sábado, 21 de novembro de 2020

«Quando», «acende e apaga»; Manuel Alegre

                          IV

Nunca vi ninguém morrer sem medo.
Tínhamos medo nós a pressionar artérias
tinham medo os que viam o sangue a derramar-se
gritavam pela mãe mais do que por Deus.
Por Deus certa vez eu chamei muito
primeiro para dentro como quem reza
depois em desespero aos berros:
«Vem depressa vem depressa.»
Mas quando o helicóptero chegou já era tarde.
Meu caro poeta cardeal: Deus não me ouviu.
Chamei-lhe nomes blasfemei:
«O gajo é surdo.»
Não diga nada ao papa eu gosto dele
mas a verdade é esta
Deus não me ouviu.
 
Podem dizer que estou a ser injusto
anos depois o meu coração parou
os alarmes soaram no hospital
não sei se Deus ouviu a campainha
o que sei é que o médico não era surdo
deu-me dois choques e ainda estou aqui.
 
A quem dar graças
a quem oferecer o pirilampo
que está dentro de nós
faúlha de uma estrela desaparecida
acende e apaga acende e apaga
no princípio e no fim a morte e a vida
depende de quem chega ou não a tempo
um helicóptero o médico
acende a apaga
acende e apaga um só momento.
 
Não há tempo no tempo não há tempo
ninguém me viu ontem em Babilónia
quem sabe se amanhã verá
tempo só hoje
tempo sem antes nem depois
como acertar no poema a rotação da Terra
ou declinar o fluxo das marés?
 
E como esconjurar o fogo e a praga?
SMS não é a minha escrita.
Será que Deus twita?
Faz como ele: clica e apaga
clica e apaga.
 
Manuel Alegre, Quando, 2020 (Novembro), D. Quixote, pp. 21, 22

[IV «Canto» de X];



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

«Os grandes animais», Inês Fonseca Santos

- este era uma dos livros que E. levava, de manhã cedo, para a «Fila LDL», na 1.ª ONDA CVD...; dito, pela própria, na «Vida Breve» de 27 - 02**: 
- enviado aos três Blocos, na Secção «Acesso Bloqueado», teve a mesma reacção de sempre: NULA...
- assim  marcha a «Escola do Paraíso CVD»...

OS GRANDES ANIMAIS

Ser senhor dos seus humores
é o privilégio dos grandes animais.
Albert Camus
 
Em Auschwitz-Birkenau trabalhei
o poema à exaustão. Ao fundo,
uma palavra antiga: Ullmann murmurando o eterno
 
was wollen Sie hier?
 
Música e lava,
o espanto de haver aqui qualquer coisa próxima
de uma morada: portas, paredes, em cada gesto
literatura sobre tanta vergonha acumulada.
 
Auschwitz, Birkenau habitam hoje o interior
dos versos; são vivos fitando o embaraço
da sobrevivência. O aviso chegou-me de um amigo:
 
o eterno é um número indelével,
 
memória desocupada de quem não viu
do território o ferro.
 
Não será assim tão longo o mundo
que não vos voltemos a fitar:
os pés assentes no carvão dos corpos,
os grandes animais por companhia.
 
Ah, os grandes animais: não o cavalo
que cospe quem o monta, mas a barata
que silenciosamente escapa
ao pé que a pisa.
 
Inês Fonseca Santos, Os grandes animais, com Ilustrações de João Maio Pinto, Abysmo, 2020 (Janeiro), p. 19



domingo, 18 de outubro de 2020

«Éléments impurs», Barreto Guimarães

 - poema do último livro de João Luís Barreto Guimarães, com 43 textos, uma das leituras destes últimos dias:

Éléments impurs

Lentamente
a cidade aceita a escuridão. É uma batalha perdida (a
da luz contra o negrume) desde
sempre foi assim
em todos os quartos da História em
todas as praças e ruas em casebres e
em palácios. Conversamos na cozinha (uma só
sombra no
chão) agora é contra mim próprio
já não é contra ninguém e
hoje não me
dói nada. Mantenho uma distância segura do
que chamam realidade (disperso vendedores de rosas
como quem dispensa ilusões)
falamos do que aí vem (dias que
não têm nome mas
vão desde já
numerados). E conto-te histórias antigas um
exemplo: quando pousava moedas nos carris do eléctrico e
esperava que o movimento esmagasse
as caravelas. Cada um de nós começou com uma
vitória sobre o nada
(como um pintor flamengo agora assino: João o Velho) os
dias crescem em Fevereiro
(a hora adianta em Março) preso
há um par de semanas o jovem casal da frente
prefere fazer amor numa
posição diferente. Devem estar a tentar
uma menina.

