domingo, 24 de julho de 2022

Ocampo, Silvina

 - de «As convidadas», de Silvina Ocampo, recortes de «A Escadaria»: 

    «[...] Vinte e cinco degraus. Quando ensinava as filhas a andar, contando-os um a um, [...] Agora, sozinha, volta a contá-los, após tantos anos, por mero hábito. 
     Um.. Este degrau tem a brancura do açucar. [...]
   [...] Quatro... Este degrau, suave, mas amarelado, assusta-a. Foi aí que encontrou o colar de pedras verdes e o guardou no bolso. [...]
    Cinco... O degrau do cansaço. Nunca, nunca está limpo. Um dia, por brincadeira, alguém defecou nas suas bordas. [...] 
    [...] Dez... O degrau mais tranquilo, mais feliz. Ali brincou com a trouxa de roupa como se fosse uma boneca. [...] 
  [...] Dezassete... Algumas baratas aventuram.se pelo rodapé. [...] Dá uma certa  pena. Há gente nojenta: deixam lixo na escadaria, caia onde cair: [...]
   [...]Vinte e três... Neste degrau cai a escuridão mais perfeita. [...] 

Silvina Ocampo, As convidadas, Antígona, 2022, pp. 45-49

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Miguéis

 Tal como no ano anterior, agora, no «734», texto de Miguéis; servem os comentários de Setembro de 2021 [...]

RECORTES:
     Logo de manhã cedo, o empreiteiro circula pela obra, com o meio charuto entalado entre os dentes, a barba crescida, o chapéu amachucado para a nuca, as calças arregaçadas, e um ar de permanente inquietação. Chove a cântaros, e em volta da casa é um chavascal. Ele não para, escorrega e pula pesadamente na lama argilosa da cerca, tropeça nos materiais, destemperando em pragas que lhe saem de mistura com a saliva, negra do charuto mastigado. Anda de guarda-chuva aberto e veem-se-lhe as ceroulas de fitas de nastro. Aquela casa é o seu pesadelo. Pelas salas sem conta, os operários trabalham dispersos – canteiros, pedreiros, estucadores, carpinteiros, pintores, eletricistas, canalizadores… 
     – Estas janelas ainda estão sem aparelho! A chuva inundou este quarto! O guarda, ponho-o na rua se me torna a deixar as janelas abertas! 
     – Mas as janelas ainda não têm vidros… 
     – Pois já deviam ter! Que faz o vidraceiro, que ainda não apareceu? 
      Tudo lhe corre às avessas. Todos os dias há alterações no projeto, vistorias, ideias novas. A voz tonitruante anda por todas as salas, por todos os andares, como um ciclone. E o cuspo negro, do eterno meio charuto apagado. Por todos os cantos trabalham homens, ajoelhados, de cócoras, em pé, trepados em escadotes, perdidos ao rés do teto: em silêncio, obstinados, resignados, a apurar, a retocar, a embelezar a casa do rico, dum homem qualquer, que eles nem sabem quem seja. [...] 

José Rodrigues Miguéis, «O Acidente», Onde a Noite se Acaba (1946), 7.ª ed., Lisboa, Estampa, 2000, pp. 192-194

sábado, 28 de maio de 2022

«Leonorama», Ana Hatherly

 - se, em Tempos, cada Bloco começava com «Tisanas» e, em «0910 CONT.al», Mia visitou A. H.... 
[D. não registou, só se lembra que a Qd.a veio «encantada»], 
... neste «Final final», havia que «testemunhar» essa Criadora de muitas Facetas e Expressões [...]...; 

[«em que ano foi sua professora» [???]; «na Faculdade» [???]; pensámos que teria sido antes....]

-... propõs as «6 Tisanas» dos anos COVID.s,, referiu um pouco da Vida-Obra, localizou o que, da Obra Plástica, «repousa» na GULB [...]; mas, como sempre, a «indiferença» só foi quebrada aqui e ali [...]

- levou as fotocópias das Variações de «Leonorama», mas o Arquivo «Pro-EX» rapidamente as «agilizou», a partir de uma edição «conjunta»: Anagramático, de Ana Hatherly, com quatro livros: A maldade semântica; A detergência morosa; Leonorana; Metaleitura, 1965-70. [Imagens][...]



quinta-feira, 5 de maio de 2022

«seios» + «pulmões» , M. do Rosário Pedreira

 - foi o «poema da SEMANA»,  do recente livro de M. do R. P., que: 
- «salvou» o 1.º de Maio;
- foi oferecido às MM.s, nos Qd.s da Frente
- foi lido nas «Aberturas» dos Qd.s 402 [...]:

seios

Mãe, oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão:
com o menino ao colo, fez-se a estrada maior do
que o meu desespero, amarrotou-se de velho meu
coração tão claro. Eu tinha catorze anos antes
 
do estrondo, catorze anos e meio antes do teu
grito, quinze anos cumpridos quando afastei o
véu dos teus cabelos: se me dizias sempre que não
fosse para longe, porque pediam o contrário os
teus olhos parados? Ainda por cima, mãe, chegar
 
ao campo foi como bater a uma porta cansada ꟷ
mil tendas que eram velas remendadas, barcos para
ficar de novo pelo caminho. Trouxeram-nos mantas
cheias de perguntas; tentaram-me com doces
para me pôr no lugar; mudaram ao meu irmão
a fralda com as mãos frias. Mãe, eu disse-lhes que
 
o menino era meu; e agora, quando ele procura os
teus seios no meu corpo sem formas, cubro com
o teu véu os meus cabelos e canto-lhe baixinho
canções de açucar. Não sei que idade tenho, mãe,
mas oxalá eu nunca tivesse largado a tua mão.
 
