domingo, 24 de março de 2013

Leonor e a «vocação»

[deslocado de Alpabiblio, assim escapando ao «Apaga-Apaga»]

Na Mão Esquerda de T., caminho do Paraíso 1213, vem agora diariamente um pesado volume: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta
«Polifonia de Vozes», em curtas narrativas de prosa lírica.

Foi «Empréstimo-Oferta» de Eli. De boa vergonha ficou T. Vai pela p. 66.

«Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que o outono levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.
Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião de José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.
As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação.
[...]
É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer na sua vida.
Então recua, recusa, nega-se a professar.
Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sono. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.
Não carece de outra desmesura.»

Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. Lx, D. Quixote, Maio de 2011, pp. 64-65

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sintra é um paraíso - «Os Maias»

Na série «Lugares bem lidos», de 18-09-2012, no Diário de Notícias: 

[Cruges] - «Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...»

Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil, p. 233


sábado, 2 de junho de 2012

Fogo sobre a árvore circulatória

[cerca de 200 páginas em 73 curtos, concisos, capítulos, é um dos que estão em leitura - já referido em letras escalfadas]

Recorte:
2
Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passa gem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.
Nico acordou e não saiu da posição, tenso, esperou o dia. A chuva não impediu que a noite clareasse, o galo ficou mudo. No quarto dos pais o sol entrou pelas telhas destruídas, o casal estava enrijecido sobre a cama, mas ninguém diria que uma faísca de fogo os havia cozido por dentro. O colchão e a borda das telhas ficaram enegreci- dos, Nico foi até lá e se deu conta do embate entre luz e carne. Antônio abriu os olhos, em choque. Júlia estava alerta, mas não se mexia, não levantou a pálpebra, Nico a deu por morta. [...]

Andréa Del Fuego, Os Malaquias, 2012, Porto Editora, pp. 11-12
Ver:
- o vídeo, da série «Ler mais ler melhor», de 08 de Maio de 2012, em que a autora explica a «génese e a carpintaria» do Livro: no ARQUIVO RTP

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Galinhas - Gonçalo M. Tavares

Galinhas

Um menino com laranjas na mão a tentar acertar em galinhas que fogem como podem desse ataque infantil. A laranja não magoa muito, mesmo quando atirada com força porque, se acerta no corpo da galinha, o corpo ainda é espesso e largo e amortece a dor enquanto na cabeça da galinha a laranja pouco parece fazer porque a cabeça é ágil e raramente comete a estupidez de tentar responder à força com mais força. Mas claro que as galinhas não aprenderam a teoria do judo e não sabem que diante da força se deve fingir fraqueza para que seja a própria força do outro a derrotá-lo; a galinha estúpida nada percebe de judo e por isso, agora, quando os meninos já estão mais afastados mas não o suficiente para estarem muito longe, agora que eles já encontraram a distância certa para qua as laranjas ganhem a velocidade máxima, agora, sim, os meninos afinam a pontaria e quando acertam na cabeça da galinha causam mossa, e isso é evidente pelos movimentos ainda mais desordenados do animal. Mas a questão é saber que efeito concreto tem aquilo tudo. [...]

Gonçalo M. Tavares, Short Movies, pp. 141-2

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rubem Fonseca - «escrever é uma forma socialmente aceite de loucura»



You Tube
Ícone de alerta
Enviado por em 23/02/2012
Rubem Fonseca, com a obra Bufo e Spallanzani, é o vencedor do Prémio Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do «Correntes d'Escritas»; video feito durante a mesa redonda sobre o tema "A Escrita é um risco total"
Eduardo Lourenço , Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Hélia Correia, Rubem Fonseca
José Carlos de Vasconcelos - moderador

[interesse suplementar: ver estampada, em Almeida Faria, pose idêntica à de há mais de 25, antes da FAC, nos tempos da «Mercearia», na Madr., com um Chef que chamava «doutor» ao G. de então]
WELL.

