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quarta-feira, 26 de junho de 2024

«Noctilucente», de «Nocturama»; Luís Quintais

 - de recente livro de Quintais, com cerca de 94 poemas... 

NOCTILUCENTE

Nuvens brilham no escuro.
As mais raras, tão frequentes agora.
Fantasmas do hemisfério norte

deslocam-se para sul.
Estamos na sombra da terra.
Objectos atravessam a fronteira

invisível, que as latitudes não contêm.
São mais frequentes agora
que estamos na sombra da terra,

agora que estamos em Seattle,
em Uppsala, em Buryatia,
e medimos as concentrações

de metano,
e o apocalipse tem expressão
estatística.

Alguém anunciou
o fim do mundo
e foi apenas fim-de-semana,

um pandemónio de expectativa,
feroz espera. Mas estamos
na sombra da terra e as metáforas

são de vidro queimado.
Noctilucentes nuvens são vitrais.
A luz aflige-se na catedral.

                                  Luís Quintais, Nocturama, 2024, pp. 132-133

domingo, 23 de junho de 2024

«LIção de Geometria»; Ricardo Gil Soeiro

- livro com 48 poemas, todos intitulados «Lição (de)...» 

LIÇÃO DE GEOMETRIA

O sol arranha o que a brisa perdoa.
Versículos nocturnos quase sobrevivem.
Ei-los, ferrenhos astrolábios
despindo bizarros teoremas.
Aqui é o ninho do vértice
onde a véspera se despenha.
Mais além, numa aresta nua,
o compasso ergue sem malícia
um contrabando de possibilidades
contra a heresia dos sentidos. 
Tiramos as medidas ao inferno,
falhamos por pouco.
Talvez seja este 
o corolário do silêncio.
Laços líquidos:
forca em chamas onde se afogam
os mais belos engenhos forasteiros.  

                         Ricardo Gil Soeiro, Lições da miragem, 2024, p. 44

terça-feira, 30 de julho de 2019

Invisíveis (Crianças) - Pat. Reis

[leitura hoje retomada...; cf. PERI]
- RECORTE: 
[...]e M. fica a ver Z. nos braços de uma senhora muito jovem, num arrebatamento, como alguém capturado, dentro de um sonho. Sabe que não se deve aproximar, é o momento de Z. Há meses que espera a visita da mãe. Esta dá-lhe a mão e entram na sala. Luísa surge vinda não se sabe de onde, M. não está a prestar atenção - Luísa senta-se num dos degraus. É uma forma de os adultos dizerem
     Vamos conversar.
     M. sabe que não há qualquer hipótese de recusar. Fala-se de direitos das crianças, o silêncio mão parece ser um deles, assim entende M. que se divide entre a vontade de descer as escadas e correr e de responder com brusquidão. Senta-se ao lado de Luísa.
     Tu sabes que Z. tem as visitas da mãe, não sabes? [...]



Patrícia Reis, As crianças invisíveis, 2019, pp. 115-6

[oferecido a T. B. - a do «Escola do Paraíso», em finais de 21, princípios de 22...]