula senão uma caverna
e as paredes paredes?
Civilizações de permeio apenas,
a possibilidade da rinoplastia...

Eu olho-os com os seus occipitais protuberantes,
na depressão de testa e mento,
na fria latitude pleistocénica
desta caverna
onde Platão não tem lugar,
apenas o mamute que prenuncio lá fora,
gélido como um temporal,
proboscídeo, adventício,
anunciando a era do elefante.

As folhas caem. Os falos também...
Tudo está solto, caduco.
Estes alunos são os elefantes que o mamute anuncia.
E os genitais continuam a ser um modo de expressão,
de pôr trombas em todo o lado, epigramas
assomando nesta tarde cinzenta,

enquanto atiro o olhar
pelo ponto de fuga da janela,
o meu olhar irreprimível
face aos lenhos,
vigorosamente inscritos
na paisagem.

Daniel Jonas

Poeta, tradutor e dramaturgo, Daniel Jonas nasceu no Porto em 1973. Publicou o seu primeiro livro de poesia, O Corpo Está Com o Rei, em 1997. Seguiram-se Moça Formosa, Lençóis de Veludo (2002) e, com a chancela da Cotovia, Os Fantasmas Inquilinos (2005) e Sonótono (2007).

Público, supl.º P2, 28 - 01 - 2012, p. 9

A poesia do Sr. Cirurgião Plástico, I - o inédito de sábado

Poema ao sábado                     Inédito
Bagagem perdida

E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães

Público, P2, Sábado, 14 de Janeiro de 2012p. 9

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

Sob escombros - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde tu também eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormeceres
sob escombros.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 24,25

Os livros - Manuel António Pina

Noutra E., J. T. M. fala do livro que «que pede para ser lido por dentro dos olhos»[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração ( o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 21

Mosaicos hidráulicos - uma Arte da Paciência

Fotografia de Joana Bourgard
Raros serão os Q.os da AA que percebam o que, diga-se de passagem, no Luso Jardim, também poucos entendem: fazer a diferença também passa por preservar a diferença do que já não existe no Global M. [ao invés de «e vai abaixo e sai igual ao que por todo o lado campeia» - ou, seja, a Lei do «copi-pasto»]

Assim, quase parecendo Milagre, Algumas das preciosidades são «redescobertas» por quem tem a visão de fora - parece ser outra «fatalidade» ou atavismo.

É o caso: um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha, o Alentejo, uma Arte que, percebe-se, dificilmente salvarão da Extinção - alguns Recortes:




«Um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha quase alentejana e pedra mármore. [...]. É uma história com mais de dez anos e que já deixou marcas em casas de todo o mundo.Sean O’Riain e Kristina Verbinnen apaixonaram-se um pelo outro. Depois apaixonaram-se por Portugal. E a seguir veio o mármore. Mudaram as suas vidas para poderem trabalhar juntos e são hoje responsáveis, no Alentejo, pela criação de mosaicos
hidráulicos, uma arte milenar da região, quase extinta, e que é uma herança da presença árabe na Península Ibérica. [...]


Estou aqui em Portugal por causa do mármore. Surgiu a possibilidade de concretizarmos uma ideia, uma arte, e, juntos, mudámos a nossa vida da Bélgica, com muito stress e poluição ão para uma zona da Europa ainda virgem”, conta.
A primeira fábrica que abriram foi em Estremoz. Há cinco anos mudaram-se para Fronteira. [...]
À chegada ao país, garante que teve de trilhar caminhos difíceis para reunir as condições
necessárias para poder abrir uma fábrica, mas a cada porta que bateu tropeçou numa história que guarda com carinho.É por isso que, quando mostra os moldes de ferro que servem de base aos mosaicos conta com orgulho o percurso de alguns. Uns foram oferecidos por antigos artesãos que já tinham fechado portas. Outros saíram de mãos reformadas que voltaram a trabalhar ferro forjado para dar uma ajuda a Sean. Quanto a aprender a arte, propriamente dita, não se cansa de falar em Nelson Cala e no “mestre Zagalo”.
[...]

“A melhor aprendizagem que tive com esta arte é a paciência. As pessoas pensam que é fácil, mas não é. O processo é todo à mão e é complicado, mas pode fazer-se um desenho muito bonito e pessoal.» [...]

