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quarta-feira, 10 de maio de 2023

«dois rios», Tatiana Salem Levy

 - leitura desta «narrativa gemelar», de 2012, terminada às 17 horas - com muitos «saltos» na «2.ª metade», aquela em que a narração de 1.ª pessoa passa de Joana para a Voz do irmão gémeo, Antonio - [...]

RECORTE(S):                              35

Depois de duas horas de caminhada, um longo corredor de palmeiras nos recepciona. Enormes caranguejos azulados afundam suas patas no mangue do lado esquerdo de quem chega. [...] Musgos se espalham por todos os cantos: pela igreja, o chafariz, os postes de luz, a bicicleta solitária, as casas abandonadas. O gramado cresce sem governo, há ferrugem nos bancos da praça, as heras sobem os muros das construções.
O cenário seria bonito, não fosse para mim a imagem escancarada da passagem do tempo. Dois Rios tornou-se um fantasma: as mesmas casas, a mesma praça, as mesmas ruas, carcomidas pelo abandono e a umidade.
Lembro-me de tudo. Mais do que eu imaginava. Vejo-me a correr com as outras crianças, a pipa no céu, os cães atrás de nós; vejo-nos a jogar amarelinha, a comer churrasco no gramado, brincar de esconde-esconde, de pega-pega. A pele vermelha descascando, as pernas cobertas por mordidas de mosquito, a roupa sempre suja de terra, rasgada por conta dos tombos que levávamos. [...]

Tatiana Salem Levy, dois rios, Tinta-da-china, 2012, pp. 56-57

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

«tudo pode ser roubado», Giovana Madalosso

 - rapidamente terminada, a 2.ª leitura de G. Madalosso; a narradora-protagonista, garçonete em S. Paulo, e ladra «parcimoniosa», concretiza uma (maior) encomenda: o roubo da 1.ª edição de «Guarany». de José de Alencar [...]

RECORTE:

[...] meus olhos recaem sobre a mesinha, sobre a agenda coberta de post-its. Pego-a nas mãos. A capa é de um plástico duro e transparente, transparente como vidro, algo incomum de ver por aí. Descolo os post-its. Leio: O Guarany. Meus dedos tremem, tremem com nunca tremeram. Respiro fundo, tento me acalmar. Então é isso, a capa de plástico esta aí para proteger o livro, o papel deteriorado, a lombada a ponto de descosturar. Mantenho uma mão embaixo da capa, seguro-a como se segurasse uma bandeja cheia de taças de cristal. Com a outra mão, começo a folhear a edição, meus dedos como pinças movendo cada uma das páginas. Até que encontro: 1.ª edição. 1857. Puta merda, tenho vontade de gritar. [...]

Giovana Madalosso, tudo pode ser roubado, Tinta-da-China, 2022, pp. 184-185

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

«A realidade e a imagem» - Bandeira por Eucanaã

Excerto do artigo do Ípsilon, sobre a vinda de Eucanaã Ferraz ao «Folio» e a publicação de Poesia (1990-2016)

