domingo, 21 de agosto de 2016
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
«Artista enquanto jovem cão» (Retrato do) - Dylan Thomas
[lido ao longo dos primeiros dez dias, «de trás para a frente», não terminado]
Recorte:
A Sr.a Evans ouviu a última frase ao entrar na
sala. Era uma mulher magra com traços azedos, mãos fatigadas, as ruínas de uns
lindos olhos castanhos, e um nariz altivo. Mulher a quem nada chocava, (...) Quando
sóbrio, o Sr. Roberts tratava-a por «minha senhora» e limitava-se às conversas sobre
o tempo e as maleitas. Pôs-se em pé de
um salto e ofereceu-lhe a sua cadeira.
– Não, obrigada, Senhor Roberts – disse ela numa voz nítida e
cortante. – Vou já para a cama. Nao me dou bem com o frio.
«Vai-te deitar, Maud horrorosa», pensou o jovem Sr. Thomas.
Mas disse: «Não quer aquecer-se um pouco, Senhora Evans, antes de subir?»
Ela fez que não com a cabeça, dirigiu um sorriso crispado aos
quatro amigos, [...]
– Isto hoje não passa da meia-noite, Maud, prometo. (...)
«Dorme ferrada, sua emproada.»
– Não os incomodo mais, meus senhores – disse ela. (...)
O Sr. Roberts tirou do bolso do lado lápis e canetas. «Onde
está o precioso manuscriptus? [...]
O Sr. Humphries e o Sr. Thomas puseram os seus cadernos nos joelhos,
pegaram cada um num lápis, e ficaram a observar o Sr. Evans que abria a porta
do relógio de pêndulo. Debaixo dos pesos oscilante via-se um maço de papéis
atados com uma fita azul. Papéis esses que o Sr. Evans colocou em cima da
escrivaninha.
– Está aberta a sessão – disse o Sr. Roberts. – Vamos lá ver
onde íamos nós. Tem aí a ata, Senhor Thomas?
– Nas Margens do Tawe
– disse o Sr. Thomas. – «Romance da Vida
Provinciana. Capítulo Um : uma descrição transversal da cidade, Docas, Bairros
Pobres, Subúrbios, etc.» Ficou acabado. O título escolhido foi: «A Cidade Pública».
O Capítulo Dois deverá chamar-se «Vidas Privadas» e o Senhor Humphries fez a seguinte
proposta: «Cada colaborador escolherá uma personagem de cada esfera ou estrato
social da cidade e apresenta-a aos leitores com uma breve história da vida
delas até ao ponto em que começa a nossa história, ou seja, o inverno do
presente ano. [...]
de «Nas margens do Tawe», in Dylan Thomas, Retrato do artista enquanto jovem cão e
outras histórias– Ficção completa, Livros do Brasil, 2015, pp. 249-250
segunda-feira, 27 de junho de 2016
«Oficina de escrita»
- «empreitada laboratorial» = escrita de teatro, a várias Mãos...
- em primeiro plano, J. B. («ex-AA»)
- reportagem videográfica do «início, do meio e do fim», pelo Público - AQUI
- em primeiro plano, J. B. («ex-AA»)
- reportagem videográfica do «início, do meio e do fim», pelo Público - AQUI
«Oficina de escrita»
- «empreitada laboratorial» = escrita de teatro, a várias Mãos...
- em primeiro plano, J. B. («ex-AA»)
- reportagem videográfica do «início, do meio e do fim», pelo Público - AQUI
- em primeiro plano, J. B. («ex-AA»)
- reportagem videográfica do «início, do meio e do fim», pelo Público - AQUI
sábado, 11 de junho de 2016
Pessoa + Eça + a famosa «reactualidade» deste...
Recorte final da Entrev. a V. P. Valente, por ocasião do lançamento do seu último livro - no OBSERv.
O que vou dizer não implica qualquer julgamento literário. Nunca tive uma grande empatia pelo Pessoa, porque o Pessoa, ao contrário do que essa gentinha anda aí a dizer, é um poeta de tradição inglesa. Foi educado na África do Sul e foi lá que ele se formou como escritor e eu, conhecendo as fontes do Pessoa, nunca me entusiasmei com ele. E não continuei a ser fiel ao Eça, não se trata disso. O Eça foi o escritor que melhor percebeu Portugal. Eu quando falo de Portugal estou sempre a tentar não citar o Eça. Nesta entrevista, apeteceu-me várias vezes fazê-lo.