Rubem Fonseca

Tempo da FAC. Ainda nos Barracões da A. de Berna. Numa das aulas do 2.º ano, 87 ou 88, certamente.
A. B. B.
- Menino do Porto que trocou o 2.º ou 3.º ano de Economia por Literatura, sendo já então um brilhante prof. e ensaísta - também dotado de um  corrosivo humor [é melhor não pormenorizar mais]-

mostrou um exemplar de A grande arte [1.ª ed: 83] e, de entre as várias coisas que A. B. B. terá dito, G. reteve para sempre que era um dos «que se lêem sem se conseguir interromper ou parar, pela noite dentro»

- foi mesmo - deverá ter sido - passa a ter sido, acredita agora G. «reinventando o vazio da Memória», certamente....
[«a Memória é uma história qua contamos a nós mesmos», Rosa Montero]

- reeimpressão recente na «Sextante»;
- indo à estante da sala, retoma um exemplar adquirido em 96, das «Edições 70»; não deverá ter sido nesse que o terá lido pela primeira vez, reza certamente a difusa Deusa...

- [ah, já quanto a Bufo e Spallanzani - anterior - em edição brasileira - foi na viagem da Páscoa, de 95, a Salzburgo - abençoados 3 dias - e não voltou - emprestado - ou «oferecido»? - a L. ? à irmã de S. C.?]

 

Rubem Fonseca - por Rui Zink

a) Rui Zink - do ano de A. B. B. - foi prof. de G. na Fac, em 87-88 - ambos davam aulas diferentes - entre si e das univ. habituais [...];

b) neste vídeo faz a datação do livro que G. adquiriu numa Feira do Livro - lembrava-se bem, mas não do ano - o exemplar, vindo da Estante da Sala, reza «Junho de 1982» , mas só o leu depois  de A grande arte (cf. E. anterior)

c) no ano passado, foi emprestado (em três de quatro Quadrados suplementares) a A. C. R., um «meia-leca agarrado»(um dos três irmãos C. R. do Paraíso 1112) que ia «dando cabo» do Bloco L. Não deu, felizmente. Não fez efeito (o livro, claro) - não é para qualquer um
 
d) sai o vídeo, com Rui Zink, da série «ler mais ler melhor»

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha ...) por - Manuel António Pina


Vídeo da série «Ler mais ler melhor» - com depoimento do próprio M. A. P., finalizando com leitura de Poema

Frases soltas:
- «A Amizade também é um domicílio»;
- «A Amizade é o Porto de Abrigo que resta»;
- «Desconfiar dos versos que inteiramente se alcançam [... ] porque não vão além de mim»;

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fernando Assis Pacheco - Há um veneno...

(para M. G., lá «longe-perto»)

(na E. de 15 de Dezembro do seu Território, escrevia: [...] E agora cheguei e em vez de ir dormir pus-me a ler F.A.P. Queria ter aqui um livro dele, sem ter de me pôr a ler os seus escritos na internet. Cada vez o percebo mais; [...]

[No posfácio à Antologia... , na página 553 da mesma, F. A. P. é referido como «um dos (poucos) grandes nomes ... do aparentemente escasso cânone da poesia da Guerra Colonial».]

Há um veneno em mim...

Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.

Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.

Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão
há o fogo da Breda, os olhos gastos.

Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.

(Pacheco, Fernando Assis, A musa irregular)
RIBEIRO, Margarida Calafate, VECCHI, Roberto (org. e posfácio). Antologia da memória poética da guerra colonial. 2011, Porto, Afrontamento, p. 345

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Casa (como se desenha uma) - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

 [Uma casa]

Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.

Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.

O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás, nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 17



sábado, 4 de fevereiro de 2012

A poesia do Sr. Cirurgião Plástico, I - o inédito de sábado

Poema ao sábado                     Inédito
Bagagem perdida

E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar à mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é
o cotão do que passou
reside a ilusão de te evadires daqui –
deste país a fingir que não
te deixa crescer (Europa
de ouropel) lesto
a nivelar por baixo. Chegam-te
vindos do nada quando já nada esperavas
(assim é este país
quando tornas de viagem:)
estás no carrossel dos dias e
nunca mais é a tua mala
(nunca mais
é a tua mala) nunca mais é
a tua mala.