Maria do Rosário Pedreira, o meu corpo humano, 2022 (abril), p. 45

- artigo, 

«Maria do Rosário Pedreira: um evangelho laico de louvor ao humano»

 de Helena Vasconcelos, no «Ípsilon», de 5 de Agosto

 - foi enviado o poema seguinte para o Grupo do Costume e para a S. A., 14 de Maio de 2024: 

pulmões

[sobre a fotografia de uma criança encontrada morta numa praia da Turquia]

O meu pai chamou-me e pediu-me que escolhesse
um brinquedo - só um - de que gostasse muito; e
que separasse outro brinquedo para o Aylan, que
ainda não sabia escolher, mas só um, e tinha de
ser pequeno. O meu pai explicou-me que nessa
 
noite ia fazer de tudo quase nada numa trouxa
leve; porque assim, quando o Aylan e eu caíssemos
de sono, ele e a minha mãe poderiam levar-nos ao
colo sem ficarem para trás. Havia lágrimas nos olhos

do meu pai quando contou que, na manhã seguinte,
teríamos de deixar a nossa terra; mas logo se 
recompôs, dizendo que Kobanî também já não era
bem a nossa terra, que a nossa casa era a ruína da

nossa casa, que toda a Síria não passava de um tímpano
exausto de tanto estrondo e dois olhos cansados,
mas tão cansados, de chamas e de sangue. O meu pai

achava que o Aylan era demasiado pequeno para
compreender e, por isso, dissera-lhe apenas que
iríamos dar um passeio de barco, que passaríamos
o dia numa praia e que, enquanto eu e a minha mãe
nadássemos no mar até ficarrmos sem fôlego, ele
 
podia simplesmente deitar-se de bruços na areia,
como tanto gostava. O meu pai nunca nos mentiu.

 
Maria do Rosário Pedreira, o meu corpo humano, 2022 (abril), pp. 46-47

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Solidão (o direito à), por M. E. C.

 - Crónica de ontem de M . E. C. - que «vem mesmo a Talhe de Foice» para a Pausa da P. [...]

RECORTE (S):

[...]

A solidão é um intervalo. [...]
É preciso saber de um campo escondido no meio da cidade, ou de um pinhal longe de onde passam os carros. Mas é preciso ter maneira - tempo, autorização, vagar, transporte - para lá chegar.
É preciso poder fugir - mas ter onde voltar. A solidão feliz é sempre temporária. Não rejeita ninguém: refresca toda a gente.
Estar sozinho onde não está mais ninguém, olhando para as árvores e para a linha do mar, é matar uma saudade. É matar a saudade da solidão antes de nascermos - e [é matar a saudade] da solidão com que vamos morrer. [...]

[com sublinhados e acrescentos]


segunda-feira, 14 de março de 2022

o «Seiscentos Maluco» e o «Desprotegido da Sorte» OU «Nomes não escolhem destinos»

 [...] Ricardo Reis está sentado na mesmo banco, é raro acontecer, mas desta vez todos os outros estão ocupados, percebeu que o extenso diálogo dos velhos era para seu benefício, e pergunta, E essa alcunha de Seiscentos Maluco, donde é que lhe veio, ao que o velho analfabeto responde, O número dele na Carris era o seiscentos, puseram-lhe o nome de maluco por causa da tal mania, ficou Seiscentos Maluco, e foi bem posto, Não há dúvida. Os velhos tornaram à leitura, Ricardo Reis deixou vogar o pensamento à deriva, que alcunha me ficaria bem a mim, talvez o Médico Poeta, o Ida e Volta, o Espiritista, o Zé das Odes, o Jogador de Xadrez, o Casanova das Criadas, o Serenata ao Luar, de repente o velho que estava a ler disse, O Desprotegido da Sorte, era a alcunha de um larápio de pouca importância, carteirista apanhado em flagrante, por que não Ricardo Reis, o Desprotegido da Sorte, um delinquente também se pode chamar Ricardo Reis, os nomes não escolhem destinos.  [...]  [sublinhados acrescentados]

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 412-413

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Mau-Tempo

[escolhe-se os excertos que os Infantes irão ler pelos quadrados, «leve iniciativa» que se retoma; neste ano dedicada ao «Centenário»; Excerto de um deles:

