quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sophia - A menina do mar

Uma preciosidade - o disco de 1961 - leitura do conto - música de Lopes Graça - no «YT»

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Camões na Índia - Castro Mendes

CAMÕES NA ÍNDIA
Esteve nesta terra. Enojavam-no as mulheres,
pois só as de baixa casta aceitavam
vender-se aos brancos. Escrevia aos amigos
sobre as saudades que tinha dos bordéis de  Lisboa.
E fazia poemas para o Vice Rei.

A grandeza não cabe em nenhuma época,
em nenhuma terra,
até mesmo em nenhum ser humano de carne e osso.
Mas só ela dura!

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, D. Quixote, 2011, pp. 61



Recorte da Carta referida no poema:
[...] Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a üa carta como marinheiros à festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe(s) tenha os pontos, se lhe(s) quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe(s)  faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscan; respondem-vos üa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de üa dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará «las memorias de in illo tempore!» Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.
[...] [transcrita da Revista «Agulha», «Jornal de Poesia»:


Recorte do ensaio «O testemunho das cartas», de Helder Macedo:

[...] Na carta que escreveu pouco depois de ter chegado, em Setembro de 1553, a Goa (que caracterizou como "mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados"), Camões queixa-se amargamente das injustiças e traições de que teria sido vítima. Mas creio que esta carta é também um testemunho particularmente notável pelo que revela dos surpreendentes e nada convencionais usos erógenos do petrarquismo nos bordéis de Lisboa. Comparando nostalgicamente a "carne de salmoura" das prostitutas locais com as irresistíveis "falsidades" das suas literariamente sofisticadas congéneres lisboetas, "que chiam como pucarinhos com água", promete ir recebê-las pessoalmente, como um patriarca, de procissão e pálio, "se não recearem sofrer seis meses de má vida por esse mar", porque às prostitutas locais "fazei-me mercê que lhes faleis alguns amores de Petrarca ou de Bóscan: respondem-vos numa língua meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo".
[...]
Helder Macedo, «O testemunho das cartas», in  Camões e viagem iniciática, Abysmo, 2013 (17.º edição?), pp. 121, 122

[Carlos Vaz Marques, em «O livro do dia», de 13-11-2013, na TSF, fala sobre o livro de H. M]

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

«Mães» - Herberto Helder

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema
                                                                      cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao
                                                                     pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente


Herberto Helder (1930; - ), Servidões, 2013, p. 23

domingo, 24 de março de 2013

Leonor e a «vocação»

[deslocado de Alpabiblio, assim escapando ao «Apaga-Apaga»]

Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.

Foi «Empréstimo-Oferta» de Eli. De boa vergonha ficou T. Vai pela p. 66.

«Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que o outono levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.
Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião de José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.
As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação.
[...]
É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer na sua vida.
Então recua, recusa, nega-se a professar.
Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sono. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.
Não carece de outra desmesura.»

Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 64-65

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sintra é um paraíso - «Os Maias»

Na série «Lugares bem lidos», de 18-09-2012, no Diário de Notícias: 

[Cruges] - «Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...»

Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, p. 233


sábado, 2 de junho de 2012

Fogo sobre a árvore circulatória

[cerca de 200 páginas em 73 curtos, concisos, capítulos, é um dos que estão em leitura - já referido em letras escalfadas]

Recorte:
2
Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passa gem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.
Nico acordou e não saiu da posição, tenso, esperou o dia. A chuva não impediu que a noite clareasse, o galo ficou mudo. No quarto dos pais o sol entrou pelas telhas destruídas, o casal estava enrijecido sobre a cama, mas ninguém diria que uma faísca de fogo os havia cozido por dentro. O colchão e a borda das telhas ficaram enegreci- dos, Nico foi até lá e se deu conta do embate entre luz e carne. Antônio abriu os olhos, em choque. Júlia estava alerta, mas não se mexia, não levantou a pálpebra, Nico a deu por morta. [...]

Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora, pp. 11-12
Ver:
- o vídeo, da série «Ler mais ler melhor», de 08 de Maio de 2012, em que a autora explica a «génese e a carpintaria» do Livro: no ARQUIVO RTP

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Galinhas - Gonçalo M. Tavares

Galinhas

Um menino com laranjas na mão a tentar acertar em galinhas que fogem como podem desse ataque infantil. A laranja não magoa muito, mesmo quando atirada com força porque, se acerta no corpo da galinha, o corpo ainda é espesso e largo e amortece a dor enquanto na cabeça da galinha a laranja pouco parece fazer porque a cabeça é ágil e raramente comete a estupidez de tentar responder à força com mais força. Mas claro que as galinhas não aprenderam a teoria do judo e não sabem que diante da força se deve fingir fraqueza para que seja a própria força do outro a derrotá-lo; a galinha estúpida nada percebe de judo e por isso, agora, quando os meninos já estão mais afastados mas não o suficiente para estarem muito longe, agora que eles já encontraram a distância certa para qua as laranjas ganhem a velocidade máxima, agora, sim, os meninos afinam a pontaria e quando acertam na cabeça da galinha causam mossa, e isso é evidente pelos movimentos ainda mais desordenados do animal. Mas a questão é saber que efeito concreto tem aquilo tudo. [...]

