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sexta-feira, 12 de julho de 2024

«na idade das sílabas», Mário Lúcio Sousa

  [terminado, após duas ou três interrupções...]; o Motivo da Infância no RECORTE escolhido:

                [...] «Em Bafatá, por exemplo, sua cidade umbilical, onde aprendeu a dizer mamé, a usar os joelhos e as palmas das mãos para empurrar para trás o mundo, a andejar aos trancos os barrancos, ele, Amílcar, viveu apenas até aos três anos. Nem teve tempo para fazer amigos, tão divinos para um menino. Mal começou a brincar, a mãe o chamou, banhou, vestiu e levou a Geba, outra cidade, para conhecer Juvenal, visto que o filho estava na idade das sílabas e convinha ajustar ao seu prematuro vocabulário a urgente pronúncia de Baba e as suas quarenta derivações, como é a palavra pai nas línguas das crianças da Guiné. Em Geba, ele, Amílcar, olhou para longe a partir da varanda, caçou lagartos em frente de casa, coleccionou sementes e folhas debaixo do colchão e na gaveta da escrivaninha do pai, brincou de riscar garatujas no massapé do solar, solicitou outros colegas para trebelhar, mas, infelizmente, tão pouco tempo teve para amizades, pobrezinho, pois meio começou a brincar e, antes do segundo golo por entre a porta abalizada, a mãe gritou-lhe Para o quintal, confiscou-lhe a bola de meia, banhou-o na tina a fumegar, trajou-o com roupa nova de ocasião e levou-o ao cais, de onde aproaram rumo á cidade da Praia de Santa Maria, a capital de Cabo Verde.»
 
                  Mário Lúcio Sousa,  A última lua de homem grande, 2022, p. 47
[OUTRO RECORTE]

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

«brincar às palavras» (de «Nessa altura já cá não estamos»)

 - terminado só hoje de manhã, na ESP. dos Manos D. + A.; irá ou não para a «Mesa das Trocas»?

RECORTE(S):

     Por vezes fica muito entediada e brinca sozinha às associações de palavras. [...] Quando lhe surge uma palavra muito estranha, fica absorta e surpreendida a pensar nela. Acontece o mesmo em relação aos objectos a que essas mesmas palavras aludem. Acontece-lhe isso com alguidar, por exemplo. Que na sua cabeça é sempre um objecto de cor creme com uma risca castanha. E também com  a palavra macarrão, que tem a estranheza do erre, das estrias longitudinais da massa e do orifício ovalado das extremidades. [...] Como vive numa comunidade bilingue, surgem-lhe à mistura palavras em castelhano e valenciano [...]

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Na cadeira do barbeiro (em «A Arte de Driblar Destinos»)

 - já referidos, os Mestres Finezas de D. (o sr. F., da Calçada S. C. de S., e o sr. M., da Calçada da B. G.)...; para espanto de R., cá pelo Bairro, com tantos Neo-Barb.os, o preço do Corte não pára de baixar...; o narrador protagonista de «A arte...» explicita o final da narração da Primeira Infância, antes de nova mudança da  família para outra casa, noutra terra..., na p.195, no final do cap. 31: «Era o fim de Fevereiro e, como em um drible de Garrincha ficava para trás a minha primeira infância.»;

- [da BiblioPenha, a devolver no dia 9; atingida a p. 220, de 275]

RECORTE(S):

     Nessa época de vizinhança com o ancião Rodolfo, eu às vezes ficava de tocaia na porta da barbearia [...] Eu admirava a coragem da vítima cordata entregue àquelas mãos trêmulas manejando tesouras e navalhas, sem imaginar que logo seria  a minha vez. Aconteceu alguns dias antes do meu aniversário de dez anos, quando me sentei naquela cadeira, sujeitado ao desejo de minha mãe de me ver com um corte profissional. O longo pano preto que recebi sobre o peito, indo até cobrir as pernas, e o modo apertado como o barbeiro amarrou com um nó os cordões atrás do meu pescoço, me fez sentir prisioneiro, [...] Ao ouvir sons sibilantes, virei o olhar um pouco para o lado, a tempo de perceber as mãos trêmulas afiando a navalha  numa  tira de couro, e logo o movimento da lâmina reluzente em direcção à minha cabeça, no fito de aparar os pés do cabelo e desenhar a linha recta da nuca. Foram instantes terríveis, e tive pensamentos  de rebeldia, mas estava preso à cadeira e minha única defesa foi cerrar os olhos. [...]