 Havia um largo, umas árvores que ramalhavam, bruscas. O homem parou a carroça, disse à mulher, Espera aí, e atravessou por baixo das árvores, na direcção duma porta iluminada. Era uma taberna e lá dentro estavam três homens sentados num escano, outro a beber ao balcão, segurando o copo entre o polegar e o indicador, assim como se estivesse parado para um retrato. E atrás do balcão um velho magro, seco, virou os olhos para a porta, era o homem da carroça que entrava e dizia, Boas noites a toda a companhia, esta é a saudação de quem chega e quer amizade de quantos sejam, por fraternidade ou interesse de negócio, Venho viver aqui em São Cristóvão, chamo-me Domingos Mau-Tempo e sou sapateiro. Disse um dos homens sentados sua graça, Mau tempo trouxe vocemecê, e o outro que bebia estava no fim do copo, deu um estalo com a língua e acompanhou, Não traga ele más solas, e os mais riram porque havia de quê e a propósito. Não seriam palavras de mal querer ou mal receber, é noite em São Cristóvão, todas as portas estão fechadas, e se chega um estranho que tem nome de Mau-Tempo, só um tolo não aproveita, demais tendo chovido. [...]

José Saramago, Levantado do Chão, 2.ª ed., 1980, Nov., p. 21 [dedicatória, datada de Nov. de 81, «Para a Zé»]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Tratado da Mão

 - a fotografia é de Silvy Crespo - «The land of elephants» - DAQUI



- a «via» para lhe aceder foi o Dossiê de hoje, do P3 («Lítio e Barroso...»)

domingo, 7 de novembro de 2021

Dom Pedro, por Duarte Nunes de Leão, por Nuno Júdice

 O QUE DUARTE NUNES DE LEÃO
DISSE DE DOM PEDRO

 No meio do campo, onde caçava o cervo e o porco-bravo,
não pensava pedro nas coisas do mundo, nem imaginaria
que súbditos mais astutos do que ele nas caças do poder
lhe apanhariam inês nas suas redes, e depois a 
matariam como dizem as crónicas, levando-o a 
afastar-se de coisas mais mundanas para se dedicar 
à justiça, que por suas mãos praticou, pondo 
todo o rigor e cuidado na sua arte.

E porque se deleitava em executar a sentença,
tinha sempre consigo o chicote, dispensando 
os algozes que o acompanhavam. Chamaram-lhe
azedo e terrível; mas também usava de humor no
seu ofício, como quando pôs a tormento dois dos
que mataram inês, álvaro gonçalves e pêro coelho,
e ao coelho temperou as feridas com cebola e vinagre.

E se mandou tirar os corações, a um pela frente e 
a outro por trás, foi para ver se os  tinham  - o que,
visto e conferido, se pôs a comer, enquanto os
queimavam. Mas respeitava os bispos: e quando 
acusaram o do Porto de dormir com  a mulher de 
outro cidadão, [...] 
[incompleto]

Nuno Júdice, Navegação de acaso, 2013, pp. 67 - 69

 

domingo, 26 de setembro de 2021

«Novas Cartas...» (Novas Leituras das...)

 - a obra «completou» 50 anos; só M. T. H. «lhe sobrevive», ainda; 

Museu do Aljube


- dossiê do «P2/ P3», com (e sobre) quem hoje, jovem,  a volta a ler [...]

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

As vinhas...; Steinbeck

 - na edição das P. E. A., relembra que terá sido oferecido por [...] [se estiver com J., em Santo António, será possível confirmá-lo; certo é que o releu muitas vezes, e não só por a «Biblioteca» ainda ser curta...; pela «funda impressão» causada pelo Livro num Menino de cerca de 14, atento e observador; relembra isso e outros pormenores, vendo o DOC. que está na «RTP Play»

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Almada: «A Invenção do Dia Claro»

- na CASA F. P.: em reencontrada Lição, de 04 de Dezembro de 2020...; 

Aulas de Poesia Mundial,  Almada Negreiros, por Mariana Pinto dos Santos




sábado, 24 de abril de 2021

Onde estava...

 ... no 24 de Abril... para «variar»...:

VINTE E QUATRO DE ABRIL DE 1974
 
Perto do jornal o restaurante
onde falamos baixo e olhamos em volta,
porque eles estão lá, parados, a ouvir-nos,
feitos de sombra e de sarro, de sarro e de sombra.
Nós falamos da guerra, dos presos, dos desertores,
da classe operária, da reforma ou revolução.
E duvidamos de tudo menos do clarão vermelho
que nos aponta ao futuro.
Falamos a medo, mas falamos,
lemos a imprensa clandestina e passamos
o papel de mortalha onde estão escritas
as palavras proibidas.

                                                                            Luís Filipe Castro Mendes, Voltar, 2021, p, 48


domingo, 4 de abril de 2021

4 de Abril de 1571: Damião de Góis

 - não se lembra do Nome do Qd.o - alto e «forte» - , finalista, «lá pelos inícios do Milénio» [...]; na primeira «sessão», colocou a «Sala das Perguntas», de Fernando Campos, sobre a «Tábua»; 

- «convidado» para falar da mesma, 15 dias depois, «não se fez rogado», livremente se exprimindo, isto é, sem ler...; «e o resto (a conversa do final) não se diz...»