 João Luís Barreto Guimarães, Movimento, 2020 (Outubro), pp. 60 – 61 (da «Secção» «dia de Júpiter»)

[Entrevista ao «JL». número 1311, de 30 de dezembro de 2020.] 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

«entendimento direto», Campilho, Matilde

 - volume de MicroNarrativas, que é uma das novidades nos 8 que vieram para a Zmab...

«Em Londres, no Museu de História Natural, um mamute levanta um pouco a tromba à passagem de José. O menino fica estarrecido, um bocado excitado, e puxa o casaco de sua mãe para a avisar da vida que existe dentro do empalhamento. A mãe, ao ver José assim irrequieto, atrapalha a fila de turistas para se ajoelhar até à medida dos seus olhos. Pergunta-lhe o que tem e o menino, já que nem fala ainda, exemplifica por gestos o levantar da tromba. A mãe sorri, feliz por ver validado o dinheiro do bilhete, alegre por ver despertar-se no seu mais novo o poder da imaginação. E José sorri-lhe de volta, com muito amor, consciente de que o seu entendimento direto com todas as coisas vivas do mundo não durará para lá do dia em que descobrir a fala.»

Matilde Campilho, Flecha, 2020, p. 73

[Ípsilon, de 24-07)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

«Branco», Nuno Júdice

- é o poema referido no «PERI» do Fecho de 1920:


BRANCO
a Eugénio de Andrade
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.

Nuno Júdice, As coisas mais simples, Lx., D. Quixote, pp. 50-51

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Primeiras Letras ( a Escola antes das)

[o excerto de «As pequenas Memórias», de Saramago, que fechou o «Paraíso Pandémico»«reconduziu» D. ao excerto de «A Escola do Paraíso», de que se transcreve um Recorte...:

   [...] "Um dia, aos dois anos e meio, acompanhou os irmãos ao Colégio: nunca mais quis ficar sozinho em casa. Todas as manhãs um escarcéu, não houve remédio senão deixarem-no ir também. Ora, e que aprende? Os outros meninos soletram, rezam, fazem caligrafia segundo o Paleógrapho (é uma pena a gente não saber imitar o gótico, mas talvez um dia!), fazem cópias e contas, resolvem, mas sobretudo não resolvem, problemas de torneiras [...]; ele aprende a amar a escola, o convívio, o ritmo do lápis, as oleografias, o cheiro do papel e dos livros com estampas, as manhãs atapetadas de chuva... [...]"


José Rodrigues Miguéis, A escola do paraíso (1960), Estampa, 1993, 9.ª Ed., p. 39


segunda-feira, 22 de junho de 2020

«Autobiografia», José Luís Peixoto

- «aleatoriamente», os «recortes» com que se «fechou» o «O Ano da Morte...» (o «diálogo» entre...):
Silêncio na noite e no autocarro, os poucos passageiros não falavam, ninguém reparava na labuta do motor, mas Lídia estendeu um canto do olho na direção do livro que José levava, El Año de la Muerte de Ricardo Reis. E, nesse mesmo instante, de repente, uma revelação instintiva, José apenas deu conta do que disse depois de o verbalizar, estive em Lanzarote.