Mas o que é que ele percebeu sobre Portugal?
O caráter imitativo da sociedade política e da cultura portuguesa. Nós somos epígonos em quase tudo. Em segundo lugar, o seu caráter provinciano.
Quando estávamos a falar das ameaças que uns políticos fazem à União Europeia, lembrou-me logo o jantar que há nos Maias, onde estão o Carlos da Maia e o Alencar numa mesa a comer um bacalhau que o Alencar fez. E noutra mesa estão uns ingleses. E o Alencar começa a implicar com os ingleses e diz alguma coisa do género: “Eu vou lá e eles vão ficar a saber o que é um poeta português”. Entretanto, eles saem do restaurante e o Eça comenta que os ingleses ficaram sem saber o que é um poeta português.
[...]
Nunca alinhou na moda do Fernando Pessoa, e manteve-se fiel a Eça de Queirós. Se tivesse de recomendar a leitura de Eça de Queirós, o que é que diria?O que vou dizer não implica qualquer julgamento literário. Nunca tive uma grande empatia pelo Pessoa, porque o Pessoa, ao contrário do que essa gentinha anda aí a dizer, é um poeta de tradição inglesa. Foi educado na África do Sul e foi lá que ele se formou como escritor e eu, conhecendo as fontes do Pessoa, nunca me entusiasmei com ele. E não continuei a ser fiel ao Eça, não se trata disso. O Eça foi o escritor que melhor percebeu Portugal. Eu quando falo de Portugal estou sempre a tentar não citar o Eça. Nesta entrevista, apeteceu-me várias vezes fazê-lo.
Mas o que é que ele percebeu sobre Portugal?
O caráter imitativo da sociedade política e da cultura portuguesa. Nós somos epígonos em quase tudo. Em segundo lugar, o seu caráter provinciano.
Quando estávamos a falar das ameaças que uns políticos fazem à União Europeia, lembrou-me logo o jantar que há nos Maias, onde estão o Carlos da Maia e o Alencar numa mesa a comer um bacalhau que o Alencar fez. E noutra mesa estão uns ingleses. E o Alencar começa a implicar com os ingleses e diz alguma coisa do género: “Eu vou lá e eles vão ficar a saber o que é um poeta português”. Entretanto, eles saem do restaurante e o Eça comenta que os ingleses ficaram sem saber o que é um poeta português.
[sublinhados acrescentados]
domingo, 15 de maio de 2016
Pessoa - «Irónico perfeito»
Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
Ironia perfeita
Fernando Pessoa é o irónico por excelência. E toda essa invenção dos heterónimos é uma obra-prima de ironia. Esse dotar de voz própria ao conjunto de "eus" que convivem em cada um de nós parece-me a ironia perfeita.
“Saramago: ‘La CE, un eufemismo”, El Independiente, Madrid, 29 de Agosto de 1987
sábado, 23 de abril de 2016
Lista das 50...
... «Obras Essenciais» da Lit. Portug. [«é o que é, mas pode vir a ser...»]
- da Casa do «DN» (João Céu e Silva)
- da Casa do «DN» (João Céu e Silva)
| Tiago Albuquerque |
sábado, 9 de abril de 2016
sexta-feira, 8 de abril de 2016
«4 Estações» - Mourão-Ferreira
- «resolvida», finalmente, a duplicação da 6.ª Edição (de 2001) do livro (1.ª ed. de 1980) de David - com duas capas diferentes... - oferecida a A. R. P., do 2.º Bloco, em «reflexo» do poema...