Celso Costa, A arte de driblar destinos, 2023, p. 129

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

(...) o papagaio que gostava de bolo de arroz (Dulce M. Cardoso)

 - de manhã, com sol e pouco frio, pelos transportes (735, sobretudo...), releitura deste número da «Granta», para decidir se vai ou não para a «Mesa das Trocas»...; do conto de D. M. C., ...

Excerto(s):
[...] A família vilã vivia na Rua Itapirapes, número 54, e tinha um papagaio que gostava de bolo de arroz. A minha mãe nunca tinha comido bolo de arroz, e quando provou gostou muito. Esse gosto acabou por ser responsável pela morte do papagaio.
[...] o papagaio que gostava de bolo de arroz [...] era um papagaio delator. Por estranho que pareça, a minha mãe ainda hoje jura que o papagaio que gostava de bolo de arroz era capaz de contar à tia síria tudo o que a minha mãe fazia e que a denunciava se em vez de limpar a casa a minha mãe fosse brincar com os vizinhos japoneses. [...}
     Todas as tardes a tia síria trazia um bolo de arroz ao papagaio, todas as tardes a minha mãe roubava um bocado do bolo de arroz, todas as tardes o papagaio fazia queixa, todas as tardes a tia síria batia na minha mãe. Assim aconteceu até que os vizinhos japoneses sugeriram que a minha mãe matasse o papagaio [...] a minha mãe garante que ela e os vizinhos japoneses coseram o rabo do papagaio com uma agulha e linha. [...]

Dulce Maria Cardoso, «O coração do meu mundo ou o papagaio que gostava de bolo de arroz, in Granta, n.º 6, 2015, pp. 163 - 177


sexta-feira, 9 de junho de 2023

Literária Infância nas Canárias

 Recortes da Leitura referida no «Alpa»:

- [...] E então, juntas, percorríamos de novo todo o caminho que tínhamos desenhado em ziguezague [...] porque a Isadora dizia que, se andássemos de  um lado para o outro nos cansaríamos menos, e começávamos a falar sobre uma vez em que fizemos chichi pelas pernas abaixo para saber o que se sentia, e fizemos chichi dentro de uma plantação de batatas de um vizinho da minha avó, [...] e rastejámos pelas terras mijadas e sem nos apercebermos eu e a Isora já estávamos perto da casa dos homossécsuais e já faltava pouco para chegar à venda e então a Isora perguntou-me se eu me lembrava da vez em que na escola deitámos um sumo de maçã na cabeça de uma menina de quem não gostávamos e nos apanharam. [...] Perguntei à Isora se se lembrava da vez em que na escola estávamos a brincar aos cães e ela tinha um cão que era Josito, o menino do Redondo, que era o Josito de gatas com uma corda atada ao pescoço e ele levantava a pata e fingia que mijava nas paredes da escola, nas paredes pintadas com desenhos das ilhas Canárias e com pessoas pequeninas vestidas com fatos de feiticeiro e de feiticeira e cachos de bananas e carroças com bois de romaria e batatas e morteiros de quando celebramos o Dia das Canárias [...]