Estas palavras foram o centro de um vórtice, um uníssono cósmico, confluência de necessidade e sentido, Lídia olhou diretamente para o rosto de José.
Grata pela coerência, pela prova infalível do livro em castelhano, a pele de Lídia descansou. Noites mal dormidos, isolamento, apenas o filho, a ama, as freguesas, o dono do minimercado duas ou três vezes por semana, de surpresa, a tocar-lhe com o joelho, a emperná-la, como queres que chegue à caixa?, apenas os desconhecidos do autocarro, de manhã e à noite, apenas um telefonema por semana para a vizinha  da avó em Cabo Verde, a avó a não querer apoquentá-la, os primos durante segundos, trinados crioulos, mana.
Estive em Lanzarote, não achei meio de avisar-te. Antes de dizer uma palavra, Lídia folheou o livro. Sim, as páginas todas escritas em castelhano. Lídia queria acreditar. Olhando para José, saciando a vontade que contrariou desde o início, falou por fim, saímos aqui.
José sentiu dificuldade em adaptar-se a estas palavras simples, parecia-lhe demasiado, mas Lídia avançava já pelo corredor do autocarro, não podia perdê-la de vista, hipnotizado pela elegância daquele corpo sólido, pernas grossas, braços grossos, mulher densa.
A noite outra vez, temperatura, trevas e iluminação pública. A euforia de José conseguia satisfazer todas as perguntas. Naquela estrada de Sacavém, caminho inclinado, José descrevia uma ilha, talvez correspondesse a Lanzarote, ou talvez não. Indiferente à geografia, recuperou o brio da sua força. Ao longo do dia, não obstante a insistência, apenas bebeu água da torneira, três copos cheios. Além disso, aquele livro misterioso salvou-o. Estive em Lanzarote, genial. […]

José Luís Peixoto, Autobiografia, Quetzal, Lisboa, 2019 (Julho), pp. 132 - 134

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Velho Paraíso, com Q. L.

- 9293, «Estação Probatória», com a Sorte de ter sido colocado no Velho Paraíso (seis Qd.s de 10.º, à tarde...)
- 0203, finalmente, seis Qd.s (de 10.º, ainda), de manhã, para poder frequentar o MEST...; a entrevista é de março de 2003 - nos Arquivos RTP

segunda-feira, 11 de maio de 2020

«Quem Espera Desespera» - António Araújo

- Crónica de 9 de Maio, no «DN», «percorre»  o Motivo da Espera (e os do Silênco e do Naufrágio...) no contexto da Pandemia,  neste quadro, do Pintor  Richard Oelze , na «Jangada de Medusa», de Théodore Géricault, em obras  japoneses, em obras literárias  - grande Percurso curto...

RECORTE(S)
Quem espera desespera. O tema tem sido muito glosado por estes dias, dias de convívio difícil, para alguns quase impossível, com o contrário daquilo que medularmente somos, pessoas ou sociedades ruidosas e ansiosas. Justamente a antítese do que de nós se exige agora, o silêncio e a espera.
Como fraco lenitivo, alguns têm lembrado exemplos da literatura e da arte: [...]
[...] Na tela de Oelze, deparamos com um grupo de cavalheiros de gabardina e chapéu, que surpreendem pela uniformidade quase castrense, e algumas senhoras, poucas, de casacos de peles e também chapéus, numa atmosfera elegante, urbana, bastante deslocada da paisagem rural envolvente. A luz, estranhíssima, mais lunar do que solar, projecta-se sobre o grupo vinda do lado esquerdo, provavelmente a partir das costas de damas e de cavalheiros; à traição, portanto. O ajuntamento compacto, igual aos que se formam para contemplar os desastres e as calamidades quotidianas, confere ao quadro uma intensa carga trágica ou, melhor dizendo, prenuncia-a, num momento de suspensão e suspense que é apanágio de todas as narrativas da espera.  [...]

sábado, 2 de maio de 2020

«A humana voz»