Recorte da 1.ª das narrativas do mesmo:
[…] De uma dessas galerias vê de repente sair uma rapariga loura, cujo dourado rosto redondo, misto de Sol e de Lua dourada pelo Sol, irresistivelmente lhe evoca alguém que há muitos anos conheceu. Também ela, uma vintena de metros à sua frente, desce agora a rampa em espiral; mas as outras pessoas que pela rampa circulam e, sobretudo, os incríveis objectos que no pavimento se amontoam (desta vez, uma sinuosa sucessão de pára-quedas intactos) vão-no impedindo de a alcançar e de melhor confirmar então, voltando a vê-la de frente, a semelhança que tanto o impressionou.
Já para outra galeria se esgueira a cabeça
loura que dir-se-ia oscilar como um girassol em cima do seu pedúnculo. E já no
labirinto dessa galeria ele acaba por estupidamente lhe perder o rasto, entre
muitas outras cabeças que se detêm diante de nus de Modigliani ou de
visionárias paisagens de Chagall. No entanto, ao retornar à rampa espiralada,
basta-lhe assomar ao parapeito para a redescobrir, já lá em baixo, quase a
atingir o piso térreo. Enquanto prossegue a sua descida, sempre cosido ao
parapeito para não a perder de vista, compreende que ela não se dispõe a sair
imediatamente do museu, que afortunadamente se encaminha ainda para o
vestiário. […]
David Mourão-Ferreira, As quatro estações, 6.ª ed., Lx.,
Presença, 2001, p. 14 [1.ª
ed: 1980]
terça-feira, 29 de março de 2016
21 poemas
- o dia 21 já lá vai, mas esta diversificada selecção de 21 poemas, escolhidos por 21 poetas, autores, com as respetivas «argumentações» é para «reter», reler;
- com introd. de Nuno Artur Santos - daqui (dossiê, no Observador)
domingo, 28 de fevereiro de 2016
«Boca do Inferno» - Castro Mendes
BOCA DO INFERNO
Procuras um país no
teu país
que não existe e não
existiu nunca.
O rosto com que fita
o teu país
é uma face feita
rocha adunca
a tirar-nos da
terra, não esqueças:
«o meu país é o que
o mar não quis»;
e vê a aridez, que
pede meças
à meseta deserta de
Madrid!
Pois da Europa assim
fomos dizendo:
«o rosto com que
fita é Portugal».
Mas o mar, por
temível e tremendo,
era mesmo assim o
nosso igual.
Agora fita a Boca do
Inferno,
vem meditar no
Portugal moderno!
(com versos
de Ruy Belo e Fernando Pessoa)
Luís Filipe
Castro Mendes, Outro Ulisses regressa a
casa, 2016 (fev.), Assírio & Alvim, p. 41
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Camões (Signos de) - Luis Maffei
- é uma pequena edição (em tamanho e em número de exemplares, 100), de 2013; tem estado em destaque, numa prat. da Estante da Avó M. F., para «ir sendo lida» [...]
- «constrangeu» vê-la, há dias, na FNC, em saldo [...]
Recorte inicial do escrito «sob» o signo de Aquário:
As mãos se erguem desde o fundo da terra e
canto - é preciso guiar a
travessia o medo é preciso
o mundo a guerra
não
a Terra e seus umbrais
não me falta
não faltaria
honesto estudo nem
muitas linhas na água e no céu
engenho
a orientar mil pares de vocações:
ou se aprende a mudança ou
isto é novo ou
sejam léguas com farrapos no corpo
barcos transparentes mais
engenho
coisas juntas
de futuro a debicar com corpo
inteiro e seus
farrapos - é preciso guiar
o vento
venta
não há tempo quando a mim se abre apenas
tempo a propiciar-se por mãos núbeis:
então é paz quem move estrelas
(e outros sóis)
então amor conduz planetas
o tempo não existe porque é novo o tempo a
era a justa
ideia a mente que não vê menos que atua
[...]
- «constrangeu» vê-la, há dias, na FNC, em saldo [...]
- escreve L. M., no «prefácio»:
"No intervalo de um encontro acadêmico, Sérgio Nazar David e eu conversávamos sobre têmperas, gestos e signos. Chegamos, não me lembro bem por que motivo, a Camões, cujo signo, já que se desconhece a data do seu nascimento, é ignorado, mas cujos signos são lidos, bem e mal, há tempos. [...]"