Gonçalo M. Tavares, Short Movies, pp. 141-2

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»



You Tube
Ícone de alerta
Enviado por em 23/02/2012
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador

[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos tempos da «Mercearia», na Madr., com um Chef que chamava «doutor» ao G. de então]
WELL.

Rubem Fonseca

Tempo da FAC. Ainda nos Barracões da A. de Berna. Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.
A. B. B.
- Menino do Porto que trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - também dotado de um  corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-

mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed: 83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»

- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]

- reeimpressão recente na «Sextante»;
- indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...

- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]

 

Rubem Fonseca - por Rui Zink

a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];

b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982» , mas só o leu depois  de A grande arte (cf. E. anterior)

c) no ano passado, foi emprestado (em três de quatro Quadrados suplementares) a A. C. R., um «meia-leca agarrado»(um dos três irmãos C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
 
d) sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha ...) por - Manuel António Pina


Vídeo da série «Ler mais ler melhor» - com depoimento do próprio M. A. P., finalizando com leitura de Poema

Frases soltas:
- «A Amizade também é um domicílio»;
- «A Amizade é o Porto de Abrigo que resta»;
- «Desconfiar dos versos que inteiramente se alcançam [... ] porque não vão além de mim»;

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fernando Assis Pacheco - Há um veneno...

(para M. G., lá «longe-perto»)

(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]

[No posfácio à Antologia... , na página 553 da mesma, F. A. P. é referido como «um dos (poucos) grandes nomes ... do aparentemente escasso cânone da poesia da Guerra Colonial».]

Há um veneno em mim...

Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.

Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.

Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.

Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.

(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha uma) - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

 [Uma casa]

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17



sábado, 4 de fevereiro de 2012

A poesia do Sr. Cirurgião Plástico, I - o inédito de sábado

Poema ao sábado                     Inédito
Bagagem perdida

E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães

Público, P2, Sábado, 14 de Janeiro de 2012p. 9

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sob escombros - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde tu também eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormeceres
sob escombros.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 24,25

Os livros - Manuel António Pina

Noutra E., J. T. M. fala do livro que «que pede para ser lido por dentro dos olhos»[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração ( o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 21

Mosaicos hidráulicos - uma Arte da Paciência

Fotografia de Joana Bourg
[...] um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha, o Alentejo, uma Arte que, percebe-se, dificilmente salvarão da Extinção [...] 
- alguns Recortes:
«Um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha quase alentejana e pedra mármore. [...]. É uma história com mais de dez anos e que já deixou marcas em casas de todo o mundo.Sean O’Riain e Kristina Verbinnen apaixonaram-se um pelo outro. Depois apaixonaram-se por Portugal. E a seguir veio o mármore. Mudaram as suas vidas para poderem trabalhar juntos e são hoje responsáveis, no Alentejo, pela criação de mosaicos
hidráulicos, uma arte milenar da região, quase extinta, e que é uma herança da presença árabe na Península Ibérica. [...]
Estou aqui em Portugal por causa do mármore. Surgiu a possibilidade de concretizarmos uma ideia, uma arte, e, juntos, mudámos a nossa vida da Bélgica, com muito stress e poluição ão para uma zona da Europa ainda virgem”, conta.
A primeira fábrica que abriram foi em Estremoz. Há cinco anos mudaram-se para Fronteira. [...]
À chegada ao país, garante que teve de trilhar caminhos difíceis para reunir as condições
necessárias para poder abrir uma fábrica, mas a cada porta que bateu tropeçou numa história que guarda com carinho.É por isso que, quando mostra os moldes de ferro que servem de base aos mosaicos conta com orgulho o percurso de alguns. Uns foram oferecidos por antigos artesãos que já tinham fechado portas. Outros saíram de mãos reformadas que voltaram a trabalhar ferro forjado para dar uma ajuda a Sean. Quanto a aprender a arte, propriamente dita, não se cansa de falar em Nelson Cala e no “mestre Zagalo”.
[...]