- Dossiê de hoje, o mesmo dia, 450 anos depois: PÚBLICO e o Teatro Nacional D. Maria II evocam esse acontecimento com um texto do historiador Rui Tavares e leituras de passos do processo gravadas pelos actores António Fonseca, Beatriz Maia e Pedro Gil no D. Maria II, erguido no local dos calabouços da Inquisição [...] 

sábado, 20 de março de 2021

«1816: o Ano sem Verão...»

 - «Atrás dos tempos vêm tempos / E outros Tempos hão-de vir» - crónica de António Araújo, hoje, no «DN»: o «ano sem verão», um concurso literário, Frankenstein...;

Recortes: [...] Há duzentos anos, o mundo sofreu o Ano sem Verão, nome por que ficou conhecido 1816, no qual, fruto da erupção do monte Tambora, na Indonésia, ocorrida em Abril de 1815, a Terra sofreu uma onda de frio prolongado que espalhou o caos, devastou colheitas e provocou as maiores fomes de que há memória em todo o século XIX. Tempestades gigantescas, chuvadas incessantes, inundações dos grandes rios, pandemias de tifo e de cólera, muitos milhares de mortos, talvez mesmo milhões, ao certo não se sabe quantos. O sol escondeu-se um ano inteiro, os céus cobriram-se de uma neblina escura permanente e o mundo mergulhou nas trevas, [...]

[...] O Ano sem Verão produziu um dos mais bizarros e profícuos encontros literários de que há memória, quando, no mês de Julho desse aziago 1816, um conjunto de génios decidiu fazer férias em Cologny, nas margens do lago Genebra. Numa das casas, a Villa Diodati, vivia exilado Lord Byron e o seu médico pessoal, John William Polidori. Perto dela [...]


sábado, 13 de março de 2021

«A Gorda»

 

- enquanto não sai a próxima ficção, dada como pronta nesta conversa, [«A beleza das pquenas coisas, de 5 de Março], (re)ouvir I. A. S., sobre o livro de 2016, e outras [...]; 
- um dos destaques: «vida banal, conversa de Café = material mastigado na (pela) ficção» 

- no mesmo «podcast» («A beleza...»), a 28 de Abril de 2023 [...];

- no «podcast» «Vale a Pena», entrevistada por Mariana Alvim, a 25 de Abril de 2023;

- no «Café com Letras», a 20 de Janeiro de 2023, entrevistada por José Mário Silva

- de novo no «Podcast» «A beleza das pequenas coisas», a 8 de Janeiro de 2025;

terça-feira, 9 de março de 2021

tinha que chegar a «Os Maias»... e a «Mataram a Cotovia»

 ... a incapacidade de «ler a Ironia» OU a (capacidade) de «enviesar» Teorias «bacocas»...; de pôr os pontos nos is» se encarrega  claramente A. Carlos Cortez.... AQUI

RECORTE final

[...] Vítimas da raça, da hereditariedade, quer Carlos, quer Ega, quer qualquer outra persona deste romance, são caricaturas, cara Vanusa [Vera-Cruz]. São prosopopeiasfiguras da escrita. Oitocentista, filho dum século positivista, leitor de Balzac e de Zola, Eça é racista? Acusá-lo de tal é cair numa superstição literária — dessas que hoje fazem encher o olho e dão parangonas. Camões, por este andar, ainda há-de ser proibido nos programas por se considerar que cada poema lírico seu é um piropo machista e ofende a dignidade da mulher. Vai Victis!!

[sublinhados acrescentados]

- a 14 de Março, noutra(s) perspectiva(s): artigo de Vítor Belanciano [que agradece o facto de ter tido duas boas professoras, a Português e a Filosofia...]

Nuno Saraiva, copiada do «Ípsilon», de 3 de Abril

- a 3 de Abril, no «Ípsilon», artigo de Luís Miguel Queirós, que «inventaria», de algum modo, o estado da «polémica» e refere várias perspectivas, também [...]  

- a 18 de Julho, artigo sobre o mesmo, desta vez, da Escócia, aplicado a «Mataram a Cotovia», de Harper Lee - RECORTES:

[...] As notícias que vêm sobretudo dos Estados Unidos, e a discussão recente acerca de Eça de Queirós, levam-nos a pensar, [...] Tirar obras dessas é querer regressar ao grau zero da leitura. À incapacidade de ler a ironia, a metáfora”, diz a professora da Escola Secundária Henriques Nogueira, em Torres Vedras, que se interroga como se pode ensinar literatura sem problematizar. “Não se pode. Toda a literatura com algum interesse vai ao ar. [...]


quinta-feira, 4 de março de 2021

«O Tempo também se engana?» OU «(já não é) esse Grande Escultor?»