- só L. M. concretizou a proposta da escrita de um poema para cada hipotético signo de C.Recorte inicial do escrito «sob» o signo de Aquário:
As mãos se erguem desde o fundo da terra e
canto - é preciso guiar a
travessia o medo é preciso
o mundo a guerra
não
a Terra e seus umbrais
não me falta
não faltaria
honesto estudo nem
muitas linhas na água e no céu
engenho
a orientar mil pares de vocações:
ou se aprende a mudança ou
isto é novo ou
sejam léguas com farrapos no corpo
barcos transparentes mais
engenho
coisas juntas
de futuro a debicar com corpo
inteiro e seus
farrapos - é preciso guiar
o vento
venta
não há tempo quando a mim se abre apenas
tempo a propiciar-se por mãos núbeis:
então é paz quem move estrelas
(e outros sóis)
então amor conduz planetas
o tempo não existe porque é novo o tempo a
era a justa
ideia a mente que não vê menos que atua
[...]
Luis Maffei, signos de Camões, Companhia das Ilhas, 2013 pp. 36-38
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Soares + Fradique + Pizzarro + Reis
Um pessoano e um eciano em diálogo sobre «semi-heterónimos» [...] - com a Biblioteca Joanina em fundo [...]
- Excerto da Conversa, por cortesia do Público - AQUI
- Excerto da Conversa, por cortesia do Público - AQUI
sábado, 7 de novembro de 2015
Saramago - Autopsicografia
![]() |
| Retrato de Victor Ribeiro - DAQUI |
sábado, 31 de outubro de 2015
«A esperança é um animal com penas» - Luís Quintais
O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever
de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente,
isso sim. isso seria uma das formas de esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes,
uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros
e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo,
esse que está em cima da mesa aguardando uma visita do acaso.
"Um animal com penas", in Arrancar penas a um canto de cisne - Poesia 2015-1995, Assírio & Alvim, outubro de 2015
[transcrito da Coluna «Cem por Cento» , de Nicolau Santos, Expresso - Economia, de hoje] [durante uma pequena pausa dos Envelopes)
- «Esperança é a coisa com penas» (Emily Dickinson)
- «Esperança é a coisa com penas» (Emily Dickinson)
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Rosa-de-jericó («a flor do deserto») - a lista dos nomes
[de uma das gavetas do computador «reapareceu» o conto de Maria Ondina sobre a planta da «ressureição»...]
[porque longo, «imbricado», difícil escolher só os seguintes Recortes:
[porque longo, «imbricado», difícil escolher só os seguintes Recortes:
«A rosa-de-jericó» [truncado]
A lista dos nomes viera do
Brasil. Numa folha pautada, duas altas colunas em caligrafia apurada de
escrevente: Wilma, Wanda, Isa, Naíl…
A mãe está de mês e só come
galinha com arroz. Um passeiozinho pela sala, uma sesta no cadeirão de verga.
Janeiro. O fogareiro de brasas. O crepitar das bagas de eucalipto. A
entranhar-se nas cortinas de folhos, nas pregas da saia, no cabelo entrançado,
no xaile-manta, o perfume purificante do eucalipto. Combalida da longa noite de
concebimento, a mãe: noite de três prolongados dias e velas acesas noutras
velas ao Cristo do oratório. A velha Brígida franzindo a testa orvalhada de
suor, os seus pulsos grossos nas mangas arregaçadas: «Se passar de hoje
chama-se o doutor.». Fechada, a rosa-de-jericó, a sua raiz seca como uma corda,
como uma cobra, à tona de água na bacia do lavatório.
Cinco e meia. O homem entra,
apressado, o passo irregular. A carta de São Paulo? Onde estava a carta de São
Paulo? E se ela já tinha lido, se já tinha escolhido.
─ Oh! Eu gosto é de Maria que é a Mãe de Jesus.
Pois podia pôr-se-lhe Maria
seguido de outro nome. Examina a lista. Um supor, Neusa. Ou Nelma.
─ Qual achas mais bonito? ─ arrepia o bigode preto com a unha alongada do dedo mendinho.
─ A avó dela, a minha mãe, era Maria do Socorro.
─ Ora, esses nomes já não se usam.