A humana voz

Então, a passear o Saco? Quem não tem cão com saco caça. Últimos dias dos quarenta e cinco iniciais.  Repete a curta deambulação matinal. Saudoso de ouvir: Então, já de férias outra vez?
À mesma hora, o mesmo inventário da Penha, as mesmas Velhadas. Jornal, e, ou, revista para a General, café, compras mínimas garantidas e ala que se faz suspeito.
Ironias do Destino. Há décadas e décadas profissional do distanciamento activo, experimenta agora o passivo. O de um Grande Irmão? Uma proteína com Capa, afinal. Mundo às avessas. 
Solta-se o bicho quando repete que está a adorar a via virtual, quer na rua, quer nas curtíssimas sessões síncronas. Alguém apaga a Luz. Só aí acordam, querem saber porquê. Esquiva-se, como sempre.
Quarenta minutos semanais. Cronometrados com magistral requinte. Não há os execrandos desperdícios de tempo do quadrado «ao vivo». Os que se escondiam atrás da pequenina máquina têm agora vida facilitada. Basta desligar a microcâmara.
Seja às 11 ou às 15, apresentam-se espapaçados. Poupados à ansiedade da prova universal, nem disfarçam o contentamento, a indiferença arrogante. Bem tenta, duas ou três vezes, expandir leituras, solicitar-lhes a voz. Em vão.
Gostei muito de os ver. Cuidem-se. Saúde.  Até para a semana.
Até à data, intrusão, só a de uma ave canora que guinchava.
Eliminados os efeitos do desgaste presencial, já se prepara para mais um ano. Ainda por cima, imprevisível. E há uma nova semente lançada. Para Dezembro.
AVC em palco? Adiado.

Fausto

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Escrita a muitas MÃOS

- F. não tem acompanhado «Bode Inspiratório» que, à data vai no 33.º capítulo - um capítulo por Mão...;  fica para ler mais tarde...;

- Casa da EMPREITADA: AQUI

- textos lidos por Paula Perfeito - AQUI

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pessoa ABANDONADO

- domingo, 19, pelas 9 e 40; nesta «clandestina» Incursão em tempos de «Pré-DESCONF.», D., na Descida do Chiado, cruzou-se com dois seres; ficou com vontade de [...] [«e o resto não se diz»]

- foi preciso esperar que o SR. a SR.a que 
fumavam junto a F. P. entrassem na »Havaneza»...
- LIVRE, F. P. já «Pensa sem Sentir»?

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Rubem Fonseca + Sepúlveda + Eça

- D. foi às Estantes e encontrou 14 livros do primeiro, na da Sala, e 14 do segundo, na do Escritório. 
- Sepúlveda, tal como sintetiza Mários Santos, no «Público» "[...]nunca foi só escritor. Foi sempre um escritor com biografia. Pública, privada e, algumas vezes, controversa. [...]"  

- O 1.º livro de S. que D. leu foi «O Velho...», novela do Maravilhoso em (brutal e quase intocado) cenário amazónico..., com um extraordinário Dentista retratado no 1.º Capítulo [...]

- 16 horas; na varanda, «ao Sol», a General, que há muitos anos não lia, vai na página 22 de «A Cidade e as Serras», reaparecido nas «arrumações» [...] Há ESperança.


terça-feira, 14 de abril de 2020

«Alentejo não tem sombra» + Maltês + M. da Fonseca

- reabre, sem abrir, a «3.ª Estação» do Paraíso 1920; há que recomeçar com um Conto de M. da F. e tentar não ficar só por aí; são os «textos para o Corovid 1920» («Corona» + «Covid»)

CANÇÃO DE MALTÊS

Bati à porta do monte
porque sou um deserdado.
E chovia nessa noite
como se o céu fosse um mar
entornando-se na terra.
- Quem abre a porta a desoras
morando num descampado?
E continha o rafeiro que ladrava,
na ponta do meu cajado.
Mas veio abri-la o lavrador
com a espingarda na mão,
e pôs um olhar altivo
tão no fundo dos meus olhos
que as minhas primeiras falas
foram assim naturais:
―guarde a espingarda, senhor,

sou um homem sem trabalho.
[...]

[incompleto; nas página 26 e 27 da Antologia...; 3.ª ed., de 83, do n.º 2 da coleção "O aprendiz de feiticeiro», com uma pintura de Armando Alves* e outra de Jorge Pinheiro**] 


«Homenagem ao povo alentejano»**
«Campos de Évora»,*





quinta-feira, 9 de abril de 2020

2 minutos po dia...

... de Leitura Gravada, em tempos de COV19 - Leitores vários escolhem variados excertos , para DOIS MINUTOS,  na TSF

sexta-feira, 3 de abril de 2020

«Memórias de Adriano»

- se estiver «certa» a MEMO, foi lido, pela 1.a vez, num ex.ar emprestado por J. P. G. G., quando a General «esperançava»... (logo, em finais  de 83 ou inícios de 84...)
- excerto lido pelo (jovem) actor Nuno Nolasco, no 4.o EPIS. da série «Leituras em Tempo de Cólera», da RTP Play

terça-feira, 24 de março de 2020

(Audio)Leituras - Campos + MEC + V. F. [...]


