segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Camões (Signos de) - Luis Maffei

- é uma pequena edição (em tamanho e em número de exemplares, 100), de 2013; tem estado em destaque, numa prat. da Estante da Avó M. F., para «ir sendo lida» [...]
- «constrangeu» vê-la, há dias, na FNC, em saldo [...]

- escreve L. M., no «prefácio»:
"No intervalo de um encontro acadêmico, Sérgio Nazar David e eu conversávamos sobre têmperas, gestos e signos. Chegamos, não me lembro bem por que motivo, a Camões, cujo signo, já que se desconhece a data do seu nascimento, é ignorado, mas cujos signos são lidos, bem e mal, há tempos. [...]"
- só L. M. concretizou a proposta da escrita de um poema para cada hipotético signo de C.

Recorte inicial do escrito «sob» o signo de Aquário:

As mãos se erguem desde o fundo da terra e
canto - é preciso guiar a
travessia o medo é preciso
o mundo a guerra
não
a Terra e seus umbrais

não me falta
não faltaria
honesto estudo nem
muitas linhas na água  e no céu
engenho
a orientar mil pares de vocações:
ou se aprende a mudança ou
isto é novo ou
sejam léguas com farrapos no corpo
barcos transparentes mais
engenho
coisas juntas 
de futuro a debicar com corpo
inteiro e seus
farrapos - é preciso guiar
o vento
venta
não há tempo quando a mim se abre apenas
tempo a propiciar-se por mãos núbeis:
então é paz quem move estrelas
(e outros sóis)
então amor conduz planetas
o tempo não existe porque é novo o tempo a
era a justa
ideia a mente que não vê menos que atua
[...]

Luis Maffei, signos de Camões, Companhia das Ilhas, 2013 pp. 36-38


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

UTOPIA (500 anos de)

- artigo do Público (1.º de uma série) que também é Roteiro para releituras (mais tarde?)

AQUI 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Soares + Fradique + Pizzarro + Reis

Um pessoano e um eciano em diálogo sobre «semi-heterónimos» [...] - com a Biblioteca Joanina em fundo [...]

- Excerto da Conversa,  por cortesia do Público      - AQUI

sábado, 31 de outubro de 2015

«A esperança é um animal com penas» - Luís Quintais

O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever
de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente,
isso sim. isso seria uma das formas de esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes,
uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros
e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo,
esse que está em cima da mesa aguardando uma visita do acaso.

"Um animal com penas", in Arrancar penas a um canto de cisne - Poesia 2015-1995, Assírio & Alvim, outubro de 2015  
[transcrito da Coluna «Cem por Cento» , de Nicolau Santos, Expresso - Economia, de hoje]             [durante uma pequena pausa dos Envelopes)

- «Esperança é a coisa com penas» (Emily Dickinson)



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Rosa-de-jericó («a flor do deserto») - a lista dos nomes

[de uma das gavetas do computador «reapareceu» o conto de Maria Ondina sobre a planta da «ressureição»...]

[porque longo, «imbricado», difícil escolher só os seguintes Recortes:

«A rosa-de-jericó» [truncado]