[…]
— Marília é um nome poético, mas
o desta quero que seja exótico — procura-lhe a mão.
O fraco dele pelo exótico, o invulgar,
o raro. […] Hélia, Elza, Hércia. Que lhe parecia Hércia?
Não responde. Não ouve o que ele
diz. Pondera: que têm a ver nomes assim rebuscados e fantasiosos, que têm tais
nomes a ver com uma pobrezinha que veio ao mundo por um pouco sufocada?
— Zilda, Zélia, Zuraida. São
nomes nobres, sabes? Nomes reais. De princesas árabes!
Desatenta, ela.
— Então? Qual gostas mais? Dói-te
alguma coisa? — debruça-se sobre a mulher. Continua: — Leda. Denise. Deborah.
Nome judaico, Deborah?
[...]
A rosa-de-jericó, entretanto… Lá
na bacia, enrodilhada e sem dar sinal, a flor da corola em cruz. Quando
desabrocha, a gente apercebe-se, lembra-se? Se se lembrava! Como papel de seda
a desdobrar-se. Como beijos… [...]
Sentado à sua beira, de lista em
punho, ele pronuncia os nomes como se a saboreá-los. Com devoção. […]
Menina, Sr.ª Brígida? Um suspiro,
a sua fala. O médico desinfectava os ferros, lavava minuciosamente as mãos, os
braços, na bacia donde fora afinal retirada, sem chegar a desabotoar-se, a
planta do parto. Uma moleza a acometê-la, uma madorna. E a criança tão
caladinha, tal se nado-morta.
Ele fez uma pausa.
─ Ainda não me disseste se te agrada algum destes nomes. Não te
agrada nenhum? ─ […]
Ela de mês, a menina ao peito a
beber-lhe as forças. E já meio esquecida, quem diria, de tudo quanto suportava
e de tudo quanto ainda lhe faltava suportar. Não obstante… O que lhe custava a
aceitar era o facto de a flor-do-deserto não ter chegado a revivescer. A
negação, a falência da planta da fecundidade, esse vegetal valimento, essa
efígie fiel durante tantas gerações. Por que seria? Ali no cadeirão de verga, a
cismar na rosa-de-jericó, a mãe. As mulheres do meu sangue, que me conste,
felizes nos partos, parece. Porquê assim comigo? Por que a menina não queria
nascer, sabe-se lá? Por que eu, a sua progenitora, preferindo um menino?
Estreita a filha ao colo, compadecida.
Mea culpa. Mea maxima culpa. O seu
ventre retraído de insubmissão e susto.
Na sala, o homem lê os nomes alto
e destacadamente para que ela, no quarto interior, os possa escutar e
escolher. E tal a entoação e o ardor da sua voz que a exaspera e a comove ao
mesmo tempo. Como quem recitasse, fervoroso, uma oração. Como quem declamasse
versos. Zaida… Rosenda… Belinda…Bluette…
Maria Ondina Braga. A rosa-de-jericó ─ Contos escolhidos, 1994, pp. 137-141
domingo, 19 de abril de 2015
A Queda (de Ícaro) - Bruegel
![]() |
| Paisagem com a Queda de Ícaro, de Pieter Bruegel, o Velho |
Há uma célebre pintura do mestre renascentista Pieter Bruegel, o Velho, que Homi Bhabha, um dos mais importantes autores dos estudos pós-coloniais contemporâneos, acha que nos deve continuar a fazer pensar. [...]
[...] o título completo da pintura de Bruegel é Paisagem com a Queda de Ícaro. Um título que encerra um programa, porque o que a composição nos oferece é uma imagem do mundo a seguir o seu curso enquanto ali, num pequeno detalhe do canto direito, um jovem que tentou voar alto de mais está a morrer afogado sem que ninguém sequer note a sua tragédia em curso.
Ao centro, em primeiro plano, um agricultor fixa os olhos no chão enquanto guia o arado com que trabalha a terra. Mais abaixo, um pastor acompanhado pelo seu cão guarda distraidamente um rebanho de ovelhas enquanto observa o céu azul. E depois, lá em baixo, há o enorme navio de velas desfraldadas que agarra o nosso olhar e lança sombra sobre as pequeninas pernas de Ícaro, que caiu de cabeça e está a segundos de desaparecer de vez nas plácidas águas verdes da baía.