- F. não conhecia A. Martins, o «Leitor de Serviço»...; 
- textos de:
- Vergílio Ferreira (de um «Conta-Corrente»);
- M. E. Cardoso (Crónica «Perder tempo», Público, 26-12-2011)
- Álvaro de Campos - [o Paradoxo do «Especialista»]..., texto, se título, em  Prosa, que, na edição de Pizarro e Cardielo, da «Tinta da China», está nas pp. 516, 517;

segunda-feira, 23 de março de 2020

«Economias», Eça

Eça, Santiagu - DAQUI



[...] Alguns discursos de cunho dramático e marcial que vamos ouvindo por aí a propósito da actual pandemia — “Temos de ser chineses!”, decretava há dias alguém num programa televisivo, logo secundado, no mesmo programa, por um colega que propunha condenar ao “ostracismo social” quem contestasse as decisões da governação, o todo rematado pela exigência de “Disciplina!” vinda de uma outra figura austera presente nos estúdios que dava como exemplo a seguir o “conclave de Hong Kong”, disciplina que logo nos lembrou a Campanha Alegre e as “economias” do Partido Reformista de Eça, e cito:
[...]
— (…) Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
— Economias! — disse com voz potente o partido reformista.
Espanto geral.
— Bem! E em moral?
— Economias! — bradou.
— Viva! e em educação?
— Economias! — roncou.
— Safa! e nas questões de trabalho?
— Economias! — mugiu.
— Apre! e em questões de jurisprudência?
— Economias! — rugiu.
— Santo Deus! e em questões de literatura, de arte?
— Economias! — uivou.
Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
— Que horas são?
— Economias! — rouquejou.
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
— De quem gosta mais, do papá, ou da mamã?
— Economias! — bravejou.»
etc., e para fechar o travessão que já vai longo e fechando-o — dizia, pois, que tais discursos, de uma gravidade postiça e caricata, não servem literalmente para nada, ao contrário do humor que é terapêutico. [...]

Ana Cristina Leonardo, «Humor em tempo de Cólera»

sábado, 7 de dezembro de 2019

Waits, Tom, 70 a 7

- «reencontro» neste sábado, guiado pelo dossiê do Blitz, 30 canções...

[Janeiro de 2022: possivelmente mais um «ficheiro vitimado» pelo ataque «Neo-pirata» de há cerca de 2, 3 semanas...]

domingo, 20 de outubro de 2019

A Diva e o Panda

autoria da Ilustração não indicada
na «SantaNeT»....


- uma das primeira leituras, após «Docel», «Flor da Império»..., a dona Lina a perguntar 
«se tinha ouvido, pela Uma e tal, a TRagédia, dois prédios adiante....»

terça-feira, 30 de julho de 2019

Invisíveis (Crianças) - Pat. Reis

[leitura hoje retomada...; cf. PERI]
- RECORTE: 
[...]e M. fica a ver Z. nos braços de uma senhora muito jovem, num arrebatamento, como alguém capturado, dentro de um sonho. Sabe que não se deve aproximar, é o momento de Z. Há meses que espera a visita da mãe. Esta dá-lhe a mão e entram na sala. Luísa surge vinda não se sabe de onde, M. não está a prestar atenção - Luísa senta-se num dos degraus. É uma forma de os adultos dizerem
     Vamos conversar.
     M. sabe que não há qualquer hipótese de recusar. Fala-se de direitos das crianças, o silêncio mão parece ser um deles, assim entende M. que se divide entre a vontade de descer as escadas e correr e de responder com brusquidão. Senta-se ao lado de Luísa.
     Tu sabes que Z. tem as visitas da mãe, não sabes? [...]



Patrícia Reis, As crianças invisíveis, 2019, pp. 115-6

[oferecido a T. B. - a do «Escola do Paraíso», em finais de 21, princípios de 22...]