“A melhor aprendizagem que tive com esta arte é a paciência. As pessoas pensam que é fácil, mas não é. O processo é todo à mão e é complicado, mas pode fazer-se um desenho muito bonito e pessoal.» [...]

Reportagem de Romana Borja-Santos, Público, P2, 02-01-2012, pp. 4-7

LER ou VER : «audio slideshow» (na série «20anos20histórias»

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

«A infância de Herberto Helder» - Tolentino Mendonça

[é o poema referido na Entrada anterior, «acima-abaixo»]

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

José Tolentino Mendonça (1965 - ;), in Os dias contados (1990); transcrito de A noite abre meus olhos (poesia reunida) [com posfácio de Silvina Rodrigues Lopes], Assírio & Alvim, 2006, pp. 11 - 12

 
Comentário de João Luís Barreto Guimarães: AQUI

Amor (sussurro do) - José Tolentino Mendonça

Um dos sete depoimentos prestados a António Marujo - no caso de J. T. M., por escrito -
( «Bíblia Sete histórias de uma paixão»
A leitura do livro sagrado do judaísmo e cristianismo apaixona pelas mais diversas razões. Como grande literatura, como texto profano, como história da humanidade, como manifesto de dúvida... Católicos, protestantes e uma judia contam a história da sua paixão.)

Sem comentários, claro:

Um sussurro acerca do amor
José Tolentino Mendonça, poeta e biblista
Se alguma vez tivesse de escolher entre ficar com as 7101 palavras da Carta aos Romanos ou com os 21 capítulos do Evangelho de João,seria como se me obrigassem a decidir pela minha mão direita ou pela esquerda. Se não pudesse mais ler o Profeta Isaías, se por alguma razão não mais me fosse dado ouvir as imprecações de Job ou a cítara de David, se banissem os prantos de Jeremias ou o humor de Jonas, se não pudesse voltar à espantosa originalidade de Jesus, sei que isso me tornaria um apátrida. Aceitar perder os livros da Bíblia seria além do mais conformar-se também a perder: a Catedral de Chartres, o ciclo das lendas arturianas, a vida de S. Francisco de Assis, a arte de Giotto, os mármores transparentes de Miguel Ângelo, a Divina Comédia de Dante, grande parte da lírica camoniana, As Flores do Mal de Baudelaire ou a pergunta ardentemente insolúvel que Dostoiévski gravou em O Idiota: “Haverá uma beleza que nos salve?”
Mas às vezes penso que à hora da minha morte gostaria que me lessem o Cântico dos Cânticos. O Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. As mãos ardem folheando este livro, que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.
Neste poema o amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. Há um ritmo incessante de movimentos, quase vertiginoso em alguns momentos. O amor faz destes enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos. Por isso a maior declaração de amor é ainda um pedido: “Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor” (Ct 8,6).
Por António Marujo , Público , P2 , Sábado ,24 de Dezembro de 2011, pp. 4-5

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pessoa - Soares - Desassossego - [«A vida deve ser...»]

TUDO QUANTO de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos. maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qulaquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que sofrer a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porqe sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos. [...]

Livro do desassossego - composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Ed: Richard Zenith. Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 162 - 163

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Castro Mendes - INCIPIT

G. foi à estante arrumar Lendas da Índia e trouxe Modos de Música, de 1996

INCIPIT
(à memória de David Mourão-Ferreira)
E se em vez das palavras fosse um eco
de pura solidão que te chamava?
E se em vez doutro nada fosse um erro
e se em vez do presente fosse nada?

E se em vez da memória fosse um sopro
da pura solidão adormecida?
E se em vez da ausência fosse o corpo
e se em vez de um só verso fosse a vida?

É só jogo de ausências este verso
ou espelho numa leve madrugada,
feito engano de luzes e disperso
batimento de remos na jangada?

(Náufragos de nós mesmos sem saber
as imagens que o verso quis perder).

          Luís Filipe Castro Mendes. Modos de músicaLisboa, Quetzal, 1996, p. 38

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Castro Mendes - RESPOSTA A CAMÕES

Recente, o livro de L. F. C. M. está destinado a um Longo Caminho [...] 

Em epígrafe, C. M. reforça o «empréstimo» do título de Gaspar Correia:

«Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproveitivel aos viventes
que lembrança e memória dos bens e males passados».

RESPOSTA A CAMÕES
para o Luís Quintais
Foi a noite junto à igreja de Diu
ou a tarde que entrámos nas grutas de Elefanta?
Há na tarde para sempre perdido um navio
e há na noite um demónio sinistro que canta.