Reportagem de Romana Borja-Santos, Público, P2, 02-01-2012, pp. 4-7

LER, no Jornal VER : «audio slideshow» (na série «20anos20histórias»

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

«A infância de Herberto Helder» - Tolentino Mendonça

[é o poema referido na Entrada anterior, «acima-abaixo»]

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

José Tolentino Mendonça (1965 - ;), in Os dias contados (1990); transcrito de A noite abre meus olhos (poesia reunida) [com posfácio de Silvina Rodrigues Lopes], Assírio & Alvim, 2006, pp. 11 - 12

 
Comentário de João Luís Barreto Guimarães: AQUI

Amor (sussurro do) - José Tolentino Mendonça

Um dos sete depoimentos prestados a António Marujo - no caso de J. T. M., por escrito -
( «Bíblia Sete histórias de uma paixão»
A leitura do livro sagrado do judaísmo e cristianismo apaixona pelas mais diversas razões. Como grande literatura, como texto profano, como história da humanidade, como manifesto de dúvida... Católicos, protestantes e uma judia contam a história da sua paixão.)

Sem comentários, claro:

Um sussurro acerca do amor
José Tolentino Mendonça, poeta e biblista
Se alguma vez tivesse de escolher entre ficar com as 7101 palavras da Carta aos Romanos ou com os 21 capítulos do Evangelho de João,seria como se me obrigassem a decidir pela minha mão direita ou pela esquerda. Se não pudesse mais ler o Profeta Isaías, se por alguma razão não mais me fosse dado ouvir as imprecações de Job ou a cítara de David, se banissem os prantos de Jeremias ou o humor de Jonas, se não pudesse voltar à espantosa originalidade de Jesus, sei que isso me tornaria um apátrida. Aceitar perder os livros da Bíblia seria além do mais conformar-se também a perder: a Catedral de Chartres, o ciclo das lendas arturianas, a vida de S. Francisco de Assis, a arte de Giotto, os mármores transparentes de Miguel Ângelo, a Divina Comédia de Dante, grande parte da lírica camoniana, As Flores do Mal de Baudelaire ou a pergunta ardentemente insolúvel que Dostoiévski gravou em O Idiota: “Haverá uma beleza que nos salve?”
Mas às vezes penso que à hora da minha morte gostaria que me lessem o Cântico dos Cânticos. O Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. As mãos ardem folheando este livro, que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.
Neste poema o amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. Há um ritmo incessante de movimentos, quase vertiginoso em alguns momentos. O amor faz destes enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos. Por isso a maior declaração de amor é ainda um pedido: “Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor” (Ct 8,6).
Por António Marujo , Público , P2 , Sábado ,24 de Dezembro de 2011, pp. 4-5

Tolentino Mendonça, I

[J. T. M. é amigo de A. M. F. - padrinho de J., o amigo de uma Vida de D. - este não o conhece pessoalmente; da obra poética, algo tem lido - indo «agorinha» G. à Estante da S., encontra oito livros]

na página 36 - última - secção «Diário», do JL, n.º 1076, de 28 de Dezembro -
J. T. M. cruza registos autobiográficos com ensaísticos - «um Diário (diferente)» regista a 1.ª página do quinzenário
- algumas dessas Entradas - não datadas:

[...] ***
Nasci numa ilha, a Madeira. A maternidade onde nasci foi derrubada, nos anos 90, quando se fez a ampliação da pista do aeroporto. Mas sei que nasci ali. Porque recordo minha mãe, ocupada entre as flores. E meu pai, que me trazia de presente, das longas viagens marítimas, um pássaro. Porque me recordo de ter lido, numa falésia, não longe de minha casa, um livro de Herberto Helder.

[...] ***
Talvez todos os livros que lemos e se tornaram inseparáveis , todo o tempo fascinado que dedicámos a uma imagem, os motivos inexplicáveis que nos fazem escolher determinda música, talvez tudo isso seja apenas a preparação que nos é requerida para olhar um rosto. Transportamos frases, fragmentos, vestígios: não sabemos dizer bem porquê, até que de repente, isso que eram palavras ou imagens ou uma coisa tão ténue que nem se pode descrever, assoma como forma, mais sensível ou mais intensa, de escutar aquilo que habita um rosto.

[...] ***
Havia uma noite, na minha adolescência, em que se acendiam fogos pelas encostas. Lembro-me de um grito que descia pelas levadas, aos tropeções, e entrava, de noite, com os rapazes, pelo mar dentro. Esse grito continha, e isso poderá parecer tão estranho ao mundo moderno, o nome da terra.

