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sexta-feira, 9 de março de 2018

Sobreiros (F. P. não gostava de) - Manuel Alegre


TAMBÉM SOU ALENTEJANO

A José Manuel Mendes
Fernando Pessoa não gostava de sobreiros.
Não sei se saberia do milhafre e do arrepio
circular do seu grito.
Mas percebia com certeza do interdito
da passagem
do rio.
Talvez soubesse do raiano
do mágico logaritmo de outra margem
e de um azul secreto dentro do azul.

Mas ele era só Baixa só urbano.
Sentia na cabeça e na palavra.

Eu gosto dos caminhos para o sul
onde passa o cigano e a rola brava.

E também sou alentejano.

Manuel Alegre, Alentejo & Ninguém, Caminho, 1996, p. 23

domingo, 15 de maio de 2016

Pessoa - «Irónico perfeito»

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
Ironia perfeita
Fernando Pessoa é o irónico por excelência. E toda essa invenção dos heterónimos é uma obra-prima de ironia. Esse dotar de voz própria ao conjunto de "eus" que convivem em cada um de nós parece-me a ironia perfeita.

“Saramago: ‘La CE, un eufemismo”, El Independiente, Madrid, 29 de Agosto de 1987
In José Saramago nas Suas Palavras

domingo, 28 de fevereiro de 2016

«Boca do Inferno» - Castro Mendes

BOCA DO INFERNO

Procuras um país no teu país
que não existe e não existiu nunca.
O rosto com que fita o teu país
é uma face feita rocha adunca

a tirar-nos da terra, não esqueças:
«o meu país é o que o mar não quis»;
e vê a aridez, que pede meças
à meseta deserta de Madrid!

 Pois da Europa assim fomos dizendo:
«o rosto com que fita é Portugal».
Mas o mar, por temível e tremendo,
era mesmo assim o nosso igual.

Agora fita a Boca do Inferno,
vem meditar no Portugal moderno!

(com versos de Ruy Belo e Fernando Pessoa)

Luís Filipe Castro Mendes, Outro Ulisses regressa a casa, 2016 (fev.), Assírio & Alvim, p. 41