João Luís Barreto Guimarães

Público, P2, Sábado, 14 de Janeiro de 2012p. 9

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto em Junho de 1967. Publicou o seu primeiro livro Há Violinos na Tribo, em 1989. Os seus sete livros de poesia encontram-se reeditados em Poesia Reunida (Quetzal, 2011).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sob escombros - Manuel António Pina

[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde tu também eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormeceres
sob escombros.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 24,25

Os livros - Manuel António Pina

Noutra E., J. T. M. fala do livro que «que pede para ser lido por dentro dos olhos»[Outro poema do último livro de M. A. P.]

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração ( o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 21

Mosaicos hidráulicos - uma Arte da Paciência

Fotografia de Joana Bourg
[...] um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha, o Alentejo, uma Arte que, percebe-se, dificilmente salvarão da Extinção [...] 
- alguns Recortes:
«Um engenheiro irlandês, uma designer belga, uma filha quase alentejana e pedra mármore. [...]. É uma história com mais de dez anos e que já deixou marcas em casas de todo o mundo.Sean O’Riain e Kristina Verbinnen apaixonaram-se um pelo outro. Depois apaixonaram-se por Portugal. E a seguir veio o mármore. Mudaram as suas vidas para poderem trabalhar juntos e são hoje responsáveis, no Alentejo, pela criação de mosaicos
hidráulicos, uma arte milenar da região, quase extinta, e que é uma herança da presença árabe na Península Ibérica. [...]
Estou aqui em Portugal por causa do mármore. Surgiu a possibilidade de concretizarmos uma ideia, uma arte, e, juntos, mudámos a nossa vida da Bélgica, com muito stress e poluição ão para uma zona da Europa ainda virgem”, conta.
A primeira fábrica que abriram foi em Estremoz. Há cinco anos mudaram-se para Fronteira. [...]
À chegada ao país, garante que teve de trilhar caminhos difíceis para reunir as condições
necessárias para poder abrir uma fábrica, mas a cada porta que bateu tropeçou numa história que guarda com carinho.É por isso que, quando mostra os moldes de ferro que servem de base aos mosaicos conta com orgulho o percurso de alguns. Uns foram oferecidos por antigos artesãos que já tinham fechado portas. Outros saíram de mãos reformadas que voltaram a trabalhar ferro forjado para dar uma ajuda a Sean. Quanto a aprender a arte, propriamente dita, não se cansa de falar em Nelson Cala e no “mestre Zagalo”.
[...]

“A melhor aprendizagem que tive com esta arte é a paciência. As pessoas pensam que é fácil, mas não é. O processo é todo à mão e é complicado, mas pode fazer-se um desenho muito bonito e pessoal.» [...]

Reportagem de Romana Borja-Santos, Público, P2, 02-01-2012, pp. 4-7

LER ou VER : «audio slideshow» (na série «20anos20histórias»

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

«A infância de Herberto Helder» - Tolentino Mendonça

[é o poema referido na Entrada anterior, «acima-abaixo»]

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

José Tolentino Mendonça (1965 - ;), in Os dias contados (1990); transcrito de A noite abre meus olhos (poesia reunida) [com posfácio de Silvina Rodrigues Lopes], Assírio & Alvim, 2006, pp. 11 - 12

 
Comentário de João Luís Barreto Guimarães: AQUI

Amor (sussurro do) - José Tolentino Mendonça

Um dos sete depoimentos prestados a António Marujo - no caso de J. T. M., por escrito -
( «Bíblia Sete histórias de uma paixão»
A leitura do livro sagrado do judaísmo e cristianismo apaixona pelas mais diversas razões. Como grande literatura, como texto profano, como história da humanidade, como manifesto de dúvida... Católicos, protestantes e uma judia contam a história da sua paixão.)