Supostamente, a obra está feita na terrível perspectiva de Dédalo, a observar impotente, lá de cima, a desgraça do seu filho. O que leva à pergunta de Bhabha: “Afinal, quem é hoje a testemunha moral do sofrimento humano?” Esta, diz ele, é uma das perguntas que a Cultura pode lançar ao mundo. Uma pergunta auto-reflexiva, ou não será o papel de testemunha um dos lugares de sempre da Cultura? É uma hipótese de reflexão. Outra, diz Bhabha, é pensar se a Cultura não será o detalhe periférico e secundarizado que nos faz reconsiderar todo o sistema, exactamente como as pernas de Ícaro – quando por fim damos por elas. [...]
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Sophia - A menina do mar
Uma preciosidade - o disco de 1961 - leitura do conto - música de Lopes Graça - no «YT»
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Camões na Índia - Castro Mendes
CAMÕES NA ÍNDIA
Esteve nesta terra. Enojavam-no as mulheres,
pois só as de baixa casta aceitavam
vender-se aos brancos. Escrevia aos amigos
sobre as saudades que tinha dos bordéis de Lisboa.
E fazia poemas para o Vice Rei.
A grandeza não cabe em nenhuma época,
em nenhuma terra,
até mesmo em nenhum ser humano de carne e osso.
Mas só ela dura!
Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, D. Quixote,
2011, pp. 61
Recorte da Carta referida no poema:
[...] Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a üa carta como marinheiros à festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe(s) tenha os pontos, se lhe(s) quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe(s) faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscan; respondem-vos üa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de üa dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará «las memorias de in illo tempore!» Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.
[...] [transcrita da Revista «Agulha», «Jornal de Poesia»:
Recorte do ensaio «O testemunho das cartas», de Helder Macedo:
[...] Na carta que escreveu pouco depois de ter chegado, em Setembro de 1553, a Goa (que caracterizou como "mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados"), Camões queixa-se amargamente das injustiças e traições de que teria sido vítima. Mas creio que esta carta é também um testemunho particularmente notável pelo que revela dos surpreendentes e nada convencionais usos erógenos do petrarquismo nos bordéis de Lisboa. Comparando nostalgicamente a "carne de salmoura" das prostitutas locais com as irresistíveis "falsidades" das suas literariamente sofisticadas congéneres lisboetas, "que chiam como pucarinhos com água", promete ir recebê-las pessoalmente, como um patriarca, de procissão e pálio, "se não recearem sofrer seis meses de má vida por esse mar", porque às prostitutas locais "fazei-me mercê que lhes faleis alguns amores de Petrarca ou de Bóscan: respondem-vos numa língua meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo".
[...]
Helder Macedo, «O testemunho das cartas», in Camões e viagem iniciática, Abysmo, 2013 (17.º edição?), pp. 121, 122
[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]
[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
«Mães» - Herberto Helder
as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema
cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao
pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
Herberto Helder (1930; - ), Servidões, 2013, p. 23
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema
cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao
pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
Herberto Helder (1930; - ), Servidões, 2013, p. 23
domingo, 24 de março de 2013
Leonor e a «vocação»
[deslocado de Alpabiblio, assim escapando ao «Apaga-Apaga»]
Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.
Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.
Foi «Empréstimo-Oferta» de Eli. De boa vergonha ficou T. Vai pela p. 66.
«Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que o outono levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.
Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião de José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.
As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação.
[...]
É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer na sua vida.
Então recua, recusa, nega-se a professar.
Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sono. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.
Não carece de outra desmesura.»
Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 64-65
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Sintra é um paraíso - «Os Maias»
Na série «Lugares bem lidos», de 18-09-2012, no Diário de Notícias:
[Cruges] - «Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...»
[Cruges] - «Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...»
Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, p. 233
sábado, 2 de junho de 2012
Fogo sobre a árvore circulatória
[cerca de 200 páginas em 73 curtos, concisos, capítulos, é um dos que estão em leitura - já referido em letras escalfadas]
Recorte:
2
Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passa gem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.