[...]***
Cheguei à poesia pela tradição oral e julgo que essa impureza sempre me contaminará. Há muito tempo ouvi, de uma mulher pobre que lavava o chão da Igreja, na terra da minha infância, o primeiro poema. Que ela me disse e eu conservei como uma história, não como um poema. Foram precisos anos e anos para chegar, de novo a ele. Era uma página da Bíblia, do livro do Cântico dos Cânticos. António José Forte escreveu: há "gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores". Sei que isso é verdade.

[...]***
Antes dos vinte anos escrevi, sem especial premeditação, o primeiro poema. Chamei-lhe «A infância de Herberto Helder»
[...]

Sábado, 31 de Dezembro de 2011

PERDER TEMPO - MEC + ORAÇÃO AO TEMPO

[a crónica de hoje ] Miguel Esteves Cardoso, Público, 26-12-2011, p.29

Ainda ontem, Perder tempo
Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.

O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.

As pessoas dizem time is money para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.

A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era Um Peixe Chamado Wanda. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

A vida deve ser [...] Pessoa - Soares - Desassossego

TUDO QUANTO de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos. maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qulaquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que sofrer a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porqe sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos. [...]

Livro do desassossego - composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Ed: Richard Zenith. Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 162 - 163

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Yourcenar por Yourcenar - o Leitor faz-se aos oito anos

[Continua a haver quem possa. Um deles é o A. F., M. de GD e Leitor de gosto exigente. É dele o livro, que G. finalmente devolveu, por não ter tempo para o ler todo e pela vergonha de estar a reter «propriedade alheia» tanto tempo.. Foi sacado da secretária de M. J. R. e agora passou para  Eli.]

São as entrevistas feitas por Matthieu Galey; o livro é de 1980; esta edição port., de 2011. Há dias, J. R. S., M. de D., andava com um exemplar marcado pelo uso debaixo do braço.
Irmandades.

UM RECORTE:

MATTHIEU GALEY - Foi o seu pai que tomou a decisão de não a mandar para a escola?
Marguerite Yourcenar - Ninguém a tomou. É uma decisão de certa forma negativa. Naquela época não era raro as crianças serem educadas em casa. Claro que tive uma série de perceptoras, mas não tinham grande importância para mim, posso mesmo dizer que não tinham importância nenhuma. Ensinavam-me Aritmética, História da França, mas eu tinha a impressão de que aprendia melhor sozinha, o que até era verdade. A Aritmética não era o meu forte e achava os problemas ridículos [...]

- Lia muito?
- Ah, muito! Naquela altura já havia uns livrinhos de bolso a dez cêntimos (no dinheiro de então), ainda devo ter um que guardei desde os oito anos, As Aves, de Aristófenes, comprado na estação de metro Concorde. Lia-os apaixonadamente.

- Que idade tinha?
- Uns oito, nove anos. Evidentemente, não compreendia a efabulação nem a intriga, mas isso era o menos, achava que aquilo era bonito, que aquelas pessoas eram enormes e tinham grande interesse. Gostava muito de Fedra, por exemplo.

- Fedra, de Racine, aos oito anos?
- Sim, achava aquilo lindo. Agora, quem era exactamente Teseu, quem era Hipólito, isso talvez já não fosse muito importante. Era lindo, melodioso.[...]

Marguerite Yourcenar. De olhos abertos - Conversas com Matthieu Galey. LIsboa, Relógio d'água, 2011, pp. 34-35

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Castro Mendes - INCIPIT

G. foi à estante arrumar Lendas da Índia e trouxe Modos de Música, de 1996

INCIPIT
(à memória de David Mourão-Ferreira)
E se em vez das palavras fosse um eco
de pura solidão que te chamava?
E se em vez doutro nada fosse um erro
e se em vez do presente fosse nada?

E se em vez da memória fosse um sopro
da pura solidão adormecida?
E se em vez da ausência fosse o corpo
e se em vez de um só verso fosse a vida?

É só jogo de ausências este verso
ou espelho numa leve madrugada,
feito engano de luzes e disperso
batimento de remos na jangada?

(Náufragos de nós mesmos sem saber
as imagens que o verso quis perder).

Luís Filipe Castro Mendes. Modos de música.Lisboa, Quetzal, 1996, p. 38