Sem comentários, claro:

Um sussurro acerca do amor
José Tolentino Mendonça, poeta e biblista
Se alguma vez tivesse de escolher entre ficar com as 7101 palavras da Carta aos Romanos ou com os 21 capítulos do Evangelho de João,seria como se me obrigassem a decidir pela minha mão direita ou pela esquerda. Se não pudesse mais ler o Profeta Isaías, se por alguma razão não mais me fosse dado ouvir as imprecações de Job ou a cítara de David, se banissem os prantos de Jeremias ou o humor de Jonas, se não pudesse voltar à espantosa originalidade de Jesus, sei que isso me tornaria um apátrida. Aceitar perder os livros da Bíblia seria além do mais conformar-se também a perder: a Catedral de Chartres, o ciclo das lendas arturianas, a vida de S. Francisco de Assis, a arte de Giotto, os mármores transparentes de Miguel Ângelo, a Divina Comédia de Dante, grande parte da lírica camoniana, As Flores do Mal de Baudelaire ou a pergunta ardentemente insolúvel que Dostoiévski gravou em O Idiota: “Haverá uma beleza que nos salve?”
Mas às vezes penso que à hora da minha morte gostaria que me lessem o Cântico dos Cânticos. O Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. As mãos ardem folheando este livro, que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.
Neste poema o amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. Há um ritmo incessante de movimentos, quase vertiginoso em alguns momentos. O amor faz destes enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos. Por isso a maior declaração de amor é ainda um pedido: “Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor” (Ct 8,6).
Por António Marujo , Público , P2 , Sábado ,24 de Dezembro de 2011, pp. 4-5

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pessoa - Soares - Desassossego - [«A vida deve ser...»]

TUDO QUANTO de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos. maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qulaquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que sofrer a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porqe sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos. [...]

Livro do desassossego - composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Ed: Richard Zenith. Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 162 - 163

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Castro Mendes - INCIPIT

G. foi à estante arrumar Lendas da Índia e trouxe Modos de Música, de 1996

INCIPIT
(à memória de David Mourão-Ferreira)
E se em vez das palavras fosse um eco
de pura solidão que te chamava?
E se em vez doutro nada fosse um erro
e se em vez do presente fosse nada?

E se em vez da memória fosse um sopro
da pura solidão adormecida?
E se em vez da ausência fosse o corpo
e se em vez de um só verso fosse a vida?

É só jogo de ausências este verso
ou espelho numa leve madrugada,
feito engano de luzes e disperso
batimento de remos na jangada?

(Náufragos de nós mesmos sem saber
as imagens que o verso quis perder).

          Luís Filipe Castro Mendes. Modos de músicaLisboa, Quetzal, 1996, p. 38

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Castro Mendes - RESPOSTA A CAMÕES

Recente, o livro de L. F. C. M. está destinado a um Longo Caminho [...] 

Em epígrafe, C. M. reforça o «empréstimo» do título de Gaspar Correia:

«Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproveitivel aos viventes
que lembrança e memória dos bens e males passados».

RESPOSTA A CAMÕES
para o Luís Quintais
Foi a noite junto à igreja de Diu
ou a tarde que entrámos nas grutas de Elefanta?
Há na tarde para sempre perdido um navio
e há na noite um demónio sinistro que canta.

Os deuses que avistámos na loucura mansa
vingaram-se de nós com seu simples durar
e o Cristo que trouxemos na guerra e na bonança
fez-se deus nesta terra e perdeu-se do mar.

Foi a noite que trouxe este manso esquecer
em que a História se deu no passo de uma dança
e nos chamam de longe os que vieram morrer
além da sua terra e aquém da lembrança?

Foi a noite a entrar na igreja de Diu
ou a sombra de Deus na ilha de Elefanta?
Shiva hermafrodita desta cave sorriu
e o mundo se fez contra toda a esperança!

Diu, Novembro de 2009

Luís Filipe Castro Mendes. Lendas da Índia. Lisboa, d. Quixote, 2011 (2.ª ed.?), p. 95


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

«Os Lusíadas» (o professor que os queimou) - Dulce M. Cardoso

- Houve um tempo - mais «próspero - em que G. estava sempre muito atento às primeiras obras; lembra-se de ter lido Campo de sangue (2001).; não se lembra onde está (na casa de S. A. C.?); não se recorda senão da «dureza» dessa leitura;