A lista dos nomes viera do Brasil. Numa folha pautada, duas altas colunas em caligrafia apurada de escrevente: Wilma, Wanda, Isa, Naíl…
A mãe está de mês e só come galinha com arroz. Um passeiozinho pela sala, uma sesta no cadeirão de verga. Janeiro. O fogareiro de brasas. O crepitar das bagas de eucalipto. A entranhar-se nas cortinas de folhos, nas pregas da saia, no cabelo entrançado, no xaile-manta, o perfume purificante do eucalipto. Combalida da longa noite de concebimento, a mãe: noite de três prolongados dias e velas acesas noutras velas ao Cristo do oratório. A velha Brígida franzindo a testa orvalhada de suor, os seus pulsos grossos nas mangas arregaçadas: «Se passar de hoje chama-se o doutor.». Fechada, a rosa-de-jericó, a sua raiz seca como uma corda, como uma cobra, à tona de água na bacia do lavatório.
Cinco e meia. O homem entra, apressado, o passo irregular. A carta de São Paulo? Onde estava a carta de São Paulo? E se ela já tinha lido, se já tinha escolhido.
─ Oh! Eu gosto é de Maria que é a Mãe de Jesus.
Pois podia pôr-se-lhe Maria seguido de outro nome. Examina a lista. Um supor, Neusa. Ou Nelma.
─ Qual achas mais bonito? ─ arrepia o bigode preto com  a unha alongada do dedo mendinho.
─ A avó dela, a minha mãe, era Maria do Socorro.
─ Ora, esses nomes já não se usam.
 […]
— Marília é um nome poético, mas o desta quero que seja exótico — procura-lhe a mão.
O fraco dele pelo exótico, o invulgar, o raro. […] Hélia, Elza, Hércia. Que lhe parecia Hércia?
Não responde. Não ouve o que ele diz. Pondera: que têm a ver nomes assim rebuscados e fantasiosos, que têm tais nomes a ver com uma pobrezinha que veio ao mundo por um pouco sufocada?
— Zilda, Zélia, Zuraida. São nomes nobres, sabes? Nomes reais. De princesas árabes!
Desatenta, ela.
— Então? Qual gostas mais? Dói-te alguma coisa? — debruça-se sobre a mulher. Continua: — Leda. Denise. Deborah. Nome judaico, Deborah?
[...]
A rosa-de-jericó, entretanto… Lá na bacia, enrodilhada e sem dar sinal, a flor da corola em cruz. Quando desabrocha, a gente apercebe-se, lembra-se? Se se lembrava! Como papel de seda a desdobrar-se. Como beijos… [...]
Sentado à sua beira, de lista em punho, ele pronuncia os nomes como se a saboreá-los. Com devoção. […]
Menina, Sr.ª Brígida? Um suspiro, a sua fala. O médico desinfectava os ferros, lavava minuciosamente as mãos, os braços, na bacia donde fora afinal retirada, sem chegar a desabotoar-se, a planta do parto. Uma moleza a acometê-la, uma madorna. E a criança tão caladinha, tal se nado-morta.
Ele fez uma pausa.
─ Ainda não me disseste se te agrada algum destes nomes. Não te agrada nenhum? ─  […]
Ela de mês, a menina ao peito a beber-lhe as forças. E já meio esquecida, quem diria, de tudo quanto suportava e de tudo quanto ainda lhe faltava suportar. Não obstante… O que lhe custava a aceitar era o facto de a flor-do-deserto não ter chegado a revivescer. A negação, a falência da planta da fecundidade, esse vegetal valimento, essa efígie fiel durante tantas gerações. Por que seria? Ali no cadeirão de verga, a cismar na rosa-de-jericó, a mãe. As mulheres do meu sangue, que me conste, felizes nos partos, parece. Porquê assim comigo? Por que a menina não queria nascer, sabe-se lá? Por que eu, a sua progenitora, preferindo um menino? Estreita a filha ao colo, compadecida. Mea culpa. Mea  maxima culpa. O seu ventre retraído de insubmissão e susto.
Na sala, o homem lê os nomes alto e destacadamente para que ela, no quarto interior, os possa escutar e escolher. E tal a entoação e o ardor da sua voz que a exaspera e a comove ao mesmo tempo. Como quem recitasse, fervoroso, uma oração. Como quem declamasse versos. Zaida… Rosenda… Belinda…Bluette…


Maria Ondina Braga. A rosa-de-jericó Contos escolhidos, 1994, pp. 137-141


domingo, 19 de abril de 2015

A Queda (de Ícaro) - Bruegel

Paisagem com a Queda de Ícaro, de Pieter Bruegel, o Velho
Recortes de artigo («A cultura, esse detalhe...»), de Vanessa Rato, do Público de hoje, pp. 30 - 31                   ou AQUI:

Há uma célebre pintura do mestre renascentista Pieter Bruegel, o Velho, que Homi Bhabha, um dos mais importantes autores dos estudos pós-coloniais contemporâneos, acha que nos deve continuar a fazer pensar. [...]
[...] o título completo da pintura de Bruegel é Paisagem com a Queda de Ícaro. Um título que encerra um programa, porque o que a composição nos oferece é uma imagem do mundo a seguir o seu curso enquanto ali, num pequeno detalhe do canto direito, um jovem que tentou voar alto de mais está a morrer afogado sem que ninguém sequer note a sua tragédia em curso.
      Ao centro, em primeiro plano, um agricultor fixa os olhos no chão enquanto guia o arado com que trabalha a terra. Mais abaixo, um pastor acompanhado pelo seu cão guarda distraidamente um rebanho de ovelhas enquanto observa o céu azul. E depois, lá em baixo, há o enorme navio de velas desfraldadas que agarra o nosso olhar e lança sombra sobre as pequeninas pernas de Ícaro, que caiu de cabeça e está a segundos de desaparecer de vez nas plácidas águas verdes da baía.
      Supostamente, a obra está feita na terrível perspectiva de Dédalo, a observar impotente, lá de cima, a desgraça do seu filho. O que leva à pergunta de Bhabha: “Afinal, quem é hoje a testemunha moral do sofrimento humano?” Esta, diz ele, é uma das perguntas que a Cultura pode lançar ao mundo. Uma pergunta auto-reflexiva, ou não será o papel de testemunha um dos lugares de sempre da Cultura? É uma hipótese de reflexão. Outra, diz Bhabha, é pensar se a Cultura não será o detalhe periférico e secundarizado que nos faz reconsiderar todo o sistema, exactamente como as pernas de Ícaro – quando por fim damos por elas. [...]


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nove poemas de Amor...

... em língua portuguesa, escolhidos por nove escritores port....

- no «Observador» - AQUI

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sophia - A menina do mar

Uma preciosidade - o disco de 1961 - leitura do conto - música de Lopes Graça - no «YT»

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Camões na Índia - Castro Mendes

CAMÕES NA ÍNDIA
Esteve nesta terra. Enojavam-no as mulheres,
pois só as de baixa casta aceitavam
vender-se aos brancos. Escrevia aos amigos
sobre as saudades que tinha dos bordéis de  Lisboa.
E fazia poemas para o Vice Rei.

A grandeza não cabe em nenhuma época,
em nenhuma terra,
até mesmo em nenhum ser humano de carne e osso.
Mas só ela dura!

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, D. Quixote, 2011, pp. 61



Recorte da Carta referida no poema:
[...] Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a üa carta como marinheiros à festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe(s) tenha os pontos, se lhe(s) quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe(s)  faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscan; respondem-vos üa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de üa dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará «las memorias de in illo tempore!» Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.
[...] [transcrita da Revista «Agulha», «Jornal de Poesia»:


Recorte do ensaio «O testemunho das cartas», de Helder Macedo:

[...] Na carta que escreveu pouco depois de ter chegado, em Setembro de 1553, a Goa (que caracterizou como "mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados"), Camões queixa-se amargamente das injustiças e traições de que teria sido vítima. Mas creio que esta carta é também um testemunho particularmente notável pelo que revela dos surpreendentes e nada convencionais usos erógenos do petrarquismo nos bordéis de Lisboa. Comparando nostalgicamente a "carne de salmoura" das prostitutas locais com as irresistíveis "falsidades" das suas literariamente sofisticadas congéneres lisboetas, "que chiam como pucarinhos com água", promete ir recebê-las pessoalmente, como um patriarca, de procissão e pálio, "se não recearem sofrer seis meses de má vida por esse mar", porque às prostitutas locais "fazei-me mercê que lhes faleis alguns amores de Petrarca ou de Bóscan: respondem-vos numa língua meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo".
[...]
Helder Macedo, «O testemunho das cartas», in  Camões e viagem iniciática, Abysmo, 2013 (17.º edição?), pp. 121, 122

[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

«Mães» - Herberto Helder

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema
                                                                      cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao
                                                                     pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente


Herberto Helder (1930; - ), Servidões, 2013, p. 23

domingo, 24 de março de 2013

Leonor e a «vocação»

[deslocado de Alpabiblio, assim escapando ao «Apaga-Apaga»]

Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.

Foi «Empréstimo-Oferta» de Eli. De boa vergonha ficou T. Vai pela p. 66.

«Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que o outono levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.
Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião de José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.
As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação.
[...]
É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer na sua vida.
Então recua, recusa, nega-se a professar.
Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sono. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.
Não carece de outra desmesura.»

Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 64-65

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sintra é um paraíso - «Os Maias»

Na série «Lugares bem lidos», de 18-09-2012, no Diário de Notícias: 

[Cruges] - «Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...»

Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, p. 233


sábado, 2 de junho de 2012

Fogo sobre a árvore circulatória

[cerca de 200 páginas em 73 curtos, concisos, capítulos, é um dos que estão em leitura - já referido em letras escalfadas]

Recorte:
2
Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passa gem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.
Nico acordou e não saiu da posição, tenso, esperou o dia. A chuva não impediu que a noite clareasse, o galo ficou mudo. No quarto dos pais o sol entrou pelas telhas destruídas, o casal estava enrijecido sobre a cama, mas ninguém diria que uma faísca de fogo os havia cozido por dentro. O colchão e a borda das telhas ficaram enegreci- dos, Nico foi até lá e se deu conta do embate entre luz e carne. Antônio abriu os olhos, em choque. Júlia estava alerta, mas não se mexia, não levantou a pálpebra, Nico a deu por morta. [...]

Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora, pp. 11-12
Ver:
- o vídeo, da série «Ler mais ler melhor», de 08 de Maio de 2012, em que a autora explica a «génese e a carpintaria» do Livro: no ARQUIVO RTP

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Galinhas - Gonçalo M. Tavares

Galinhas

Um menino com laranjas na mão a tentar acertar em galinhas que fogem como podem desse ataque infantil. A laranja não magoa muito, mesmo quando atirada com força porque, se acerta no corpo da galinha, o corpo ainda é espesso e largo e amortece a dor enquanto na cabeça da galinha a laranja pouco parece fazer porque a cabeça é ágil e raramente comete a estupidez de tentar responder à força com mais força. Mas claro que as galinhas não aprenderam a teoria do judo e não sabem que diante da força se deve fingir fraqueza para que seja a própria força do outro a derrotá-lo; a galinha estúpida nada percebe de judo e por isso, agora, quando os meninos já estão mais afastados mas não o suficiente para estarem muito longe, agora que eles já encontraram a distância certa para qua as laranjas ganhem a velocidade máxima, agora, sim, os meninos afinam a pontaria e quando acertam na cabeça da galinha causam mossa, e isso é evidente pelos movimentos ainda mais desordenados do animal. Mas a questão é saber que efeito concreto tem aquilo tudo. [...]

Gonçalo M. Tavares, Short Movies, pp. 141-2

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»



You Tube
Ícone de alerta
Enviado por em 23/02/2012
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador

[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos tempos da «Mercearia», na Madr., com um Chef que chamava «doutor» ao G. de então]
WELL.

Rubem Fonseca

Tempo da FAC. Ainda nos Barracões da A. de Berna. Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.
A. B. B.
- Menino do Porto que trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - também dotado de um  corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-

mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed: 83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»

- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]

- reeimpressão recente na «Sextante»;
- indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...

- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]

 

Rubem Fonseca - por Rui Zink

a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];

b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982» , mas só o leu depois  de A grande arte (cf. E. anterior)

c) no ano passado, foi emprestado (em três de quatro Quadrados suplementares) a A. C. R., um «meia-leca agarrado»(um dos três irmãos C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
 
d) sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha ...) por - Manuel António Pina


Vídeo da série «Ler mais ler melhor» - com depoimento do próprio M. A. P., finalizando com leitura de Poema

Frases soltas:
- «A Amizade também é um domicílio»;
- «A Amizade é o Porto de Abrigo que resta»;
- «Desconfiar dos versos que inteiramente se alcançam [... ] porque não vão além de mim»;

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fernando Assis Pacheco - Há um veneno...

(para M. G., lá «longe-perto»)

(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]

[No posfácio à Antologia... , na página 553 da mesma, F. A. P. é referido como «um dos (poucos) grandes nomes ... do aparentemente escasso cânone da poesia da Guerra Colonial».]

Há um veneno em mim...

Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.

Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.

Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.

Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.

(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha uma) - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

 [Uma casa]

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17



sábado, 4 de fevereiro de 2012

A poesia do Sr. Cirurgião Plástico, I - o inédito de sábado

Poema ao sábado                     Inédito
Bagagem perdida

E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães

Público, P2, Sábado, 14 de Janeiro de 2012p. 9

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sob escombros - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde tu também eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormeceres
sob escombros.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 24,25

Os livros - Manuel António Pina

Noutra E., J. T. M. fala do livro que «que pede para ser lido por dentro dos olhos»[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração ( o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 21