Andrea Abreu, Pança de burro, Bertrand, 2023, pp. 43-44

domingo, 4 de junho de 2023

«Raça dos inúteis», «Signo Sinal», Vergílio Ferreira

 - bastante amarelado, o exemplar, de 79, que veio das Galveias, mas em bom estado, certamente pouco lido, e, ou, manuseado...; na ESP. do R., atingida, de manhã, a p. 30

RECORTE:

     [...] «Gostava dos livros, das artes, das ideias, pertencia à raça dos inúteis. Meu pai o pensava em voz alta com minha mãe, franzindo a boca, balançando as cabeças. Dos inúteis. Mas logo de pequeno - ele mo lembrava às vezes com comiseração. Metia-me num quarto, chamavam-lhe o quarto escuro [...] Livros de aventuras, folhetins dos jornais, ó suave encantamento da translúcida verdade - deixem-me comover. Era da raça dos inúteis, detestava o mundo excessivo, pesado de materiaçidade, espesso de cegueira, o eso, a espessura, sufocando a beleza que nele cintila. [...]

Vergílio Ferreira, Signo Sinal, Bertrand, 1979, p. 26

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sophia - A menina do mar

Uma preciosidade - o disco de 1961 - leitura do conto - música de Lopes Graça - no «YT»

domingo, 23 de outubro de 2011

«os Lusíadas» (o miúdo que os ia continuar)

de: O míudo que pregava pregos numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 -

9
      O míudo que conta as sílabas pelos dedos não se contenta em contar as dos outros, às duas por três começa a contá-las para si mesmo. E não está com mais aquelas, chama a irmã e confidencia-lhe: Vou continuar Os Lusíadas. Ela ficou um tanto assarapantada, mas leva a sério, como, aliás, tudo o que vem do irmão. Mas não consegue conter-se. Conta a uma amiga, esta a outra, que por sua vez conta a outra, a notícia vai dando a volta, chega ao liceu do irmão e à rua onde moram, os vizinhos comentam, entre eles um escultor célebre, mestre Barata Feyo, o único, diga-se de passagem, que não se escandaliza, acha natural, ao ponto de apresentar o miúdo a dois colegas professores de Belas Artes:
         - É este o homem que está a continuar Os Lusíadas.
       De modo que o miúdo que pregava pregos numa tábua não teve outro remédio senão o de tentar corresponder à confiança de tão ilustre artista. E meteu mãos à obra. Mas ainda hoje não sabe se conseguiu. E o escultor já cá não está para confirmar se sim ou não. Só a irmã, sem ironia, às vezes lhe pergunta: Ainda estás a continuar Os Lusíadas? Apesar da solenidade com que o pai lhes tinha explicado que ninguém poderia nunca continuar Os Lusíadas e que era quase um sacrilégio pensar que sim. Nem um nem outro ficaram convencidos. O miúdo que gostava de armar ao pingarelho acabou mesmo por dizer à irmã:
      - O pai está enganado, não há nenhum poeta que não tenha querido continuar Os Lusíadas.
Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 39-40

sábado, 8 de outubro de 2011

O miúdo que pregava pregos...

... numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 - é «fininho», mas como não há espaço na Estante de M. A., tem «andado pela casa» -
reaparecido, um capítulo, «ao acaso»:

- Tão - diz o miúdo para o pai
- Tão o quê?
- Falta o tão.
- Estás a fazer-te de parvo.
- Não estou, não, falta o tão, o pai não leu o tão.
- Li tudo, qual tão qual carapuça.
- Tão curta a vida.
- Foi o que li.
- Não foi, não, o pai leu para tão grande amor curta a vida, por isso não dá certo, falta o tão.
Então o pai irrita-se:
- Este miúdo gosta de armar ao pingarelho.
- Talvez - diz a mãe -, mas tem ouvido.
Começa então uma espécie de jogo. O pai ora lê os versos completos, ora propositadamente omite uma ou duas palavras. Mas o miúdo que riscou o exemplar de Orpheu não se fica.
- Ao sol.
- Lá estás tu.
- O pai leu ó virgens que passais ao poente, mas não é assim, falta sol, ao sol poente, ó virgens que passais ao sol poente.
- Tens jeito para a métrica - comenta o pai sem se dar por achado.
- Ele conta pelos dedos - diz a mãe.
- Não pode ser, ninguém lhe ensinou.
- Há coisas que não se aprendem.
- Tudo se aprende, até os pássaros ensinam os filhos a cantar.
- Não é a mesma coisa - remata a mãe.

Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 33-34