- de todos os lados chegavam boas referências - em «Horas Extraordinárias», hoje, por exemplo - ao 4.º título de D. M. C.
- ao longo destas duas semanas, andou na mão - esta manhã, G . atingiu a página 46, ao balcão da «Suiça», no Rossio (Bica a 75 - escalda - T. de M. a 1.75 - idem - «2 dedos de conversa» com a oficiante veterana - )
- sempre gostou de ler em pé, G.; encostado, melhor

RECORTES, junto a «esse ponto aproximado»:

[...] Uma vez o pai foi buscar-me ao liceu e parou o carro debaixo da mulembeira antes de chegarmos a casa, deu-me uma carta do tio Zé, nem uma palavra sobre isto à tua irmã[...] Estava a anoitecer e havia muitos mosquitos, já deves ter percebido o que se passa, não há farda que encubra aquilo que o desgraçado do teu tio é. A carta estava cheia de meias palavras mas dava para perceber que o tio Zé era como os rapazes que eram apanhados a fazer porcarias uns com os outros na casa de banho do liceu. Só que o tio Zé já não era um rapaz e era o irmãozinho soldado da mãe. [...]

Não são conversas que eu saiba ter com o pai e envergonho-me sempre que o pai fala nesses assuntos. Com o Gegé e com o Lee é diferente, passávamos horas a falar de como seria fazer ginga ginga com raparigas brancas, sabíamos que não era a mesma coisa do que fazer com as pretas que nem cuecas usam e fazem aquilo com qualquer um e se quisermos até fazem com dois ou três de seguida, A Fortunata uma vez fez com sete, uns a seguir aos outros, até fizemos fila como na cantina do liceu. O Gegé é o único que já fez ginga ginga com uma branca, a Anita. [...]

[...] Tenho saudades do Lee e do Gegé. A última vez que estivemos os três juntos foi na casa do Ganas, fomos ver pela vigésima vez o filme Emmanuelle [...] Nesse último dia estávamos tão tristes que depois de o filme acabar nem falámos da diferença de fazer ginga ginga com brancas e com pretas. [...] Mas mesmo assim o Gegé e o Lee ainda discutiram porque o Lee disse que nem que fosse só para ver a Emmanuelle nua já tinha valido a pena o golpe de estado. O pai do Lee era um apoiante da revolução e ensinava o Lee a ver benefícios da revolução em tudo, para o pai do Lee os trabalhadores iam ser finalmente livres e caminhar em direcção ao socialismo como os cowboys caminham em direcção ao pôr-do-sol no fim os filmes. O pai do Lee tinha uma bandeira na varanda, uma bandeira do Galo Negro, Savimbi sempre, [...]

[...] O professor de português dizia que tínhamos muita sorte, estávamos a fazer a revolução, a gloriosa manhã de Abril tinha sido só o princípio, os quarenta e oito anos da noite mais infame tinham chegado ao fim [...] O professor de português era novo, usava o cabelo comprido e cheirava a liamba, levava a viola para as aulas e punha-se a cantar o Monamgambé de forma tão sentida como se fosse um preto, [...], não cantava bem mas era melhor ouvi-lo desafinar o Monamgambé [...] do que estudar os cantos dos Lusíadas. O professor de português da turma B queimou os Lusíadas, o império não devia ter existido e os Lusíadas que o aclamam tanbém não. [...]

Dulce Maria Cardoso, O retorno. Lx, Tinta-da-china, 2011, pp. 41 - 46

domingo, 23 de outubro de 2011

«os Lusíadas» (o miúdo que os ia continuar)

de: O míudo que pregava pregos numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 -