 - a 28-02, no «P2» (supl.o do «Público»), artigo que é um «dossiê», com diferentes depoimentos e perspectivas sobre «as percepções» do Tempo 
- para ler e reler...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

«Madrugada (Ritual da)»; Manuel da Fonseca

 - E., em contexto «PAND.», decidiu que não limitaria os «leitores» ao «bem esquartejado» «Sempre era...»; mantém-se a questão de não se lembrar do que foi feito das edições «antigas», da «Forja», por exemplo, algumas autografadas para a alentejana Zé ... 
      - [foi «debater» a questão com a General e voltou...; última hipótese, na Garagem?? - NÃO, a 01-03...]
- não se lembrava, também, dos contos de »Tempo de Solidão»; este, particulamente, «remete-o» para o C. do S., para o Estaminé do Pai Velho («Curtos» e «Meio-Curtos»...) , para «os Marítimos» ( e «Estivadores»...), para a «Casa do Conto», à esquina da D. Luís I...; para a Infância...

RECORTE da Situação Inicial:

Rumorosa, na madrugada escura, a chuva metralha as ruas e as paredes encharcadas. Áspero, o vento sacode as cordas de água, raspa pelas esquinas e entra na taberna, onde a espaços chegam, vindos do rio, os uivos abafados e longos das sirenes dos navios.
    A taberna está cheia de marítimos. Uma lâmpada saída da parede atira com a luz crua contra as caras e os troncos, apagando-os pela altura do balcão. Daí para baixo é tudo sombra densa até à serradura empapada, negra, que cobre o chão.
— Aguardente ― grita alguém, de modo a ser ouvido.
O taberneiro, como a luz lhe dá pelas costas, move-se, disforme e escuro, por detrás do balcão.
— Três! ― gritam-lhe de outro lado. [...]

Manuel da Fonseca, Tempo de solidão, p. 39 da Reimpressão de 2014 (1. ª ed.: 1973?; 1969?)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

«Marcenda»; formas de tratamento e Nome + Teoria da (Escrita) da Carta

- de excerto proposto hoje («Teoria da Escrita da Carta»):

[...] Claro está que Ricardo Reis não admitiu, sequer, a hipótese de tratar Marcenda por (“)excelentíssima senhora dona(“), ou (“)prezada senhora(“), a tanto não lhe chegaram os escrúpulos de etiqueta, mas, tendo eliminado esta fácil impessoalidade, achou-se sem léxico que não fosse perigosamente familiar, íntimo, por exemplo, (“)minha querida Marcenda(“), porquê sua, querida porquê, é certo que também podia escrever (“)menina Marcenda(“) ou (“)cara Marcenda(“), e tentou-o, mas menina pareceu-lhe ridículo, cara ainda mais, depois de algumas folhas rasgadas achou-se com o simples nome, por ele nos devíamos tratar todos, (“)nomeai-vos uns aos outros(“), para isso mesmo o nome nos foi dado e o conservamos. Então escreveu, (“)Marcendaconforme me pediu e eu lhe prometi, venho dar notícias (“), tendo escrito estas poucas palavras parou a pensar, depois continuou, deu as notíciasjá foi dito como, compondo e adequando, unindo as partes, preenchendo os vazios, se não disse a verdade, muito menos toda, disse uma verdade, acima de tudo o que importa é que ela faça felizes quem escreve e quem irá ler, que ambos se reconheçam e confirmem na imagem dada e recebida, ideal seja ela, imagem que aliás será única, pois na polícia não ficou auto de declarações que faça fé em juízo, foi apenas uma conversa, [...]

[sublinhados acrescentados]

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 227, 228 da edição de 2016,17

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

«O ROSTO COM QUE FITA», Paulo Teixeira

[«esquecido» como sempre, E. «entrou» atrasado na «Sessão de Pares» e, no «paralelo», M. J. C. disse que tinha apreciado o poema de P. T. que E. deixara «pela Mesa» do Qd.o «DDT»; enquanto aquela «decorria», passou-lhe outro, o que segue,  pelo «2.º paralelo»...]

O ROSTO COM QUE FITA

A lenta descida das alturas do clima
para o espaço físico, sem memória,
sem bandeiras, sem oráculos ne
m heróis.

Envolta numa bandagem de gelo,
a Europa, nas primeiras horas da manhã
de Março, entre o display e a escotilha, 

entre o mapa e o território, adormecida,
por momentos, na ausência de poder
que se deduz da plácida geografia.

É uma questão de escala e de altitude
o desejo do cartógrafo: medir o espaço
e desenhar-lhe com os dedos os contornos.

Este o prazer secreto da agrimensura,
a passagem, numa pausa entre nuvens,
de paisagem árida, lunar, à topografia.

Portugal é uma orla, um  fino recorte
do mundo, e torna-se mais nítido
o rosto com que fita o oceano.

Em baixo, os pequenos pontos luminosos
são o presente e a intenção que move
os veículos pelas estradas nacionais.

Desces para uma história de vida,
além da mancha de retalhos da lavoura.
O rio, as pontes, a torre e o mosteiro,

as docas vazias de Alcântara, pontuam
de referências conhecidas o cenário
onde encenar de novo uma pertença - 

a trepidação no regresso ao script de origem,
ao logos de nascença, a razia aos prédios
e a queda inapelável no real quotidiano.

