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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

«Camões («a guinada de um verso de)» - Graça Moura

não sei se o camões hoje teria escrito as suas rhythmas,
começa porque não saberia ao certo quais eram e então não havia camonistas
para discutirem a questão. e depois talvez não valesse a pena
falar àquela gente. e os auditórios têm limites de paciência.

por exemplo, o dia em que eu nasci moura e pereça,
diz-me o aguiar e silva, não é dele quase de certeza.
e eu respondo: é tão bom que tem mesmo de ser dele.
e o vítor ri, exclamando: você já está como o faria e sousa.

a ironia desta conversa é que ela se passava
no instituto camões, calcule-se, somos ambos do conselho geral,
tratando da expansão da língua portuguesa
que se mais mundo houvera lá chegara

e estava uma tarde esplêndida de janeiro
e se o camões estivesse ali não havia de acreditar
que um de nós estivesse prestes a tirar-lhe um soneto
o mais doutamente e o outro lho quisesse devolver,

invocando-lhe o som, a fúria e o sentido,
nem que há séculos que as coisas se vão passando assim,
tirando e pondo, invocando lições e testemunhos,
e uns gajos de nome germânico, lachmann, storck,

e mais alguns. a moral desta história é que um verso de camões
com pouca variação é sempre um verso de camões,
é a coisa mais bela e mais difícil do mundo
e dá cá uma guinada tão especial que só pode ser dele.

Vasco Graça Moura, Antologia dos sessenta anos, Porto, ASA, 2002.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Camões Hipersexual

- recortes da entrevista de Mário Cláudio a João Céu e Silva, no D de N, no dia 13, a propósito do seu novo Romance Naufrágios de Camões 
- na íntegra, AQUI (por enquanto...)

[...]
Camões era um marginal e perde o ímpeto no final. Não há dúvida sobre isso. É um grande intelectual, um sábio e um poeta de génio, mas transgrediu muitas normas de direito penal da época, assassinou um homem em Lisboa e por isso foi condenado ao degredo.
Do género má rês...
Exatamente, má rês, sobretudo no aspeto da insubmissão e, claramente, revoltado contra o establishment. E havia o lado do amoroso que não coincide com o platónico dos seus sonetos, que obedecem à estética da época, em que as mulheres eram postas num plano de intocabilidade e de de pureza.
Respeito que não praticava?
Sim, era um homem de instintos muito fortes e com uma pujança sexual muito grande, daí frequentar os bordéis de Lisboa e o relatar. Estamos perante uma figura muito controversa, que tem muito menos de herói da pátria do que de herói da literatura e que é um valdevinos, como era reconhecido então.
[...]
Com amores transgressionais e clandestinos, até inter-rácicos e com escravas, o que já na altura era malvisto. E escreveu sobre isso, o que mostra uma certa coragem. Provavelmente era um hipersexual, o que se manifesta na escrita muito escaldante quando se trata de questões de amor [...]
 [...] A maneira como foi tratado em morte denota que não era uma flor que se cheirasse e por isso foi despachado para a vala comum.
[...]

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Camões (Signos de) - Luis Maffei

- é uma pequena edição (em tamanho e em número de exemplares, 100), de 2013; tem estado em destaque, numa prat. da Estante da Avó M. F., para «ir sendo lida» [...]
- «constrangeu» vê-la, há dias, na FNC, em saldo [...]

- escreve L. M., no «prefácio»:
"No intervalo de um encontro acadêmico, Sérgio Nazar David e eu conversávamos sobre têmperas, gestos e signos. Chegamos, não me lembro bem por que motivo, a Camões, cujo signo, já que se desconhece a data do seu nascimento, é ignorado, mas cujos signos são lidos, bem e mal, há tempos. [...]"
- só L. M. concretizou a proposta da escrita de um poema para cada hipotético signo de C.