9
      O míudo que conta as sílabas pelos dedos não se contenta em contar as dos outros, às duas por três começa a contá-las para si mesmo. E não está com mais aquelas, chama a irmã e confidencia-lhe: Vou continuar Os Lusíadas. Ela ficou um tanto assarapantada, mas leva a sério, como, aliás, tudo o que vem do irmão. Mas não consegue conter-se. Conta a uma amiga, esta a outra, que por sua vez conta a outra, a notícia vai dando a volta, chega ao liceu do irmão e à rua onde moram, os vizinhos comentam, entre eles um escultor célebre, mestre Barata Feyo, o único, diga-se de passagem, que não se escandaliza, acha natural, ao ponto de apresentar o miúdo a dois colegas professores de Belas Artes:
         - É este o homem que está a continuar Os Lusíadas.
       De modo que o miúdo que pregava pregos numa tábua não teve outro remédio senão o de tentar corresponder à confiança de tão ilustre artista. E meteu mãos à obra. Mas ainda hoje não sabe se conseguiu. E o escultor já cá não está para confirmar se sim ou não. Só a irmã, sem ironia, às vezes lhe pergunta: Ainda estás a continuar Os Lusíadas? Apesar da solenidade com que o pai lhes tinha explicado que ninguém poderia nunca continuar Os Lusíadas e que era quase um sacrilégio pensar que sim. Nem um nem outro ficaram convencidos. O miúdo que gostava de armar ao pingarelho acabou mesmo por dizer à irmã:
      - O pai está enganado, não há nenhum poeta que não tenha querido continuar Os Lusíadas.
Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 39-40

sábado, 8 de outubro de 2011

O miúdo que pregava pregos...

... numa tábua, de Manuel Alegre, de 2010 - é «fininho», mas como não há espaço na Estante de M. A., tem «andado pela casa» -
reaparecido, um capítulo, «ao acaso»:

- Tão - diz o miúdo para o pai
- Tão o quê?
- Falta o tão.
- Estás a fazer-te de parvo.
- Não estou, não, falta o tão, o pai não leu o tão.
- Li tudo, qual tão qual carapuça.
- Tão curta a vida.
- Foi o que li.
- Não foi, não, o pai leu para tão grande amor curta a vida, por isso não dá certo, falta o tão.
Então o pai irrita-se:
- Este miúdo gosta de armar ao pingarelho.
- Talvez - diz a mãe -, mas tem ouvido.
Começa então uma espécie de jogo. O pai ora lê os versos completos, ora propositadamente omite uma ou duas palavras. Mas o miúdo que riscou o exemplar de Orpheu não se fica.
- Ao sol.
- Lá estás tu.
- O pai leu ó virgens que passais ao poente, mas não é assim, falta sol, ao sol poente, ó virgens que passais ao sol poente.
- Tens jeito para a métrica - comenta o pai sem se dar por achado.
- Ele conta pelos dedos - diz a mãe.
- Não pode ser, ninguém lhe ensinou.
- Há coisas que não se aprendem.
- Tudo se aprende, até os pássaros ensinam os filhos a cantar.
- Não é a mesma coisa - remata a mãe.

Manuel Alegre. O miúdo que pregava pregos numa tábua. Lx. D. Quixote, 2010, pp. 33-34

domingo, 2 de outubro de 2011

Renascimento temporário

Temporário, porque faz parte da «natureza» deste Território.

Servirá para colocar «materiais de rectaguarda, outras referências e «desafios»
 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

APAGA -APAGA FINAL

(Cumpriu-se. Desfez-se)

(Fica a primeira e a entrada da «Lição Final» de J. T.)

(Leituras do próximo Tempo entre-ciclos vão morar ao lado)

Última Lição - Velhíssimo PARAÍSO

(foi na quinta, pelas 15:30, informado e «bicado» por P. O. (que Humor), R. lá foi ouvir J. T., um dos Últimos M. - quer dizer, um dos últimos Guardiões de uma certa Memória, de uma certa «AA» - naturalmente, Objecto de - ficcional - Mitificação)

(R. sempre viu o afectuoso, talvez inábil, por trás do exterior algo áspero)

(R. foi, talvez há uma Eternidade - 92-93? -, prof. de uma da suas filhas, a M.)

(o discurso foi Peripatético - não no sentido de quem «ensina passeando» ou «ensina como, ou seguindo Aristóteles» - Lexicon)

(mas, quer dizer, «extravagante na expressão e nos gestos» - Lexicon 
- também sofrido)

Saudações

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O mais simples.

a) Segui as instruções, Maestrina, será que já serve?

b) Textualizar com humildade, respeitando, o mais possível, as autorias.

c) Facilitar o acesso do que se vai lendo e relendo.