Paulo Teixeira, a comoção do mundo, Caminho, 2020, pp. 31-32 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

«O regresso de Júlia Mann...», Teolinda Gersão

- veio pelos «CTT», visto que as livrarias foram «confinadas»...; é pela «(falta de) lógica que nos (des)governa», que  começa a (audio)ENTREV. de hoje do OBS. à autora - «uma pedrada no charco», como sempre [...] 
- E. vai na segunda narrativa deste livro, na página 44

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

«saudade pronta a vestir», por M. E. C.

 Recortes da Crónica de hoje - «A saudade espalhada», de M. E. C.:

     Uma coisa que a pandemia trouxe ao mundo inteiro foi a saudade.
[...] Ouço crianças que me falam como velhos numa casa de fados, evocando um Verão perdido, descrevendo o que perderam, lembrando-se de como era e duvidando que volte a ser assim.
     Já não interessam as idades: as cidades, as nacionalidades, as identidades. A todas custa. Todas se assemelham na consciência de não ter dado valor ao que desapareceu de um momento para o outro. Todas são capazes de conjugar a palavra saúde com a palavra saudade.
     É como se toda a gente tivesse perdido um ano. Nunca saberão como teria sido esse ano se não tivesse havido a pandemia. Teria sido como os anteriores? A saudade provoca esse engano de fazer caber todos os Verões num Verão roubado
[...]A saudade que até há pouco tempo era uma especialidade portuguesa tornou-se um passatempo universal – no sentido mais saudosista da palavra.
     Há aqui uma oportunidade única de negócio. Nenhuma literatura, nenhuma música, nenhuma azulejaria está tão impregnada de saudade como a portuguesa.
     Porque é que outras culturas hão-de perder anos a tentar tirar o sentido do que se passou, se a portuguesa já tem a saudade pronta a vestir?

 [sublinhados acrescentados]


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

«O teu jardim», Nuno Júdice

 - do último, de Julho, livro de Júdice; enviado como 11.ª «proposta» da »secção» «Acesso Bloqueado»...; há que aguardar..

O TEU JARDIM

Seguindo a sombra das árvores na relva,
vou ao teu encontro. Pousas no chão de pedra
os sapatos cor-de-rosa; e o sol salta sobre
o muro do fundo, seguindo o exemplo
da trepadeira. E desejaria então que o tempo
parasse para permaneceres neste verso,
na eternidade da tua saia vermelha e das tuas mãos
que seguram um livro ainda fechado. Pouco
importa o que nele está escrito: o que importa
são as imagens que adivinho
no fundo dos teus olhos em que se reflecte
uma grande árvore — essa que talvez converse
contigo, quando o vento agita
as suas folhas. Talvez isto seja um quadro
em que tudo é fluido, esbatido pelo brilho do sol; tu,
porém, olhas-me através desses fragmentos
de vida que passam através de nós, sobrepostos
como a superfície de cubos que nasce
do empedrado do chão. E abres o livro,
sublinhando as palavras que te procuram.
 
Nuno Júdice, Regresso a um cenário campestre, 2020 (Julho), D. Quixote, p. 56

domingo, 6 de dezembro de 2020

Assis Pacheco, 25 anos

- a fotografia foi copiada do OBS, de hoje, junto de um artigo de Nuno Costa Santos, «só para assinantes», pelo 25.º ano do seu falecimento; para «compensar», o vídeo da Tinta-da-China, pelo lançamento, em 2019, da «edição aumentada» de «A Musa Irregular»
[e ouvir A. B. Bap. «reconduz» D. à «Nova», aos «idos» de 86-89 [...]

sábado, 21 de novembro de 2020

«Quando», «acende e apaga»; Manuel Alegre

                          IV

Nunca vi ninguém morrer sem medo.
Tínhamos medo nós a pressionar artérias
tinham medo os que viam o sangue a derramar-se
gritavam pela mãe mais do que por Deus.
Por Deus certa vez eu chamei muito
primeiro para dentro como quem reza
depois em desespero aos berros:
«Vem depressa vem depressa.»
Mas quando o helicóptero chegou já era tarde.
Meu caro poeta cardeal: Deus não me ouviu.
Chamei-lhe nomes blasfemei:
«O gajo é surdo.»
Não diga nada ao papa eu gosto dele
mas a verdade é esta
Deus não me ouviu.
 
Podem dizer que estou a ser injusto
anos depois o meu coração parou
os alarmes soaram no hospital
não sei se Deus ouviu a campainha
o que sei é que o médico não era surdo
deu-me dois choques e ainda estou aqui.
 
A quem dar graças
a quem oferecer o pirilampo
que está dentro de nós
faúlha de uma estrela desaparecida
acende e apaga acende e apaga
no princípio e no fim a morte e a vida
depende de quem chega ou não a tempo
um helicóptero o médico
acende a apaga
acende e apaga um só momento.
 
Não há tempo no tempo não há tempo
ninguém me viu ontem em Babilónia
quem sabe se amanhã verá
tempo só hoje
tempo sem antes nem depois
como acertar no poema a rotação da Terra
ou declinar o fluxo das marés?
 