Recorte inicial do escrito «sob» o signo de Aquário:

As mãos se erguem desde o fundo da terra e
canto - é preciso guiar a
travessia o medo é preciso
o mundo a guerra
não
a Terra e seus umbrais

não me falta
não faltaria
honesto estudo nem
muitas linhas na água  e no céu
engenho
a orientar mil pares de vocações:
ou se aprende a mudança ou
isto é novo ou
sejam léguas com farrapos no corpo
barcos transparentes mais
engenho
coisas juntas 
de futuro a debicar com corpo
inteiro e seus
farrapos - é preciso guiar
o vento
venta
não há tempo quando a mim se abre apenas
tempo a propiciar-se por mãos núbeis:
então é paz quem move estrelas
(e outros sóis)
então amor conduz planetas
o tempo não existe porque é novo o tempo a
era a justa
ideia a mente que não vê menos que atua
[...]

Luis Maffei, signos de Camões, Companhia das Ilhas, 2013 pp. 36-38


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Camões na Índia - Castro Mendes

CAMÕES NA ÍNDIA
Esteve nesta terra. Enojavam-no as mulheres,
pois só as de baixa casta aceitavam
vender-se aos brancos. Escrevia aos amigos
sobre as saudades que tinha dos bordéis de  Lisboa.
E fazia poemas para o Vice Rei.

A grandeza não cabe em nenhuma época,
em nenhuma terra,
até mesmo em nenhum ser humano de carne e osso.
Mas só ela dura!

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, D. Quixote, 2011, pp. 61



Recorte da Carta referida no poema:
[...] Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a üa carta como marinheiros à festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe(s) tenha os pontos, se lhe(s) quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe(s)  faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscan; respondem-vos üa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de üa dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará «las memorias de in illo tempore!» Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.
[...] [transcrita da Revista «Agulha», «Jornal de Poesia»:


Recorte do ensaio «O testemunho das cartas», de Helder Macedo:

[...] Na carta que escreveu pouco depois de ter chegado, em Setembro de 1553, a Goa (que caracterizou como "mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados"), Camões queixa-se amargamente das injustiças e traições de que teria sido vítima. Mas creio que esta carta é também um testemunho particularmente notável pelo que revela dos surpreendentes e nada convencionais usos erógenos do petrarquismo nos bordéis de Lisboa. Comparando nostalgicamente a "carne de salmoura" das prostitutas locais com as irresistíveis "falsidades" das suas literariamente sofisticadas congéneres lisboetas, "que chiam como pucarinhos com água", promete ir recebê-las pessoalmente, como um patriarca, de procissão e pálio, "se não recearem sofrer seis meses de má vida por esse mar", porque às prostitutas locais "fazei-me mercê que lhes faleis alguns amores de Petrarca ou de Bóscan: respondem-vos numa língua meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo".
[...]
Helder Macedo, «O testemunho das cartas», in  Camões e viagem iniciática, Abysmo, 2013 (17.º edição?), pp. 121, 122

[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Castro Mendes - RESPOSTA A CAMÕES

Recente, o livro de L. F. C. M. está destinado a um Longo Caminho [...] 

Em epígrafe, C. M. reforça o «empréstimo» do título de Gaspar Correia:

«Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproveitivel aos viventes
que lembrança e memória dos bens e males passados».

RESPOSTA A CAMÕES
para o Luís Quintais
Foi a noite junto à igreja de Diu
ou a tarde que entrámos nas grutas de Elefanta?
Há na tarde para sempre perdido um navio
e há na noite um demónio sinistro que canta.

Os deuses que avistámos na loucura mansa
vingaram-se de nós com seu simples durar
e o Cristo que trouxemos na guerra e na bonança
fez-se deus nesta terra e perdeu-se do mar.

Foi a noite que trouxe este manso esquecer
em que a História se deu no passo de uma dança
e nos chamam de longe os que vieram morrer
além da sua terra e aquém da lembrança?

Foi a noite a entrar na igreja de Diu
ou a sombra de Deus na ilha de Elefanta?
Shiva hermafrodita desta cave sorriu
e o mundo se fez contra toda a esperança!

Diu, Novembro de 2009

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, d. Quixote, 2011 (2.ª ed.?), p. 95