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

«Um bailarino...» - Hélia Correia

- já foi para as mãos de J. RpZ (mesmo não o tendo W. terminado...)
- excerto das primeiras 15 páginas, AQUI
- crítica de M. S. no Ípsilon
- entrevista ao «Sol», a D. Vaz Pinto, de final de Outubro

domingo, 2 de dezembro de 2018

«Um poeta não domesticável» - Joaquim Manuel Magalhaães

- título da entrevista dada a Joana Emídio Marques, pela publicação de «Para comigo», Hoje colocada no OBS  (para ASS.es)
- essa e outras entrevistas e artigos  - AQUI

Recorte:

sábado, 20 de outubro de 2018

Amadeo

Domingos Rebêlo, Amadeo de Sousa Cardoso,
Emmérico Nunes, Manuel Bentes e José
Pedro Cruz,  em Paris, 1908
 (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)


Artigo no OBS.

Frase final:
«[...] Um século depois da morte, o pintor de Manhufe ainda é um puzzle com peças por juntar.»

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Expressões

- da 1.º Ficha de E. de 1819:

[pedia-se uma visão da Humanidade por Narrador Insecto...]

- «Vejo espaço, a natureza de onde vim e, discreto como sou, percorro os lençóis de vento até a um destino indefinido. Pela minha jornada deparo-me com coisas, sombras maiores que o infinito, pois não sei a sua origem e, em termos de pensamento, só conheço o meu. Por alguma razão fornecem-me alimento e sou compelido a pousar na sua sombra, para então ter energia para continuar. Alguns notam a minha presença e sacodem-me para longe. Penso que é uma questão de sorte, mas não os censuro.»
I. I. F., do 3.º Bloco

domingo, 15 de julho de 2018

Ecologia, Joana Bértholo

- [péssimo verão; o Secx não deixa tempo nem energia para ler...]

- lançado a 21 de junho, adq. hoje, na Bert., do COL [...]
- entrevista de Ana D. Soares, na Antena 1, no «À volta dos livros», de 10 de Julho - cerca de 5'
- recensão, de Helena Vasconcelos, no «Ipsilon» de 17 - 08: 
- entrevista a «Filhos da Nação», 18 de Setembro, na RTP.PLay
- entrevista, por Cristina Margato, na «Palavra de Autor», do Expresso, a 26 de Setembro

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O delfim

- a 30,  50 anos da publicação de um romance que levou 7, 8 a realizar...;
- dossiê de  Bruno Vieira Amaral, ... com várias «histórias», há muito esquecidas [...] [passou a ser «exclusivo para Assinantes»; pois é, há que ter «cabedal»...]

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Luísa Dacosta, por M. Rb.

- foi M. Rb. (do 2.º Bloco)  que ficou com o exemplar que M. tirou da mesa das Trocas, em Outubro
- fez agora, na terça, 15, a  Ap. dos dois excertos que escolheu:

“Um olhar que lhe dava asas e a libertava. Quando o sentira pela ùltima vez? Não sabia.
Sabia só que os seus olhos tinham deixado de colher milagres. Atraídos apenas pelo lixo, que parecia crescer sobre tudo, como uma maldição daninha. A realidade era o que era, sem fulgores ocultos, sem símbolos, o impermanente, destinado a morrer. Não havia destinos. Esperança. Nada de oculto ou de secreto a conquistar. Tudo eram labirintos, armadilhas, que iam dar à morte, sem remédio.
Mais do que a perda do corpo ou da beleza que fora a sua, doía-lhe a perda daquele olhar.
(...)
“Canta-se o que se perde”, estava escrito no poema que relia. Mas não cantava.
Limitava-se a escrever, como as avós tinham bordado, para encher as horas dos dias, se
propor uma tarefa, uma finalidade que lhe apagasse a frustração do vazio. Uma escrita,
contida, do e no silêncio.”
____________________________________________________________