Os deuses que avistámos na loucura mansa
vingaram-se de nós com seu simples durar
e o Cristo que trouxemos na guerra e na bonança
fez-se deus nesta terra e perdeu-se do mar.

Foi a noite que trouxe este manso esquecer
em que a História se deu no passo de uma dança
e nos chamam de longe os que vieram morrer
além da sua terra e aquém da lembrança?

Foi a noite a entrar na igreja de Diu
ou a sombra de Deus na ilha de Elefanta?
Shiva hermafrodita desta cave sorriu
e o mundo se fez contra toda a esperança!

Diu, Novembro de 2009

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, d. Quixote, 2011 (2.ª ed.?), p. 95


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

«Os Lusíadas» (o professor que os queimou) - Dulce M. Cardoso

- Houve um tempo - mais «próspero - em que G. estava sempre muito atento às primeiras obras; lembra-se de ter lido Campo de sangue (2001).; não se lembra onde está (na casa de S. A. C.?); não se recorda senão da «dureza» dessa leitura;

- de todos os lados chegavam boas referências - em «Horas Extraordinárias», hoje, por exemplo - ao 4.º título de D. M. C.
- ao longo destas duas semanas, andou na mão - esta manhã, G . atingiu a página 46, ao balcão da «Suiça», no Rossio (Bica a 75 - escalda - T. de M. a 1.75 - idem - «2 dedos de conversa» com a oficiante veterana - )
- sempre gostou de ler em pé, G.; encostado, melhor

RECORTES, junto a «esse ponto aproximado»:

[...] Uma vez o pai foi buscar-me ao liceu e parou o carro debaixo da mulembeira antes de chegarmos a casa, deu-me uma carta do tio Zé, nem uma palavra sobre isto à tua irmã[...] Estava a anoitecer e havia muitos mosquitos, já deves ter percebido o que se passa, não há farda que encubra aquilo que o desgraçado do teu tio é. A carta estava cheia de meias palavras mas dava para perceber que o tio Zé era como os rapazes que eram apanhados a fazer porcarias uns com os outros na casa de banho do liceu. Só que o tio Zé já não era um rapaz e era o irmãozinho soldado da mãe. [...]

Não são conversas que eu saiba ter com o pai e envergonho-me sempre que o pai fala nesses assuntos. Com o Gegé e com o Lee é diferente, passávamos horas a falar de como seria fazer ginga ginga com raparigas brancas, sabíamos que não era a mesma coisa do que fazer com as pretas que nem cuecas usam e fazem aquilo com qualquer um e se quisermos até fazem com dois ou três de seguida, A Fortunata uma vez fez com sete, uns a seguir aos outros, até fizemos fila como na cantina do liceu. O Gegé é o único que já fez ginga ginga com uma branca, a Anita. [...]

[...] Tenho saudades do Lee e do Gegé. A última vez que estivemos os três juntos foi na casa do Ganas, fomos ver pela vigésima vez o filme Emmanuelle [...] Nesse último dia estávamos tão tristes que depois de o filme acabar nem falámos da diferença de fazer ginga ginga com brancas e com pretas. [...] Mas mesmo assim o Gegé e o Lee ainda discutiram porque o Lee disse que nem que fosse só para ver a Emmanuelle nua já tinha valido a pena o golpe de estado. O pai do Lee era um apoiante da revolução e ensinava o Lee a ver benefícios da revolução em tudo, para o pai do Lee os trabalhadores iam ser finalmente livres e caminhar em direcção ao socialismo como os cowboys caminham em direcção ao pôr-do-sol no fim os filmes. O pai do Lee tinha uma bandeira na varanda, uma bandeira do Galo Negro, Savimbi sempre, [...]

[...] O professor de português dizia que tínhamos muita sorte, estávamos a fazer a revolução, a gloriosa manhã de Abril tinha sido só o princípio, os quarenta e oito anos da noite mais infame tinham chegado ao fim [...] O professor de português era novo, usava o cabelo comprido e cheirava a liamba, levava a viola para as aulas e punha-se a cantar o Monamgambé de forma tão sentida como se fosse um preto, [...], não cantava bem mas era melhor ouvi-lo desafinar o Monamgambé [...] do que estudar os cantos dos Lusíadas. O professor de português da turma B queimou os Lusíadas, o império não devia ter existido e os Lusíadas que o aclamam tanbém não. [...]