E como esconjurar o fogo e a praga?
SMS não é a minha escrita.
Será que Deus twita?
Faz como ele: clica e apaga
clica e apaga.
 
Manuel Alegre, Quando, 2020 (Novembro), D. Quixote, pp. 21, 22

[IV «Canto» de X];



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

«Os grandes animais», Inês Fonseca Santos

- este era uma dos livros que E. levava, de manhã cedo, para a «Fila LDL», na 1.ª ONDA CVD...; dito, pela própria, na «Vida Breve» de 27 - 02**: 
- enviado aos três Blocos, na Secção «Acesso Bloqueado», teve a mesma reacção de sempre: NULA...
- assim  marcha a «Escola do Paraíso CVD»...

OS GRANDES ANIMAIS

Ser senhor dos seus humores
é o privilégio dos grandes animais.
Albert Camus
 
Em Auschwitz-Birkenau trabalhei
o poema à exaustão. Ao fundo,
uma palavra antiga: Ullmann murmurando o eterno
 
was wollen Sie hier?
 
Música e lava,
o espanto de haver aqui qualquer coisa próxima
de uma morada: portas, paredes, em cada gesto
literatura sobre tanta vergonha acumulada.
 
Auschwitz, Birkenau habitam hoje o interior
dos versos; são vivos fitando o embaraço
da sobrevivência. O aviso chegou-me de um amigo:
 
o eterno é um número indelével,
 
memória desocupada de quem não viu
do território o ferro.
 
Não será assim tão longo o mundo
que não vos voltemos a fitar:
os pés assentes no carvão dos corpos,
os grandes animais por companhia.
 
Ah, os grandes animais: não o cavalo
que cospe quem o monta, mas a barata
que silenciosamente escapa
ao pé que a pisa.
 
Inês Fonseca Santos, Os grandes animais, com Ilustrações de João Maio Pinto, Abysmo, 2020 (Janeiro), p. 19



domingo, 18 de outubro de 2020

«Éléments impurs», Barreto Guimarães

 - poema do último livro de João Luís Barreto Guimarães, com 43 textos, uma das leituras destes últimos dias:

Éléments impurs

Lentamente
a cidade aceita a escuridão. É uma batalha perdida (a
da luz contra o negrume) desde
sempre foi assim
em todos os quartos da História em
todas as praças e ruas em casebres e
em palácios. Conversamos na cozinha (uma só
sombra no
chão) agora é contra mim próprio
já não é contra ninguém e
hoje não me
dói nada. Mantenho uma distância segura do
que chamam realidade (disperso vendedores de rosas
como quem dispensa ilusões)
falamos do que aí vem (dias que
não têm nome mas
vão desde já
numerados). E conto-te histórias antigas um
exemplo: quando pousava moedas nos carris do eléctrico e
esperava que o movimento esmagasse
as caravelas. Cada um de nós começou com uma
vitória sobre o nada
(como um pintor flamengo agora assino: João o Velho) os
dias crescem em Fevereiro
(a hora adianta em Março) preso
há um par de semanas o jovem casal da frente
prefere fazer amor numa
posição diferente. Devem estar a tentar
uma menina.

 João Luís Barreto Guimarães, Movimento, 2020 (Outubro), pp. 60 – 61 (da «Secção» «dia de Júpiter»)

[Entrevista ao «JL». número 1311, de 30 de dezembro de 2020.] 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

«entendimento direto», Campilho, Matilde

 - volume de MicroNarrativas, que é uma das novidades nos 8 que vieram para a Zmab...

«Em Londres, no Museu de História Natural, um mamute levanta um pouco a tromba à passagem de José. O menino fica estarrecido, um bocado excitado, e puxa o casaco de sua mãe para a avisar da vida que existe dentro do empalhamento. A mãe, ao ver José assim irrequieto, atrapalha a fila de turistas para se ajoelhar até à medida dos seus olhos. Pergunta-lhe o que tem e o menino, já que nem fala ainda, exemplifica por gestos o levantar da tromba. A mãe sorri, feliz por ver validado o dinheiro do bilhete, alegre por ver despertar-se no seu mais novo o poder da imaginação. E José sorri-lhe de volta, com muito amor, consciente de que o seu entendimento direto com todas as coisas vivas do mundo não durará para lá do dia em que descobrir a fala.»

Matilde Campilho, Flecha, 2020, p. 73

[Ípsilon, de 24-07)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

«Branco», Nuno Júdice

- é o poema referido no «PERI» do Fecho de 1920:


BRANCO
a Eugénio de Andrade
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.

Nuno Júdice, As coisas mais simples, Lx., D. Quixote, pp. 50-51

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Primeiras Letras ( a Escola antes das)

[o excerto de «As pequenas Memórias», de Saramago, que fechou o «Paraíso Pandémico»«reconduziu» D. ao excerto de «A Escola do Paraíso», de que se transcreve um Recorte...:

   [...] "Um dia, aos dois anos e meio, acompanhou os irmãos ao Colégio: nunca mais quis ficar sozinho em casa. Todas as manhãs um escarcéu, não houve remédio senão deixarem-no ir também. Ora, e que aprende? Os outros meninos soletram, rezam, fazem caligrafia segundo o Paleógrapho (é uma pena a gente não saber imitar o gótico, mas talvez um dia!), fazem cópias e contas, resolvem, mas sobretudo não resolvem, problemas de torneiras [...]; ele aprende a amar a escola, o convívio, o ritmo do lápis, as oleografias, o cheiro do papel e dos livros com estampas, as manhãs atapetadas de chuva... [...]"