O sortilégio do fragmento

Questionado acerca do seu poema Narciso, Eucanaã Ferraz fornece o seguinte exemplo, para explicar que o narcisismo do poema (e do poeta) nada tem que ver com vaidade, mas com a necessidade de entender o espaço que vai da realidade à imagem, à representação. “O [Manuel] Bandeira tem um poema que eu adoro, chamado: 
‘A Realidade e a Imagem’: O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva/ E desce reflectido na poça de lama do pátio./ Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,/ Quatro pombas passeiam.’
Eucanaã socorre-se do poema para sublinhar a arte necessária ao representar mesmo o real mais concreto, que não basta copiar tal qual. “O edifício, a poça de lama e as pombas passeando. Mais nada. Mas o Bandeira, que é um génio, chama o poema ‘a realidade’, que é o edifício, e ‘a imagem’, que é o edifício reflectido na poça. Então, existe alguma coisa entre a realidade e a imagem, que não é realidade e não é a imagem, entendida como uma cópia do real ou da realidade, um terceiro lugar. O intervalo entre o real e a imagem.”
Segundo Eucanaã Ferraz, a poesia ocupa esse ponto intermédio, esse terceiro lugar. É aí que ela acontece. Como se fosse o chão seco do poema de Manuel Bandeira e captasse a possibilidade de um movimento, mesmo onde nada acontece. Como se a poesia captasse tudo o que há de banal, o que é extraordinário, mas também tudo o que é ordinário.
No seu prefácio, CMS afirma que “todo o poema é a celebração da falta, dos restos”. Instado a comentar, Eucanaã Ferraz defende: “A força da poesia está em acabar por ir sempre para esse lugar da fragmentação, da destruição, da autodestruição.” Atento à série vária das artesEucanaã afirmará: “Nenhum outro género fala tanto da sua própria destruição e decreta a sua morte, e tão insistentemente, quanto a poesia. Os romancistas estão escrevendo romances, como se essa matéria fosse infinita. A poesia fica decretando a sua morte. Qual o lugar da poesia, para que serve? A poesia tem sempre uma pulsão de morte. Está sempre numa crise. Desde o Baudelaire, pelo menos… Mas já o Camões. O poeta está sempre achando que não vai ser ouvido. E não vai. É um pouco uma voz perdida por aí.”
Reflectindo, numa vibração de rápida combustão, Eucanaã defende: “Mas eu acho que é daí que a poesia tira a sua força. Porque essa morte tem muito de radicalidade. A poesia vai fundo. Isso é uma coisa muito minha, e pode parecer antipática, mas nenhuma outra arte é tão radical, tão profundamente humana e avassaladora. Mas é uma coisa comigo. E olha que eu tenho um bom olho para as artes visuais, bom ouvido para a música… Mas nada como a poesia. Muita da força dessa escrita vem da autoconsciência da fragmentação, da fragilidade, o que é muito humano. E toda essa confissão de fraqueza se transforma numa força extraordinária. A poesia na sua morte encontra uma capacidade, meio de Fénix, de renascer. Não depois da morte, mas em simultâneo. A desconfiança de que essa voz que se faz com tanto cuidado, com tanto esmero, não leva a nada. A gente não chega a ninguém.”

"O poema ou A máquina de emocionar» - DAQUI


sábado, 2 de junho de 2012

Fogo sobre a árvore circulatória

[cerca de 200 páginas em 73 curtos, concisos, capítulos, é um dos que estão em leitura - já referido em letras escalfadas]

Recorte:
2
Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passa gem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.
Nico acordou e não saiu da posição, tenso, esperou o dia. A chuva não impediu que a noite clareasse, o galo ficou mudo. No quarto dos pais o sol entrou pelas telhas destruídas, o casal estava enrijecido sobre a cama, mas ninguém diria que uma faísca de fogo os havia cozido por dentro. O colchão e a borda das telhas ficaram enegreci- dos, Nico foi até lá e se deu conta do embate entre luz e carne. Antônio abriu os olhos, em choque. Júlia estava alerta, mas não se mexia, não levantou a pálpebra, Nico a deu por morta. [...]

Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora, pp. 11-12
Ver:
- o vídeo, da série «Ler mais ler melhor», de 08 de Maio de 2012, em que a autora explica a «génese e a carpintaria» do Livro: no ARQUIVO RTP

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»



You Tube
Ícone de alerta
Enviado por em 23/02/2012
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador

[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos tempos da «Mercearia», na Madr., com um Chef que chamava «doutor» ao G. de então]
WELL.

Rubem Fonseca

Tempo da FAC. Ainda nos Barracões da A. de Berna. Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.
A. B. B.
- Menino do Porto que trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - também dotado de um  corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-

mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed: 83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»

- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]

- reeimpressão recente na «Sextante»;
- indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...

- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]

 

Rubem Fonseca - por Rui Zink

a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];

b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982» , mas só o leu depois  de A grande arte (cf. E. anterior)

c) no ano passado, foi emprestado (em três de quatro Quadrados suplementares) a A. C. R., um «meia-leca agarrado»(um dos três irmãos C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
 
d) sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»