“Tinha perdido a sua juventude, [...] promessa de viagens, longas, até às fazendas,desconhecidas e imensas de Catumbela, em Angola. Tinha perdido o marido. Tinha até perdido os filhos que a doença lhe arrancara de casa. Por causa do contágio e até porque estavam mais perto do liceu e dos estudos, tinham ido para casa dos avós e padrinhos. Tudo eram perdas. Estava sozinha com a Estefânia e os caseiros naquela casa do cimo da Vila, cercada de muros, com um horizonte fechado pela muralha da serrra- ondulação de mar petrificado. Um mar de violetas. Tão triste ao fim da tarde, com uns lugarinhos, perdidos, esparsos, na névoa! Não precisava debater-se, interrogar-se. Tinha perdido tudo. Faltava-lhe perder a vida e já não tardaria. (...) Tinha deixado de bordar. Sobrava-lhe tempo para o vazio.”

in O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui Antes de Mim , Luísa Dacosta, 2000

(«Perdas, Angústias e Medos em 1999 e 1916» - pp. 134, 135 e 138, 139)

quarta-feira, 25 de abril de 2018

SEDE, Tolentino de Mendonça

- está aí o livro de T. M....; M. ainda não o folheou...; 

- Entrevistas e, ou, dossiês:
- no «P2» do Público, a 15
- no Observador
- na Visão, de hoje, amanhã, - Excertos da conv. com A. L. Antunes +
artigo

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Barbeiro (um português e um homem da Gronelândia entram num)

- lida ontem , pelas 9 e 30, num Café da P. P. C., esta Crónica, de Mário Lopes, no P2

RECORTE:
[...]
A conversa no barbeiro é feita pelo próprio e tem como interlocutor o dono da cabeça sobre o qual, naquele momento, ele estiver a praticar o seu ofício. Não é, porém, um diálogo fechado. Deve ser mantido em voz sonora o suficiente para que os clientes que aguardam ouçam e registem matéria informativa para, quando chegar a sua vez, possam dar o seu contributo ao rumo da conversa, pegando no ponto em que o anterior ocupante da cadeira a deixou ou cortando caminho em direcção a outra coisa qualquer do seu interesse. [...]

sexta-feira, 9 de março de 2018

Sobreiros (F. P. não gostava de) - Manuel Alegre


TAMBÉM SOU ALENTEJANO

A José Manuel Mendes
Fernando Pessoa não gostava de sobreiros.
Não sei se saberia do milhafre e do arrepio
circular do seu grito.
Mas percebia com certeza do interdito
da passagem
do rio.
Talvez soubesse do raiano
do mágico logaritmo de outra margem
e de um azul secreto dentro do azul.

Mas ele era só Baixa só urbano.
Sentia na cabeça e na palavra.

Eu gosto dos caminhos para o sul
onde passa o cigano e a rola brava.

E também sou alentejano.

Manuel Alegre, Alentejo & Ninguém, Caminho, 1996, p. 23

domingo, 4 de março de 2018

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

«Camões («a guinada de um verso de)» - Graça Moura

não sei se o camões hoje teria escrito as suas rhythmas,
começa porque não saberia ao certo quais eram e então não havia camonistas
para discutirem a questão. e depois talvez não valesse a pena
falar àquela gente. e os auditórios têm limites de paciência.

por exemplo, o dia em que eu nasci moura e pereça,
diz-me o aguiar e silva, não é dele quase de certeza.
e eu respondo: é tão bom que tem mesmo de ser dele.
e o vítor ri, exclamando: você já está como o faria e sousa.

a ironia desta conversa é que ela se passava
no instituto camões, calcule-se, somos ambos do conselho geral,
tratando da expansão da língua portuguesa
que se mais mundo houvera lá chegara

e estava uma tarde esplêndida de janeiro
e se o camões estivesse ali não havia de acreditar
que um de nós estivesse prestes a tirar-lhe um soneto
o mais doutamente e o outro lho quisesse devolver,

invocando-lhe o som, a fúria e o sentido,
nem que há séculos que as coisas se vão passando assim,
tirando e pondo, invocando lições e testemunhos,
e uns gajos de nome germânico, lachmann, storck,

e mais alguns. a moral desta história é que um verso de camões
com pouca variação é sempre um verso de camões,
é a coisa mais bela e mais difícil do mundo
e dá cá uma guinada tão especial que só pode ser dele.

Vasco Graça Moura, Antologia dos sessenta anos, Porto, ASA, 2002.