José Rodrigues Miguéis, A escola do paraíso (1960), Estampa, 1993, 9.ª Ed., p. 39


segunda-feira, 22 de junho de 2020

«Autobiografia», José Luís Peixoto

- «aleatoriamente», os «recortes» com que se «fechou» o «O Ano da Morte...» (o «diálogo» entre...):
Silêncio na noite e no autocarro, os poucos passageiros não falavam, ninguém reparava na labuta do motor, mas Lídia estendeu um canto do olho na direção do livro que José levava, El Año de la Muerte de Ricardo Reis. E, nesse mesmo instante, de repente, uma revelação instintiva, José apenas deu conta do que disse depois de o verbalizar, estive em Lanzarote.

Estas palavras foram o centro de um vórtice, um uníssono cósmico, confluência de necessidade e sentido, Lídia olhou diretamente para o rosto de José.
Grata pela coerência, pela prova infalível do livro em castelhano, a pele de Lídia descansou. Noites mal dormidos, isolamento, apenas o filho, a ama, as freguesas, o dono do minimercado duas ou três vezes por semana, de surpresa, a tocar-lhe com o joelho, a emperná-la, como queres que chegue à caixa?, apenas os desconhecidos do autocarro, de manhã e à noite, apenas um telefonema por semana para a vizinha  da avó em Cabo Verde, a avó a não querer apoquentá-la, os primos durante segundos, trinados crioulos, mana.
Estive em Lanzarote, não achei meio de avisar-te. Antes de dizer uma palavra, Lídia folheou o livro. Sim, as páginas todas escritas em castelhano. Lídia queria acreditar. Olhando para José, saciando a vontade que contrariou desde o início, falou por fim, saímos aqui.
José sentiu dificuldade em adaptar-se a estas palavras simples, parecia-lhe demasiado, mas Lídia avançava já pelo corredor do autocarro, não podia perdê-la de vista, hipnotizado pela elegância daquele corpo sólido, pernas grossas, braços grossos, mulher densa.
A noite outra vez, temperatura, trevas e iluminação pública. A euforia de José conseguia satisfazer todas as perguntas. Naquela estrada de Sacavém, caminho inclinado, José descrevia uma ilha, talvez correspondesse a Lanzarote, ou talvez não. Indiferente à geografia, recuperou o brio da sua força. Ao longo do dia, não obstante a insistência, apenas bebeu água da torneira, três copos cheios. Além disso, aquele livro misterioso salvou-o. Estive em Lanzarote, genial. […]

José Luís Peixoto, Autobiografia, Quetzal, Lisboa, 2019 (Julho), pp. 132 - 134

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Velho Paraíso, com Q. L.

- 9293, «Estação Probatória», com a Sorte de ter sido colocado no Velho Paraíso (seis Qd.s de 10.º, à tarde...)
- 0203, finalmente, seis Qd.s (de 10.º, ainda), de manhã, para poder frequentar o MEST...; a entrevista é de março de 2003 - nos Arquivos RTP

segunda-feira, 11 de maio de 2020

«Quem Espera Desespera» - António Araújo

- Crónica de 9 de Maio, no «DN», «percorre»  o Motivo da Espera (e os do Silênco e do Naufrágio...) no contexto da Pandemia,  neste quadro, do Pintor  Richard Oelze , na «Jangada de Medusa», de Théodore Géricault, em obras  japoneses, em obras literárias  - grande Percurso curto...

RECORTE(S)
Quem espera desespera. O tema tem sido muito glosado por estes dias, dias de convívio difícil, para alguns quase impossível, com o contrário daquilo que medularmente somos, pessoas ou sociedades ruidosas e ansiosas. Justamente a antítese do que de nós se exige agora, o silêncio e a espera.
Como fraco lenitivo, alguns têm lembrado exemplos da literatura e da arte: [...]
[...] Na tela de Oelze, deparamos com um grupo de cavalheiros de gabardina e chapéu, que surpreendem pela uniformidade quase castrense, e algumas senhoras, poucas, de casacos de peles e também chapéus, numa atmosfera elegante, urbana, bastante deslocada da paisagem rural envolvente. A luz, estranhíssima, mais lunar do que solar, projecta-se sobre o grupo vinda do lado esquerdo, provavelmente a partir das costas de damas e de cavalheiros; à traição, portanto. O ajuntamento compacto, igual aos que se formam para contemplar os desastres e as calamidades quotidianas, confere ao quadro uma intensa carga trágica ou, melhor dizendo, prenuncia-a, num momento de suspensão e suspense que é apanágio de todas as narrativas da espera.  [...]