Mosaicos hidráulicos - uma Arte da Paciência

Fotografia de Joana Bourg
[...] um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha, o Alentejo, uma Arte que, percebe-se, dificilmente salvarão da Extinção [...] 
- alguns Recortes:
«Um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha quase alentejana e pedra mármore. [...]. É uma história com mais de dez anos e que já deixou marcas em casas de todo o mundo.Sean O’Riain e Kristina Verbinnen apaixonaram-se um pelo outro. Depois apaixonaram-se por Portugal. E a seguir veio o mármore. Mudaram as suas vidas para poderem trabalhar juntos e são hoje responsáveis, no Alentejo, pela criação de mosaicos
hidráulicos, uma arte milenar da região, quase extinta, e que é uma herança da presença árabe na Península Ibérica. [...]
Estou aqui em Portugal por causa do mármore. Surgiu a possibilidade de concretizarmos uma ideia, uma arte, e, juntos, mudámos a nossa vida da Bélgica, com muito stress e poluição ão para uma zona da Europa ainda virgem”, conta.
A primeira fábrica que abriram foi em Estremoz. Há cinco anos mudaram-se para Fronteira. [...]
À chegada ao país, garante que teve de trilhar caminhos difíceis para reunir as condições
necessárias para poder abrir uma fábrica, mas a cada porta que bateu tropeçou numa história que guarda com carinho.É por isso que, quando mostra os moldes de ferro que servem de base aos mosaicos conta com orgulho o percurso de alguns. Uns foram oferecidos por antigos artesãos que já tinham fechado portas. Outros saíram de mãos reformadas que voltaram a trabalhar ferro forjado para dar uma ajuda a Sean. Quanto a aprender a arte, propriamente dita, não se cansa de falar em Nelson Cala e no “mestre Zagalo”.
[...]

“A melhor aprendizagem que tive com esta arte é a paciência. As pessoas pensam que é fácil, mas não é. O processo é todo à mão e é complicado, mas pode fazer-se um desenho muito bonito e pessoal.» [...]

Reportagem de Romana Borja-Santos, Público, P2, 02-01-2012, pp. 4-7

LER ou VER : «audio slideshow» (na série «20anos20histórias»

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

«A infância de Herberto Helder» - Tolentino Mendonça

[é o poema referido na Entrada anterior, «acima-abaixo»]

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

José Tolentino Mendonça (1965 - ;), in Os dias contados (1990); transcrito de A noite abre meus olhos (poesia reunida) [com posfácio de Silvina Rodrigues Lopes], Assírio & Alvim, 2006, pp. 11 - 12

 
Comentário de João Luís Barreto Guimarães: AQUI

Amor (sussurro do) - José Tolentino Mendonça

Um dos sete depoimentos prestados a António Marujo - no caso de J. T. M., por escrito -
( «Bíblia Sete histórias de uma paixão»
A leitura do livro sagrado do judaísmo e cristianismo apaixona pelas mais diversas razões. Como grande literatura, como texto profano, como história da humanidade, como manifesto de dúvida... Católicos, protestantes e uma judia contam a história da sua paixão.)

Sem comentários, claro:

Um sussurro acerca do amor
José Tolentino Mendonça, poeta e biblista
Se alguma vez tivesse de escolher entre ficar com as 7101 palavras da Carta aos Romanos ou com os 21 capítulos do Evangelho de João,seria como se me obrigassem a decidir pela minha mão direita ou pela esquerda. Se não pudesse mais ler o Profeta Isaías, se por alguma razão não mais me fosse dado ouvir as imprecações de Job ou a cítara de David, se banissem os prantos de Jeremias ou o humor de Jonas, se não pudesse voltar à espantosa originalidade de Jesus, sei que isso me tornaria um apátrida. Aceitar perder os livros da Bíblia seria além do mais conformar-se também a perder: a Catedral de Chartres, o ciclo das lendas arturianas, a vida de S. Francisco de Assis, a arte de Giotto, os mármores transparentes de Miguel Ângelo, a Divina Comédia de Dante, grande parte da lírica camoniana, As Flores do Mal de Baudelaire ou a pergunta ardentemente insolúvel que Dostoiévski gravou em O Idiota: “Haverá uma beleza que nos salve?”
Mas às vezes penso que à hora da minha morte gostaria que me lessem o Cântico dos Cânticos. O Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. As mãos ardem folheando este livro, que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.
Neste poema o amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. Há um ritmo incessante de movimentos, quase vertiginoso em alguns momentos. O amor faz destes enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos. Por isso a maior declaração de amor é ainda um pedido: “Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor” (Ct 8,6).
Por António Marujo , Público , P2 , Sábado ,24 de Dezembro de 2011, pp. 4-5