Dulce Maria Cardoso, O retorno. Lx, Tinta-da-china, 2011, pp. 41 - 46

domingo, 23 de outubro de 2011

«os Lusíadas» (o miúdo que os ia continuar)

de: O míudo que pregava pregos numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 -

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      O míudo que conta as sílabas pelos dedos não se contenta em contar as dos outros, às duas por três começa a contá-las para si mesmo. E não está com mais aquelas, chama a irmã e confidencia-lhe: Vou continuar Os Lusíadas. Ela ficou um tanto assarapantada, mas leva a sério, como, aliás, tudo o que vem do irmão. Mas não consegue conter-se. Conta a uma amiga, esta a outra, que por sua vez conta a outra, a notícia vai dando a volta, chega ao liceu do irmão e à rua onde moram, os vizinhos comentam, entre eles um escultor célebre, mestre Barata Feyo, o único, diga-se de passagem, que não se escandaliza, acha natural, ao ponto de apresentar o miúdo a dois colegas professores de Belas Artes:
         - É este o homem que está a continuar Os Lusíadas.
       De modo que o miúdo que pregava pregos numa tábua não teve outro remédio senão o de tentar corresponder à confiança de tão ilustre artista. E meteu mãos à obra. Mas ainda hoje não sabe se conseguiu. E o escultor já cá não está para confirmar se sim ou não. Só a irmã, sem ironia, às vezes lhe pergunta: Ainda estás a continuar Os Lusíadas? Apesar da solenidade com que o pai lhes tinha explicado que ninguém poderia nunca continuar Os Lusíadas e que era quase um sacrilégio pensar que sim. Nem um nem outro ficaram convencidos. O miúdo que gostava de armar ao pingarelho acabou mesmo por dizer à irmã:
      - O pai está enganado, não há nenhum poeta que não tenha querido continuar Os Lusíadas.
Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 39-40

sábado, 8 de outubro de 2011

O miúdo que pregava pregos...

... numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 - é «fininho», mas como não há espaço na Estante de M. A., tem «andado pela casa» -
reaparecido, um capítulo, «ao acaso»:

- Tão - diz o miúdo para o pai
- Tão o quê?
- Falta o tão.
- Estás a fazer-te de parvo.
- Não estou, não, falta o tão, o pai não leu o tão.
- Li tudo, qual tão qual carapuça.
- Tão curta a vida.
- Foi o que li.
- Não foi, não, o pai leu para tão grande amor curta a vida, por isso não dá certo, falta o tão.
Então o pai irrita-se:
- Este miúdo gosta de armar ao pingarelho.
- Talvez - diz a mãe -, mas tem ouvido.
Começa então uma espécie de jogo. O pai ora lê os versos completos, ora propositadamente omite uma ou duas palavras. Mas o miúdo que riscou o exemplar de Orpheu não se fica.
- Ao sol.
- Lá estás tu.
- O pai leu ó virgens que passais ao poente, mas não é assim, falta sol, ao sol poente, ó virgens que passais ao sol poente.
- Tens jeito para a métrica - comenta o pai sem se dar por achado.
- Ele conta pelos dedos - diz a mãe.
- Não pode ser, ninguém lhe ensinou.
- Há coisas que não se aprendem.
- Tudo se aprende, até os pássaros ensinam os filhos a cantar.
- Não é a mesma coisa - remata a mãe.

Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 33-34

domingo, 2 de outubro de 2011

Renascimento temporário

Temporário, porque faz parte da «natureza» deste Território.

Servirá para colocar «materiais de rectaguarda, outras referências e «desafios»
 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

APAGA -APAGA FINAL

(Cumpriu-se. Desfez-se)

(Fica a primeira e a entrada da «Lição Final» de J. T.)

(Leituras do próximo Tempo entre-ciclos vão morar ao lado)

Última Lição - Velhíssimo PARAÍSO

(foi na quinta, pelas 15:30, informado e «bicado» por P. O. (que Humor), R. lá foi ouvir J. T., um dos Últimos M. - quer dizer, um dos últimos Guardiões de uma certa Memória, de uma certa «AA» - naturalmente, Objecto de - ficcional - Mitificação)

(R. sempre viu o afectuoso, talvez inábil, por trás do exterior algo áspero)

(R. foi, talvez há uma Eternidade - 92-93? -, prof. de uma da suas filhas, a M.)

(o discurso foi Peripatético - não no sentido de quem «ensina passeando» ou «ensina como, ou seguindo Aristóteles» - Lexicon)

(mas, quer dizer, «extravagante na expressão e nos gestos» - Lexicon 
- também sofrido)

Saudações

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O mais simples.

a) Segui as instruções, Maestrina, será que já serve?

b) Textualizar com humildade, respeitando, o mais possível, as autorias.

c) Facilitar o acesso do que se vai lendo e relendo.