Nico acordou e não saiu da posição, tenso, esperou o dia. A chuva não impediu que a noite clareasse, o galo ficou mudo. No quarto dos pais o sol entrou pelas telhas destruídas, o casal estava enrijecido sobre a cama, mas ninguém diria que uma faísca de fogo os havia cozido por dentro. O colchão e a borda das telhas ficaram enegreci- dos, Nico foi até lá e se deu conta do embate entre luz e carne. Antônio abriu os olhos, em choque. Júlia estava alerta, mas não se mexia, não levantou a pálpebra, Nico a deu por morta. [...]
Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora, pp. 11-12
Ver:
- o vídeo, da série «Ler mais ler melhor», de 08 de Maio de 2012, em que a autora explica a «génese e a carpintaria» do Livro: no ARQUIVO RTP
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Galinhas - Gonçalo M. Tavares
Galinhas
Um menino com laranjas na mão a tentar acertar em galinhas que fogem como podem desse ataque infantil. A laranja não magoa muito, mesmo quando atirada com força porque, se acerta no corpo da galinha, o corpo ainda é espesso e largo e amortece a dor enquanto na cabeça da galinha a laranja pouco parece fazer porque a cabeça é ágil e raramente comete a estupidez de tentar responder à força com mais força. Mas claro que as galinhas não aprenderam a teoria do judo e não sabem que diante da força se deve fingir fraqueza para que seja a própria força do outro a derrotá-lo; a galinha estúpida nada percebe de judo e por isso, agora, quando os meninos já estão mais afastados mas não o suficiente para estarem muito longe, agora que eles já encontraram a distância certa para qua as laranjas ganhem a velocidade máxima, agora, sim, os meninos afinam a pontaria e quando acertam na cabeça da galinha causam mossa, e isso é evidente pelos movimentos ainda mais desordenados do animal. Mas a questão é saber que efeito concreto tem aquilo tudo. [...]
Gonçalo M. Tavares, Short Movies, pp. 141-2
sexta-feira, 16 de março de 2012
Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»
You Tube
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador
[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos tempos da «Mercearia», na Madr., com um Chef que chamava «doutor» ao G. de então]
WELL.
Rubem Fonseca
Tempo da FAC. Ainda nos Barracões da A. de Berna. Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.
A. B. B.
- Menino do Porto que trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - também dotado de um corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-
mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed: 83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»
- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]
- reeimpressão recente na «Sextante»;
- indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...
- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]
Rubem Fonseca - por Rui Zink
a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];
b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982» , mas só o leu depois de A grande arte (cf. E. anterior)
c) no ano passado, foi emprestado (em três de quatro Quadrados suplementares) a A. C. R., um «meia-leca agarrado»(um dos três irmãos C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
d) sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Casa (como se desenha ...) por - Manuel António Pina
Vídeo da série «Ler mais ler melhor» - com depoimento do próprio M. A. P., finalizando com leitura de Poema
Frases soltas:
- «A Amizade também é um domicílio»;
- «A Amizade é o Porto de Abrigo que resta»;
- «Desconfiar dos versos que inteiramente se alcançam [... ] porque não vão além de mim»;
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Fernando Assis Pacheco - Há um veneno...
(para M. G., lá «longe-perto»)
(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]
Há um veneno em mim...
Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.
Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.
Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.
Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.
(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345
(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]
[No posfácio à Antologia... , na página 553 da mesma, F. A. P. é referido como «um dos (poucos) grandes nomes ... do aparentemente escasso cânone da poesia da Guerra Colonial».]
Há um veneno em mim...
Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.
Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.
Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.
Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.
(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Casa (como se desenha uma) - Manuel António Pina
[Outro poema do último livro de M. A. P.]
Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17
[Uma casa]
Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.
Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.
O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.
Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17
sábado, 4 de fevereiro de 2012
A poesia do Sr. Cirurgião Plástico, I - o inédito de sábado
Poema ao sábado Inédito
Bagagem perdida
E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.
João Luís Barreto Guimarães
Público, P2, Sábado, 14 de Janeiro de 2012p. 9
João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).
Bagagem perdida
E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.
João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).
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